evitável

saí da sala de cinema agoniado. a rapariga ficou para trás.

corri, sem correr, para a casa de banho, mas antes que chegasse a uma cabine para vomitar, a luz branca acalmou-me o estômago. lavei a cara. sempre reparei atentamente como o espectro do vómito nos consegue fazer ver ao espelho um arrumador sujo de pele verde rugosa e suada, os olhos cansados e assimétricos.

sequei a cara e voltei à procura da minha companhia, "espero que não tenha pensado que fugi dela". embora me apetecesse.

- então? estás bem? estavas um bocado pálido antes de começares a correr.
- sim. deve ter-me parado a digestão durante o filme. este sushi dos chineses nunca é de fiar.
- sushi dos chineses? sushi é japonês.
- sim, mas estes assim à la carte mais baratuxos são dos chineses.
- hãã? whatever...

encaixei o desprezo dela, não tinha literalmente estômago para ter aquela conversa. depois de duas horas no escuro a ver o Mamma Mia, a ouvir as suas gargalhadas descontroladas em uníssono com a restante audiência, numa exaltação irracional que me fez lembrar os Dois Minutos de Ódio do Grande Irmão, não tinha de facto coragem para iniciar a conversa arrogante, que é a minha, de quem percebe a diferença entre sushi bom e sushi de merda. fico sempre mal aos olhos ingénuos dos leigos.

nesta leiga em especial, não me interessava um pêlo púbico que fosse. nem uma pestana transferida numa coçadela de olho rameloso. foi um erro, que percebi no momento em que ao telefone ela escolheu o filme. mas o que podia eu fazer? "desculpa, eh.. que estupidez, lembrei-me agora que sou gay, este date não faz sentido" ou que não sou gay e daí não querer ver o Mamma Mia e os guinchos cantantes do Pierce Brosnan como quem está a ser sodomizado a seco.

- leiga, disse-lhe eu, estou a ficar com um bocado de sono, além de que ainda estou um bocado enjoado. se calhar vou pôr-te a casa.
- ah é?! então mas não queres tomar um copo? pensei que..

não sei dizer que não às pessoas e isso irrita-me, corroo-me por dentro enquanto respondo algo alimentício como - "onde?"
- não sei, ali ao Cup & Cino..
- eich, isso é péssimo, queres ir ao Galeto?
- Galeto? ahah, isso não é só velhos?
- epá, ya, mas come-se. se nunca lá foste temos que ir mesmo.

o serpentear do balcão teve nela o efeito contrário da minha expectativa. riu-se, mas no mau sentido. ficou desiludida pelo facto de não haver mesas. "não te preocupes, tem mais piada assim" assegurei-lhe, mas não era de todo a sua ideia de piada. sentámo-nos. à nossa frente, do outro lado do balcão, estava um casal de cinquentões. usados, experientes, cansados, amargos. não se falavam. ele fumava, ela sorvia a sopa. ele olhou para nós, pensou que éramos um casal jovem, feliz, iludido. li o seu pensamento "coitados, não sabem o que vos espera, ingénuos. aproveitem enquanto são estúpidos e ignorantes". não sei se ele leu o meu "velho, não estou melhor que tu. já estou farto desta gaja e ainda nem a vi nua".

- mas costumas vir aqui?
- costumar costumar, não costumo, mas isto tem piada, tens que admitir, é kitsch!
- é estranho, toda a gente de frente uns para os outros, os empregados aqui no meio, pessoal muita feio. olha aqueles 3 indianos?! cheios de ouro? parecem dealers! um deles não pára de olhar para aqui. e aquelas velhas parece que estão no engate!
- certamente estão. tenho pena que não gostes disto.
- não é que não goste, é um bocado cota, ainda me estou a habituar. LOL!

LOL?! nunca tinha ouvido alguém a verbalizar essa juvenil sigla onomatopaica das interwebs. que triste. provavelmente ela visualizou a frase na sua cabeça "n eh q n goxte". que geração perdida. isto não faz sentido, vou acabar com a farsa.

- eu estou algures entre esta geração e a tua.
- hãã?! (outra vez o nariz torcido de desprezo das mulheres) não tens a minha idade?
- nah. tenho 35.
- oh, estás a gozar. q extupiduuu!
- não, tenho mesmo - disse eu, sorriso nos lábios, no meu habitual misto de orgulho imberbe e paternalismo de avô, cada vez que lanço a bomba da minha idade a estranhos.

a importância que dou a esse momento torna-o ainda mais ridículo, tornei-me especialista, em vez de o banalizar. felizmente nunca nenhuma miúda me perguntou "então o que é que um cota como tu está a fazer com uma pita de 20? qual é o interesse que vês em mim? não era suposto teres uma sensatez, bagagem cultural, emocional, interesses, carreira, que eu não conseguisse acompanhar? não tens andamento para as miúdas da tua idade? és um triste na tua faixa etária, desprezado? és um velho rebarbado e anacrónico?" elas não pensam assim. pensam, como pensavam quando eu tinha a idade delas (rancoroso e angustiado por isso), "este gajo mais velho gosta de mim pelo que eu sou, acha a minha forma de pensar suficientemente interessante para investir em mim, ser o meu patrono, ensinar-me. e ele tem tanto para me ensinar! e eu quero tanto aprender!". e é verdade. LOL!

- o miguel não me disse a tua idade! que cena marada!
- que cena marada de facto..

senti esse momento como o virar da noite. "epá, fuck it. o que é que tenho a perder? já aguentei tudo o que tinha a aguentar hoje no que diz respeito a fretes. agora que era a altura de começar a ganhar vou-me pôr a arder? que desperdício!" e realmente, que desperdício, 20 anos bem empacotados, geração Morangos. eu há um mês que não tirava a roupa a uma mulher, no meu calendário é a altura em que começo a duvidar da existência de Deus e a chatear-me com os amigos. investi como profissional que sou. na verdade apenas porque, quebrada a farsa, passou a ser uma questão de competição comigo próprio, o meu eu físico, contra o meu eu crítico. a inevitabilidade daquilo que sou, contra a consciência auto-destrutiva do ridículo. uma questão de orgulho bipolar.

o resto da noite correu as expected. conversa galopante, piada fácil, o Mamma Mia deixou antever a receita. ela riu gargalhadas por entre confidências de que para ser feliz com um homem bastava que ele a fizesse rir. não tivesse eu um cérebro e teria ficado contente com esse cliché auto-ilusório, da idade em que o riso é mais importante que o sono.

casa minha. sexo começou mal. detesto mulheres que querem satisfazer o homem às expensas da sua própria satisfação, munidas de um contorcionismo ofegante e tão frenético quanto falso que arrisca partir-me a pila. parece que estou a foder um touro mecânico. assim que a consegui agarrar a duas mãos, abrandei o ritmo, correu melhor. até deu para ela fingir um orgasmo com bom aspecto. portanto, acabámos ambos contentes.

acordei de manhã agarrado ao rabo de um corpo despido e firme, com um cheiro a criança que me fazia sentir um criminoso envergonhado, mas satisfeito. fui à sala enquanto a miúda dormia e como sempre, mandei uma mensagem à Sofia. "olá. esta noite correu-me bem lol! vou agora fazer um pequeno almoço completo, como aqueles nossos, para a minha one night stand! não tenhas ciúmes :) e tu, como estás? tenho saudades tuas. podias ao menos responder às minhas mensagens para saber que estás bem. ou atender-me. beijo grande ***".

todos os dias resisto a mandar-te pró caralho

sou um bocado dependente das amizades. do contacto continuado com os meus amigos, das combinações repetidas, do regresso aos assuntos mortos. não estar com uma pessoa mais de 3 semanas para mim é sinónimo de que as coisas não estão bem. de que a outra pessoa, ou eu, não sentimos saudades um do outro, necessidade de reencontro. é sinónimo de que a amizade sofre de um mal crescente, identificado ou não, que vai acabar por corroê-la e quebrar o elo. a vontade diminui. a prioridade muda. é mais forte do que eu, senti-lo.

mudei um bocado com a morte da minha prima-avó (não mudei, mas precisava de introduzir esta variação). por um lado comecei a precisar de estar com as pessoas mais vezes, dizer-lhes que terei saudades delas quando desaparecerem, embora nunca o diga. e desperdiço cada oportunidade de o fazer. por outro lado deixei de ficar tão ressentido por se afastarem, ou por precisarem menos de estar comigo, mas continua a custar-me a recusa. não sei, um trauma de infância qualquer, não me lembro de me terem recusado nada, mas se calhar o problema foi precisamente esse. fodam-se.

melhorei. preciso hoje mais de momentos a sós com o meu cérebro, com a minha pila, com a minha voz. não suporto ser interrompido a ler, a pensar ou a ver uma merda qualquer na televisão idealizada para vegetais. mas ainda não dispenso o contacto semanal com pelo menos um dos meus amigos.

gostava de ser como aquele amigo meu, o mais antigo (mas isto não é uma carreira de professor), que não vê o email. não usa, ou usa pouco, ou só responde a coisas urgentes e num prazo de 2 dias (que exagero, no mínimo 3 dias úteis) e não responde sequer à urgência em questão. o email é sobrevalorizado, diz ele. nunca será um verdadeiro meio de comunicação entre as pessoas.

tem 3 telefones e nenhum deles é da minha rede. em qualquer dos casos nunca anda com os 3, deixa sempre um em casa ou no carro. realmente andar com 3 telemóveis é estúpido, principalmente sendo 2 deles da mesma rede, e fazem-no parecer mais gordo. assim mensagens escritas estão fora de questão porque não há garantia de lhe chegarem a tempo e horas. só mesmo ligando e mesmo assim pode não atender nenhum dos telefones.

com ele não se deve dar uma combinação por garantida, pode aparecer, ou pode não aparecer. a horas nunca, isso é certo. uma hora combinada significa a hora em que ele, na outra ponta da cidade, começa a pensar se vai aparecer ou não, resolver assuntos pendentes, pesar os prós e os contras. avaliar o custo-benefício.

não é de admirar. eu ando uma seca de pessoa. os verdadeiros amigos dele são divertidos, grandes histórias de festas, bebedeiras, carnavais. estão sempre a ir aos anos uns dos outros. comigo e com os outros amigos comuns não há diversão. o tempo a passar é um martírio, é um esmagamento em câmara lenta. sobretudo quando ele aparece, logo por azar. de qualquer forma é-lhe indiferente. não precisa de amigos. a não ser quando precisa deles. (ciclicamente).

eu gostava de ser assim. não estou a brincar, admiro-o. não necessitar de estar ou falar todos os dias com as pessoas para saber que me atendem o telefone se eu precisar. que, desde que não morram (e as alimentemos uma vez por ano), as pessoas não desaparecem da linha de horizonte, da camada exterior de protecção. isso até me parece plausível, e nem duvido que assim seja, como é no caso dele, em 90% dos casos. mas se me afastasse de um grupo específico, perderia todas as cusquices. e sem as cusquices, não há propriamente cumplicidade. e afoga-se a amizade em formol.

style over comfort

queria mexer-me dentro deste casaco. é impossível.

fica-me bem, mas só se não me tentar mexer. ao mínimo movimento de braço fico com o pulso à vista, por onde entra uma corrente de ar que sobe pelo interior do antebraço e me eriça os pelos do pescoço, e sobretudo é inestético, como se fosse o casaco do meu irmão mais novo. quando viro a cabeça para um lado, sinto o ombro do lado oposto a apertar e a flectir para a frente, e o tecido das costas a fazer uma diagonal de lençol assimétrico. consegui apertar os botões mas não estou a conseguir respirar muito bem. tento respirar pouco e pausadamente. sinto as costuras a dilatar a cada inspiração.

já me disseram que fica impecável, mas aos amigos mais íntimos admito que estou bastante deprimido com a realidade deste casaco. não é bem o que aparenta. "por exemplo estes dois bolsos enormes no peito: não têm função, são puramente estéticos". os conselhos não variam muito, tenho que o mandar arranjar, se me sinto mal não posso continuar a aguentar uma situação que não há maneira de melhorar. mas tenho medo que façam merda e o estraguem para sempre. e aí fico sem a forma e sem a função. sem a aparência e sem o conforto.

porque já se sabe, uma pessoa só dá valor ao que tem quando o perde. se eu não for uma princesinha exigente e mimada, ele sempre serve para sair à rua e, no mínimo, passar despercebido. se eu ficar quietinho, ele até me aquece. é o que se quer da vida. e de tempos a tempos, ouvir alguém a gabá-lo. "eu e o manel sempre vos admirámos. tu e o teu casaco são uma referência para nós, para toda a gente".

o meu futuro

é assim, passamos 15 ou 20 anos a tentar ser irreverentes por imitar uns quantos chavões da adolescência, evolutivos, alguns já do tempo dos nossos trisavós.

mudar o mundo, depressa se transforma em "ok, primeiro viajar, depois mudar o mundo" e aí estamos a um passo das férias no algarve uma vez por ano.

as relações modernas, abertas, sem laços, a poligamia, a bissexualidade, a abstinência, resultam em gémeos falsos e um golden retriever.

o trabalho. patético. descobrir a fusão a frio, ser uma referência na área, ir à televisão onde nos pedem a opinião, a admiração de todos os pares (o primeiro caso em portugal), ter uma estátua, o nome numa rua em todas as capitais de distrito. primeiro cruza-se isso com o mudar do mundo, mas já na fase do viajar primeiro, trabalhar lá para fora, ganhar o ordenado mínimo de um país desenvolvido, equivalente a 4 ou 5 deste país. passamos de gurus da arquitectura a avecs. voltamos nas férias, com uma energia nauseabunda, a saudade, ninguém tem paciência para estar connosco mais do que uma tarde de café. perdemos amigos.

bom, de qualquer forma, mudar o mundo não paga rendas, não paga bebidas ao fim de semana, não paga holme's places, iphones. até é giro ser um mártir desde que não se tenha que morrer, ou para esse efeito, deixar de comprar certas coisas impecáveis que os outros também têm. há limites.

eu não saí da europa. tenho vergonha de falar no meu interrail, não se compara ao teu transiberiano. também não fui trabalhar para fora, fiquei cá, mas trabalhei mais que tu, mesmo só fazendo merda, porque o meu patrão não tem escola europeia, mas asiática. horários, direitos humanos, não se me aplicam. em compensação ganhei muito menos. mas o futuro está aí à porta.

não tenho um par de gémeos, tenho um filho único ....... vale muito mais do que qualquer dos meus sonhos nestes 40 anos. ele vai ser diferente de mim. e do meu pai, e do pai dele. já se consegue ver hoje em dia, é um líder. vai ser deus na terra.

verdes anos

não tenho razões para me considerar um gajo bonito. a adolescência não me sorriu em termos amorosos, nem as raparigas.

os dias de escola eram passados a fumar com alguns colegas atrás do pavilhão de química. da parte que me lembro, claro, das aulas em si não me lembro de muito. lembro-me de passar o tempo todo nas mesas do fundo da sala a tentar esconder-me atrás dos colegas, não para fazer alguma coisa de mal, mas para o professor não me ver e não se lembrar de me perguntar alguma coisa sobre a matéria, ou quem era eu. não sei como acabei o secundário.

sempre houve os casaizinhos apaixonados e desapaixonados, que se sentavam ao lado um do outro, ou o mais afastado possível na sala, que iam ao cinema e festas e concertos e de férias com outros casais apaixonados ou em caldinhos organizados. autênticas novelas adolescentes a que eu assistia num misto de nojo e inveja.

fora da escola andei sempre em grupos de gajos, gajos, gajos, nunca houve uma única rapariga no nosso grupo. as poucas que se tentavam aproximar não eram muito interessantes e de forma natural acabávamos por evitar dar-nos com elas, como se nós fossemos gajos muito interessantes. dos meus amigos apenas um tinha tido namorada e vangloriava-se de já não ser virgem, mas nunca acreditámos verdadeiramente, porque namoraram 1 mês e tinham 12 anos, numa altura em que o curfew era às 7 da tarde.

cheguei a pensar que era assim que os homossexuais descobriam a sua orientação, mas apesar de algumas experiências confrangedoras em balneários de piscinas públicas, nunca isso se me revelou alternativa viável.

saíamos num grupo de 4 ou 5, íamos à feira, à praia, a uma festa qualquer. agora à distância não me parece que tivéssemos grande jeito para roupas mas achávamos que tínhamos. pelo menos nenhum de nós teve um Duffy, valha-nos isso. mas isto para dizer que em ocasiões sociais não seríamos dos mais vistosos. ou se éramos não seria pelas melhores razões. por isso, regra geral, não socializávamos de facto. íamos apenas ver as vistas, gozar (e ser gozado).

qualquer casal no bairro era risível, o joca teve desde sempre uma namorada que era uma rolha de poço, o bruno lombardo e a carla (filha da dona adelina) quando começaram a andar "só estragavam uma casa" porque não era previsível que alguma vez algum deles viesse a engatar alguém, era uma relação ridícula, o outro puto vizinho do ricardo arranjou uma pita muita gira, mas era tão ciumento que era patético a quantidade de vezes que estavam a discutir em público por causa de uma merda insignificante.

mas à medida que crescíamos tornava-se cada vez mais óbvio que estávamos a perder alguma coisa. alguma coisa de que víamos os outros putos do bairro usufruir e nós não. os gajos que achávamos cool não tinham namoradas mas tinham curtes, montes delas, e estavam sempre a contar histórias, algumas com repugnante sensibilidade para com as mulheres. nós nunca tínhamos sequer tocado na pele de uma rapariga a não ser quando na praia, aproveitando os aglomerados de pessoas a divertir-se no rebentamento das ondas, nos atirávamos contra as miúdas de bikini e ficávamos a rebolar com elas na espuma para depois pedir desculpa e dizer que tinha sido sem querer (tantas vezes saí da água de pau feito).

começámos a ter paixões assolapadas por raparigas que não conhecíamos bem, cada um de nós tinha uma, o nuno não tinha mas inventou, parece-me. essas paixões não davam em nada, só em incentivos constantes "vai lá! pede-lhe o número de telefone" "és doido, e se ela não me dá? nunca mais consigo olhar para ela" "se não der é porque é uma puta e cagas nela! passas à próxima!" sim, já foram tantas... enfim, nem os incentivos eram racionais, nem a vontade de arriscar era muita. davam em relações unilaterais duradouras, com ciúmes e tudo.

tornava-se também óbvio que o facto de andarmos frustrados estava a criar dentro do nosso grupo uma crispação grave, com paixões pela mesma rapariga (eu vi primeiro), com perdas de paciência por coisa nenhuma, que acabaria por nos fazer desconfiar uns dos outros e eventualmente afastar.

mas terminado o secundário, e tendo cada um de nós seguido um curso diferente, chegou uma altura de reavaliações. redefinições de amizades, de conceitos, de culturas, de gajas. muitas delas vinham do interior do país, e apesar de, não sem estranheza, me parecer que algumas delas seriam muito mais vividas que eu, eram quase todas bastante abertas, interessadas, joviais, atenciosas. pela primeira vez, possivelmente pela não presença do meu grupo de amigos, eu era capaz de comunicar com raparigas. tinha alguma dificuldade em manter certo tipo de conversas, de sexo por exemplo, para além de ser chocante ouvir certas palavras da boca de raparigas, tinha a clara sensação de que era o único que não conhecia o assunto por dentro. salvo seja. e mesmo que viesse a conhecer em breve, como esperava, ainda me faltava muito para o conhecer a fundo. (esta dispensava-se).

não passou muito tempo antes que conseguisse, de entre um grupo de raparigas que achei horrível nos primeiros dias, começar a gostar de uma rapariga de caracóis castanhos, olhos verdes e lábios de manuela moura guedes (se conseguirem retirar da vossa cabeça o resto da cara da manuela moura guedes ganham o euromilhões). tinha, isso sim, debaixo das camisolas de pastor que a mãe lhe devia tricotar, um generoso par de mamas, e tentei escolher bem a acuidade das palavras (não descurar) para que pelo menos o leitor masculino consiga entender a qualidade daquilo que acabo de descrever e limitar-me as palavras num assunto que me apetece alongar ad aeternum, tal a excitação que provoca em mim. sobretudo quando me lembro do início do 2o semestre, ui! a primavera.

esta sofia dava-me atenção. nos jantares de turma, logo no primeiro aliás, quando a turma se dividiu entre o pessoal do transe e o das brasileiradas para decidir para onde seguiríamos, ela lançou comigo o grupo do pessoal do pão com chouriço, que infelizmente teve demasiados aderentes. penso agora como estava bêbado e insisti para irmos todos, inviabilizando a minha possibilidade de fazer figura de parvo sozinho com ela. lembro-me depois de estarmos sentados nuns degraus a comer, ela a dizer que o chouriço dela era maior que o meu, senti-me verdadeiramente feliz. bêbado, claro, mas ela também, e ambos menos que o luis pissarro que estava a rebolar no seu próprio mijo e nos proporcionava um espectáculo vaudeville com cânticos grotescos das outras miúdas da turma, delfins, se bem me lembro. falei com ela de imensas coisas mas no dia seguinte e até hoje não consegui lembrar-me do quê. eventualmente ela meteu-se num táxi, e aí acabou também a minha noite.

esta memória permanece como o momento alto da minha relação com a sofia, com as mulheres em geral, apesar de progressivamente termos ganho confiança, termos feito umas directas juntos a trabalhar para projecto, e termos até constatado que à nossa confiança crescente bastava apenas acrescentar uns beijos para sermos namorados (e termos de facto vindo a fazê-lo e a sê-lo). Penso que por causa da atenção que ela me dava, grande novidade na minha vida, não associei aquilo que sentia por ela às outras paixões que tinha tido na adolescência, por raparigas que não tinham percebido que eu existia, e tenho vergonha em admitir que, comparando, os sentimentos pela sofia eram bastante menores, menos agudos. a baixa conta em que eu me tinha perante o sexo oposto não me deixava admirar a sofia da mesma forma, pelo simples facto de ela sorrir e reluzir os olhos quando falava comigo. apesar de triste esta constatação, foi possivelmente isto que me permitiu aproximar dela sem fazer a mesma figura de mentecapto que fiz toda a minha vida cada vez que abria a boca ao pé de uma rapariga de quem gostava. quando percebi que gostava dela já tínhamos alguma confiança e ela já gostava de mim. não havia forma de estragar aquilo (é estranho, mas o laço entre dois seres humanos apaixonados é exageradamente elástico).

Foi sem grande surpresa mas com uma ansiedade humilhante que deixei que ela me beijasse (!!) numa dessas directas de trabalho na casa que ela alugava em lisboa. estávamos os dois na cozinha, eu a fazer dois baldes de café e quando me virei da bancada com as canecas na mão, ela beijou-me enquanto me passava a mão pelo cabelo e encostava a mim aquelas mamas cheias, mamilo dela com mamilo meu. tremi tanto que entornei o café todo, por cima dela, por cima de mim, na carpete branca. ela riu-se mas eu comecei a ficar com falta de ar. estava irritado por não conseguir controlar os meus movimentos parkinsonianos, o meu suor, o meu rubor, senti-me patético. senti até que os meus intestinos me podiam atraiçoar a qualquer momento. mas ela foi querida como só uma mulher feliz pode ser, enquanto limpávamos o chão ela ia gozando com a minha falta estabilidade, imitava o que me pareceu um frankenstein drogado (seria eu?), dava-me beijos no pescoço, deixava cair pacotes de açúcar na minha cabeça, fazia-me cócegas, os dois de joelhos a limpar o chão. limpou-me as calças com um pano e inadvertidamente tocou-me na zona das cuecas, que é como quem diz na pila, mas só eu é que dei importância a isso. era a primeira vez que alguém o fazia, mas o nervosismo não deixava a minha pila encher-se de orgulho, pelo contrário, estava transformada num cateter. acabámos a noite deitados no sofá, vestidos, com ela a ensinar-me a beijar com língua.

tornámo-nos num casalzinho da turma, éramos bem aceites por toda a gente, íamos ao cinema, a festas, à praia (ui, o verão..) e de férias com outros casais e não casais. comecei a entrar nas conversas de sexo com outro à-vontade, depois da triste experiência das primeiras 3 vezes que tentei usar um preservativo as coisas começaram eventualmente a correr melhor, deixei de oscilar entre a total ausência de erecção e a ejaculação precoce.

todos os dias o savoir faire da sofia me surpreendia um pouco mais, descobri que ela tinha já tido dois namorados de longa duração, e depois de lidar com "sim, o bernardo tinha uma pila beeemm maior que a tua, mas não é o tamanho que interessa" comecei apenas a concentrar-me naquilo que ela poderia esperar de um namorado, com certeza eles tinham já subido a fasquia, o que me assustava, dada a minha inexperiência, mas ela descansava-me sempre com "eram uns putos, foram relações de adolescente, hoje em dia preciso de um homem, preciso de ti". esta frase para mim era uma contradição, mas preenchia o buraco temporariamente.

depois de uma fase excelente, longa, da qual tenho imensas fotografias, veio uma fase difícil de que me custa lembrar, a relação explodiu. eu sei, as minhas inseguranças, por vezes a minha indiferença pelos esforços dela, contribuíram para a precipitação de acontecimentos no final do 2o ano lectivo. deixámos de andar juntos na faculdade. nos jantares de turma acabávamos a falar com outras pessoas a noite inteira, separados. ela tentou falar comigo algumas vezes acerca disso, mas convém não esquecer que eu nunca tinha tido uma relação, aquilo para mim era eterno, nunca teria fim, tal como a relação dos meus pais que se odiavam mas continuavam juntos. sempre evitei as conversas sérias "acerca da relação". um dia mais uma vez "precisamos de falar", sim, já sei, achas que andamos afastados, diz lá, qual é a tua solução? "não há solução, acho que esgotámos isto"...... hã? esgotámos o quê? então? e agora? "agora nada, é melhor acabarmos, já não sentimos nada um pelo outro, eu não sinto"..... senti no estômago a mesma sensação de quando ela me beijou na cozinha a primeira vez, mas o horizonte desconhecido não se afigurava desta vez como um mundo de continentes por descobrir, antes como uma Terra plana e perigosamente próximo da aresta, com vista para o vazio.

o que se passou no resto da conversa foi demasiado humilhante para reproduzir, inclusivamente nos dias seguintes, telefonemas, mensagens, o vazio completo. era o fim do ano, por isso já raramente nos víamos mas de cada vez que isso estava para acontecer ficava num estado de ansiedade nos dias anteriores que não dormia. também não comia, emagreci imenso, perdi a barriga de cerveja, which was nice. qualquer mensagem que recebia ia a correr para o telefone, mas era geralmente a Vodafone a dizer que tinha que carregar o cartão. cheguei a tirar o som do telefone, numa atitude que depois percebi masoquista, porque estava sempre a olhar para o ecrã. a pouca comunicação que houve nos tempos seguintes foi cordial da parte dela, disfarçadamente desesperada da minha parte. nunca mais deu em nada.

vivi no pânico de vir a saber que ela era feliz. e um dia soube que pelo menos tinha um namorado. vi-os juntos sentados no bar da faculdade, ela ao colo dele, no meio dos amigos que também tinham sido os meus. devia ser feliz, pelo menos tanto como eu fui quando começámos a andar. doeu, mas acelerou a minha convalescença. mas doeu muito.

voltei a dar-me com os amigos do bairro. liguei ao nuno, logo nos dias seguintes, e apesar do ano e meio sem nos darmos parecia que não tinha passado uma semana. ele continuava apaixonado por uma miúda do secundário, que seguiu o mesmo curso que ele. aliás, o que aconteceu foi exactamente o inverso. ele seguiu o curso dela, e continuava sem admitir que Relações Internacionais não era o que ele queria seguir e apenas o fez para ir atrás dela. todos os outros tinham finalmente provado a carne feminina e tinham ficado viciados, embora nenhum deles tivesse de facto arranjado namorada. estávamos e temos estado todos bastante mais abertos a novas amizades, menos hienas, saímos juntos hoje em dia e é rara a ocasião em que voltamos para casa juntos, mesmo que eu apenas socialize, sem comer nada..

recentemente cruzei-me com ela à saída do metro, pareceu fixe, falou-me bem, fartou-se de perguntar coisas acerca da minha vida, falou-me no novo namorado (que atingiu finalmente os mínimos para as olimpíadas... foda-se), e disse que ainda tinha uma camisola minha com que dormiu um dia que fiquei lá em casa. keep it, disse eu. mas na verdade apetecia-me usar esse pretexto para voltar a vê-la.

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o ricardo tocou lá em casa há uma hora "vou agora para o café de cima. passa lá."

quando entrei senti-me observado, estava uma miúda demasiado gira sozinha a ler um livro, que se mexeu até captar a minha atenção e olhava-me ansiosamente. coisa rara, no meu reportório. sentei-me com o meu amigo.

"olá. já pediste?"
"já. viste a gaja do livro ali à janela? podre da boa!"
"vi, acho que estava a olhar para mim."
"a olhar para ti como?"
"com os olhos."
"oh, estava a olhar porque tu entraste, estava a ver quem era"
"não sei, mas pareceu-me bastante interessada em fazer-me ver que estava a olhar para mim."
"foda-se que porco, eu vi-a primeiro!"
"a questão é: ela viu-te a ti?"
"não, isso não é assim, eu vi, está marcada. já sabes."
"então vamos lá dizer-lhe isso 'olha, nós costumamos marcar as raparigas, como as vacas, e o meu amigo marcou-te. és dele.'"
"és mesmo cabrão, então vá, se é tua tens que ir já lançar o laço, senão vou eu."
"assim pressionado não dá!"
"vá, tem que ser, se estás a desmarcar uma gaja que eu marquei tens que ter tomatinhos."
"hhmm.. espera aí então, não me stresses."

levantei-me, vim ao balcão, pedi um sumol de ananás e um pão de deus misto. vou fazer o quê? sento-me lá? digo-lhe o quê? ir comer para o pé dela é estúpido, fazer migalhas.. mas ela estava a olhar, isto aconteceu umas 3 vezes na minha vida e duas delas foi uma tia ninfomaníaca. está a olhar outra vez! vou lá, caguei. vou falar de Sumol vs Fanta vs Frissumo ou explicar-lhe como ver se um pão de deus é do dia. não! vou levar-lhe um kinder surpresa! bora lá.

A 0182

na tentativa inusitada de explicar ao revisor do eléctrico a razão de não ter bilhete, sem querer, escapou-se-me um foda-se.

"modere a linguagem" disse ele "não vê que estão aqui senhoras?"

"senhoras?" disse eu "também há aqui senhores, esses preocupam-no menos?" claramente preocupavam muito menos, senão não teria perdido os primeiros 15 minutos da viagem numa conversa de cortesia com as duas vistosas senhoras que viajavam dois bancos à minha frente, e que durou exactamente o tempo de eu desfazer completamente nas mãos o meu bilhete "eu já lhe expliquei, quando o vi entrar tirei o bilhete do bolso. você demorou, eu estava distraído e fui fazendo este rolinho com o bilhete."

"não goze comigo, isto não é bilhete nenhum, não tem nada aqui impresso, quer que eu acredite que isto é um bilhete?"

"ouça, repare nos meus dedos.. estão completamente pintados de preto. é a tinta do bilhete, que saiu toda."

"portanto, você tem os dedos sujos e por isso eu não o devo multar, é isso?"

"não, você não me deve multar porque eu comprei bilhete."

"e onde é que está o bilhete!!? irra!"

não me contive "modere a linguagem...."

ele não se conteve. tirou-me o bilhete das mãos, agarrou-me pelos cabelos e atirou-me para fora do eléctrico, para me estatelar de cara no chão aos pés das pessoas que se encontravam na paragem do eléctrico.

"ahah" gritei vencedor enquanto cuspia uma beata pisada "enganei-o, isso não é um bilhete! é uma senha da Loja do Cidadão!"

óbvio

ao fim de pelo menos duas horas a fazer conversa de sala com pessoas desinteressantes, cruzou o olhar com "a" miúda da sala. já a tinha visto como é óbvio, era visível, mas não estava à espera que ela fosse olhar para ele desta forma. com um eye contact de mais de 3 segundos, com um sorriso implícito, com demorada dessincronização entre o virar da cara e o virar dos olhos. foi tão óbvio que a sua alma se encheu de confiança.

tirou mais um croquete da mesa mais próxima e pensou se faria bem em aproximar-se da dela ao primeiro olhar, seria um bocado rebarba descontrolada, próprio de alguém que não está acostumado a que olhem para ele "olha-me esta! a olhar para mim, já foste's!". no fundo foi o que pensou, mas isso não podia mostrar. manter o nível. além disso o seu cepticismo não permitia que se agarrasse muito a esta tese. conhecia suficientemente o jeitinho inato para fazer merda mesmo numa situação aparentemente ganha.

mastigou o croquete bem mastigadinho e pensou, pensou, e mastigou o croquete. entretanto passaram uns canapés com uma uva em cima e bacon lá para o meio e tirou um, tinham bom aspecto. afinal estavam um bocado oleosos, mas comiam-se. que raio, tinham uma folha de qualquer coisa verde que não conseguiu identificar, até o palito ficou verde ali à volta. se o palito ficou assim, como é que estariam os seus dentes agora?! merda. tinha que ir à casa de banho verificar. engatar de dentes verdes só funciona com raparigas muito específicas. pousou o copo de moët&chandon e antes que se voltasse ouviu "os croquetes devem estar mesmo bons, ainda não saíste daqui do pé da mesa" era ela! merda, ela tomou a iniciativa, e ele não teve tempo para pensar em nada, ainda estava a mastigar o canapé com coisas verdes e tinha a cabeça completamente oca, sobretudo depois de uma pickup line daquelas. "por acaso estão, a minha tia faz uns parecidos" a minha tia! que estupidez de conversa, a tia dele fazia croquetes, ainda por cima cuspiu um bocado de casca de uva, será que ela viu? e agora? assumia que tinha cuspido e fazia uma piada acerca disso? que género de piada? ela continuou "ai faz? é cozinheira?" pronto, pior do que a conversa de merda era ela entrar na conversa, dar hipóteses àquela conversa, mais valia que tivesse gozado com ele, assim podia baixar logo a guarda e adoptar a postura nº3 'pois, eu sei que sou estúpido, gozo comigo próprio e é por isso que me achas piada' mas agora tinha que entrar na conversa.

bom, decidiu mudar a direcção "não, eu não tenho tios. estava só a querer parecer interessante" - "ahaha, fizeste um bom trabalho, fiquei mesmo interessada na tua tia" - "hhmm.. então também te deves estar a divertir tanto como eu aqui nesta festa" - "sim, não conheço quase ninguém, sou irmã da galerista" - "ah, boa, eu sou irmão da artista" - "ah, isso é interessante, podias ter começado assim a conversa. então explica-me lá, ela é mesmo bipolar?" - "não, é só parva" - "foi o que me pareceu ... aquela escultura que parece revestida a vomitado é um bocado fálica, quando a vi pensei que a tua irmã também tinha visto um vídeo que me mandaram por mail chamado 'extreme blowjobs'" - "ahahaha" - "que vergonha, ainda agora te conheci estou com estas conversas, eu não sou assim, ok? isto é do champanhe" - "não faz mal, eu vou só ali dizer à minha irmã para mudar de galerista" mas a gargalhada marcou o momento em que se deslumbrou com ela. a conversa estava um bocado exponencial, ele imaginou-a um pouco mais uptight, mas no mínimo tinha encontrado alguém com quem falar o resto da festa.

"olha, já agora, estava a evitar dizer-te mas tens uma coisa verde nos dentes" - "ah! obrigado, epá e desculpa lá também eu não te ter dito antes, estava com vergonha, mas tu estás com uma maminha de fora" - "ai meu deus! estava assim há muito tempo?!" - "desde que chegaste à festa. vou buscar mais champanhe, queres?"