Vendo-me
inteiro ou por peças
mestre dobras
saí hoje de casa com a perfeita noção de que não era um dia bom para ir mostrar-me para uma universidade. sentia-me com o estilo do Eládio Clímaco num dia de folga, se ele vivesse numa barraca. voltar à minha universidade traz sentimentos contraditórios. quando lá andei as raparigas tinham o estilo que se esperava de uma universitária, pullover pelos ombros, mangas dobradas, sapatões de vela com sola todo-o-terreno, poupas com gel. não, minto, isto era no secundário, na universidade usavam botas das obras e os cabelos eram ondulados por electricidade estática, e na universidade já havia uma ou outra rapariga que fazia professores e alunos comportarem-se como macacos, sim, havia uma ou outra que, dada a raridade, eram deusas (dos anos 90, convenhamos) simplesmente nunca eram da minha turma, eram da turma de um gajo qualquer das tunas. hoje as universitárias são modelos e actrizes e os universitários também. têm corpos de modelos fotográficos, trejeitos de estrelas de rock, têm a superficialidade social de colunáveis desempregados, mas têm memes próprios e uma estética geracional, que me deixam a leste dos conteúdos e das razões das suas gargalhadas e soberba. entrar numa universidade e ser completamente ignorado por hordas de gajas giras vestidas de forma comovente é uma experiência hostil para alguém que sente que no fundo não devia estar ali. ou aqui ou além. foi como a experiência de voltar ao meu infantário passados dois anos de ter saído de lá, por insistência da minha mãe, que as educadoras me queriam ver, tinham saudades e o caralho (andei lá até aos 9). quando lá cheguei ninguém sabia quem eu era, só havia educadoras que não foram minhas educadoras, os putos mais novos que nunca foram meus amigos, cresceram e não se lembravam de mim, alguns já tinham buço. na secretaria ignoraram a emoção de uma mãe pela boca de um puto de 11 anos, disseram que se quisesse podia passear pelo infantário, mas depois tinha que me ir embora. na universidade não me dizem para ir embora porque simplesmente não dão conta que estou ali, excepto a senhora da biblioteca "tá na hora de arrumar, vamos fechar daqui a 10 minutos" já sei caralho! ontem foi a mesma merda, não demoro 10 minutos a meter o computador na pasta, que idade é que julga que eu tenho? a minha tendência involuntária para perseguir ambientes do meu passado deixa-me desagarrado, anacrónico e sem grupo social. basicamente as mulheres são o meu barómetro de inserção, se me ignoram não pertenço, e tenho sido muito ignorado nos ambientes em que me movo, excepto por cinquentonas fogosas. anda foda-se, arruma as tuas merdas e baza daqui, diz-me uma bibliotecária ao ouvido.
quatro a zero
estávamos na sala, eu no chão, a Sofia estirada no sofá, com um copo de Periquita, de saia e pernas abertas. o Pedro chegou da cozinha com as garrafas de vinho do porto e whisky, o que fez a Sofia dar pinotes de uma alegria contagiante como só dá na companhia de terceiros e acerca de álcool, mas manteve-se no sofá.
- estou a ver-te as cuecas - disse-lhe o Pedro, de ângulo privilegiado.
- não tenho cuecas!
o Pedro riu-se muito, entusiasmado com intimidade libertina que a minha namorada lhe dirigia. eu também senti um kinky chill, cheguei a pensar que ela não tinha de facto cuecas e que o Pedro lhe estava a ver a periquita, algo que já me era rotineiramente invisível e se tornou naquele momento idolatrável pela quebra de exclusividade.
a Juliana que recolhia os pratos na sala de jantar também se riu, muito alto, correu para a sala e disse que também queria ver, mostra, mostra, a Sofia mostrou qualquer coisa que eu não vi e largaram-se as duas a rir, com a Juliana a apalpar-lhe as pernas e a Sofia a soltar guinchos e risos de abuso permitido. wow! olhei para o Pedro. um momento pleno de potencial, sondámo-nos mutuamente por alguma ideia para não deixar morrer a situação.
- vá, vão lá as duas para o quarto, eu e o Pedro ficamos aqui a beber copos.
- não, eu quero é ir aqui com o nosso "casal amigo" e tu ficas aqui a beber copos sozinho.
- ahahah
- ahahahaha
- ehehehehe
- ahahaha
- tudo bem, também já estou velho para vos acompanhar, só ia fazer má figura.
o Pedro sentou-se perto das duas e a Sofia fingiu (fingiu?) uma tontura de paixão, deixou-se cair para cima dele, ele agarrou-a completamente atrapalhado pelo toque incontornável nas mamas enormes da minha namorada. a Juliana levantou-se.
- não Zé, o Pedro está mais interessado na tua namorada e vice-versa, parece que eu vou ter que ficar aqui contigo e vão eles os dois lá para dentro. veremos quem se diverte mais, confio em ti!
inacreditável, eu e o Pedro completamente ultrapassados pela libido licorosa das miúdas, parecíamos dois putos virgens, cada frase e gesto de qualquer uma delas só encontrava em nós risos imbecis de testosterona tímida. a Juliana, já o tinha comentado em excesso com a Sofia, lembra-me a razão porque tenho saudades de ser solteiro, é por gostar de me deixar conduzir pela tesão, sem coração. fantasiei muitas vezes com olhos verdes a ver-me de cima, com o cabelo escorrido todo despenteado e a pele morena a envergonhar o meu bronze. a Sofia, já o tinha ouvido do Pedro, é conservadoramente provocadora. e isso é possível Pedro? sim.
mas agora passava-se qualquer coisa fora do nosso guião. essa tarde tinha sido esclarecedora quanto ao padrão de intimidade estabelecido. nenhum de nós o definiria sozinho, mas os subconscientes destaparam-se uns aos outros na medida da sua concordância e exponenciaram-se além do tabu, a esta hora já desbravávamos terreno desconhecido, como animais estúpidos que em vez de fugir, correm maravilhados para um fogo incontrolável.
essa tarde.
atravessávamos uma serra do Algarve, um calor fervente dentro do carro de janelas abertas, a sinuosidade e demora do percurso foi-nos deixando uma noção de isolamento muito vincada, estaríamos mesmo a descobrir uma zona inexplorada do país se viéssemos a alcatroar a estrada. o primeiro frisson foi a natureza a chamar, por todos. virei por uma estrada de terra e encostei pouco depois perto de uns chaparros.
- vi numa reportagem que esta zona tem algumas comunidades de freaks alemães, completamente isolados e hostis para os visitantes, uns mini sudetas.
- ai não digas isso! não me apetece nada ter que fugir com as cuecas nos tornozelos!
- hhmm.. não é uma má contrapartida se tivermos que apanhar uns tabefes de uns freaks, ver-te de rabo ao léu.
- vejo o rabo dela todos os dias - disse-me o Pedro - apanha tu os tabefes sozinho.
fizemos todos xixi na savana, a cerca de 5 metros uns dos outros, mantendo contacto visual e conversando sobre a actualidade política, a vida dos famosos, o estado da arte, da arte. a Sofia perguntou, enquanto apertava os calções, se não queríamos comer, e embora não tivesse fome conheço-a suficientemente bem para não arriscar enfiar-me num carro com ela tendo-lhe recusado alimento.
- não há aqui um sítio mais decente para nos sentarmos, sem ser aqui ao pé do urinólium?
- acho que ali em baixo há um rio, estou a ouvir água.
tive uma ideia, mas ninguém tinha o fato de banho vestido por baixo da roupa, estavam nas malas, que estavam na bagageira, que estava atulhada de merdas inúteis que não iríamos certamente usar em 4 dias. trouxe só a comida e fomos descendo até à margem de um riacho escondido do mundo mas exposto ao sol. idílico. depois das sandochas e dois litros de água já me apetecia mijar outra vez.
- vou à água.
- mas tu tens fato de banho?
- vou de cuecas, vens Pedro?
- e nós não podemos ir? - a Sofia, sempre chica esperta, sempre de pito aos saltos em frente aos outros, à espera de uma desculpa para mostrar o seu sutiã tensionado e ver a minha reacção.
- podem - eu, sempre a querer exibi-la. acho que a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente.
aquilo que era uma provocação da Sofia foi aproveitado pela Juliana que tirou a t-shirt larga de forma automática, ainda estávamos todos vestidos e ela com as suas perky tits de fora. que tits! o Pedro fez aquela sua expressão de "a minha namorada está despir-se em frente aos meus amigos", eu e a Sofia demos uma gargalhada e o Pedro, conformando-se, contra-atacou com um strip integral e correu para o rio exibindo o rabo peludo, obrigando-me a mim e à minha namorada a completar o ramalhete de strips. elas ficaram de cuecas, que a água tratou de ridicularizar. entrar foi fácil e divertido, sair da água mantendo o decoro foi mais complicado para mim e para o Pedro.
essa noite.
num momento definidor, a Sofia agarrou o Pedro pela cintura e levou-o para um dos quartos, foram em risos eufóricos e desapareceram no corredor a olhar para nós "estamos mesmo a fazer isto!". eu fiquei numa situação constrangedora com a Juliana, que longe da Sofia perdeu o élan da depravação de forma automática. tentei ler-lhe o pensamento e só me ocorreu que a sua moral estivesse a criticá-la, o pânico de estar ali comigo e não ter a certeza do que eu esperava dela. riu-se para mim, o que foi um alívio.
- então Zé? e nós? vamos espreitá-los ou vamos encorná-los de volta?
- bom, se calhar devíamos espreitá-los para termos a certeza de que não vamos encorná-los só de ida.
- ahah, vamos pelo menos ver para que quarto foram.
deu-me a mão, acho que nunca tinha dado a mão à Juliana, foi suficientemente íntimo para sentir uma erecção a despontar no sentido descendente dos calções. aproximámo-nos do quarto da direita, estavam ali, ouvimos beijos sonoros, roupa remexida, um fecho éclair (wtf?), risos curtos e lambidos. tive um calafrio, a minha namorada estava aos beijos com o meu amigo, ele estava seguramente a brincar com as copas E, e ela com a pila dele (não sei a copa da pila do Pedro). a Juliana olhou para mim escandalizada e beijou-me a cara, "também quero" segredou-me ao ouvido.
passado 1 minuto estávamos a deitar-nos semi-nus, semi-trapalhões, colados pela boca, ela cheirava a álcool e a canela. "que corpo, meu deus". deus a existir seria o máximo responsável pelo seguinte martírio previsível. ela não me tocava em nenhum ponto digno de registo, eu ia tentando marcar um ritmo de apalpanço que claramente não estava ser seguido por ela. a minha pila foi percebendo isto e deixou de estar prestes a rasgar-me as cuecas para ficar em modo de alheira de caça. avancei para a minha área de expertise. como diz a Nigella, com convidados façam sempre receitas que têm a certeza que saem bem e fazem sucesso. a minha cara próxima das cuecas dela enquanto estas desciam foi o ponto alto da noite, o meu último momento de êxtase, todos os meus sentidos apurados, os passarinhos a cantar. o ponto baixo foi ela dar uma cabeçada na cabeceira de ferro forjado, e morreu tudo, clima, tesão, esperança. tive que me rir.
- estás bem?
- não... aii! que estupidez. desculpa. acho que é melhor... bem...
- não faz mal, também não estava a perceber bem se queremos mesmo fazer isto.
- pois, nem eu.
eu queria, caralho! ficámos calados um bocado, nus, debaixo dos lençóis, fiquei inadvertidamente a reconfortar a minha pila de forma explícita, só mais tarde me apercebi disto. o som da cama do quarto deles estava a ficar mais claro e ritmado, o que agravou o ambiente. perguntei-lhe:
- está a fazer-te impressão?
- não, nenhuma. nem sei explicar porquê. a ti está?
- não sei. só me está a fazer impressão que não estejamos a fazer o mesmo.
- eu acho que não tenho ciúmes da Sofia, é minha amiga, adoro-a, acho que o sentimento de partilha com a Sofia é dos elementos mais excitantes desta situação, para mim. foi isso que gostei na ideia de estar contigo, tem mais a ver com ela.
- olha que fixe..
- mas isto não é mau Zé. gosto de ti também, gosto de vocês os dois, mas tenho uma relação profunda com a Sofia. tu és homem, olho para ti de outra maneira, mais física até.
- e onde é que o Pedro entra nisso?
- não é suposto entrar. ele dá-me raiva ultimamente, acho que queria partilhar isto com vocês os dois e cagar nele. estava a precisar disso. na prática ele é o único que não me excita nesta situação. excita-me só por conveniência, porque é necessário para eu sentir a posição da Sofia.
- hhmm.. não sei o que diga. não sabia que estavas chateada com ele (ou que eras lésbica?).
- não estou chateada. ando com raiva dele.
- e achas que foi boa ideia termos entrado nisto com essa raiva toda?
- não. sei lá! - suspirou profundamente, afundou-se nos lençóis apesar do calor.
- ok.
calei-me, não entendi um cu da conversa, nem quis forçar aquele momento. comecei a distrair-me com o som da Sofia a ter um orgasmo, ao fundo, a elevar-se. lembrei-me dos mamilos intumescidos das mulheres durante os orgasmos. "a Juliana tem uns mamilos maiores do que era suposto. mas são giros. é pena isto ir morrer assim. e amanhã?".
- tenho mais ciúmes daquela gorda do escritório do Pedro que lhe escreve os bilhetes.
- o quê? mas já a viste? essa miúda é uma rolha de poço. porque é que tens ciúmes dela?
- porque ela está com o Pedro o dia todo, gosta dele e ele fala-lhe demasiado bem. ela deve ser feliz na sua relaçãozinha com ele.
- mas ele não gosta dela. não podes comparar-te a ela, é ridículo. tu és... epá, és a Juliana!
- nem tentes, deves saber melhor que eu o que eu quero dizer.
- ?? eu? ahah. ouve Juliana, o Pedro adora-te. só sei isso.
- então porque é que está ali a foder a tua namorada? ahah! que horror. estou a brincar ok? bem, não estou não. ahah.
mais grave que isso, a minha namorada estava a fodê-lo a ele. dei por mim novamente a concentrar-me no som vindo do quarto e a dissecar o momento, o que se passou na cabeça da Sofia para conseguir libertar-se da monogamia que sempre advogou contra as minhas conversas libertinas? entregou-se a outro, furou a fronteira das nossas fantasias, sentiria o mesmo que quando se entregava a mim? nesse caso que espaço havia agora para mim? porque é que preciso de perder uma pessoa para lhe dar valor? entendi então que foi o desejo de desejar mais a Sofia que me levou a entrar nisto sem ciúmes. a precisar de vê-la pelos olhos de outro. a Juliana, fofa, leve e fresca, parecia-me agora uma manobra de diversão do meu subconsciente e um desastre. a minha namorada fazia todo o sentido em mim, não outra.
a minha bedmate não falava há algum tempo, adormeci ao som do segundo orgasmo da Sofia, deve ter sido quando me conformei, a meio da noite acordei ou sonhei com um terceiro.
a Sofia
acordei de manhã mais cedo que o habitual. o rabo perfeito da Juliana dormia desinteressante ao meu lado (dispenso descrever a luta vergonhosa entre a minha erecção matinal e o meu cérebro adulto). passei pelo quarto deles e não ouvi nada, silêncio sepulcral. fui tomar banho, demorei-me um bocado, tentei lavar o medo e a ansiedade mas não saiu tudo. quando saí vinham vozes da cozinha.
- bom dia! - a Sofia fitava-me radiante "tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei e que doidos que somos uau!". que merda. fiz um sorriso amarelo, mas derrotado, ela entendeu. tinham os dois ido à mercearia da aldeia e fizeram um pequeno-almoço de hotel. a que horas é que se levantaram, foda-se? havia leite, café, sumo de laranja, pão, croissants, compota, popota, queijo, papaia, kiwis, que raiva! estavam eufóricos. o Pedro olhava-me ainda a pensar que eu tinha comido a Juliana, deu-me um abraço grande, dei-lhe só umas palmadinhas nas costas, tímido.
- então? estamos todos envergonhados, comme il faut?
- a Juliana? acho que o meu namorado deu cabo da tua. ahah!
- ainda está deitada? vou lá ver em que estado a deixaste, porco.
- deixei-a num estado lastimável.
sentei-me. a Sofia estava brilhante, veraneante, bronzeada. não reparei, quando o verão chegou, como ela se andava a vestir bem. estava óptima, sorridente, distraída. quando me viu a observá-la sorriu para mim. houve um compasso de espera em que tudo foi entendido. era isso também que eu estava a arriscar, a cumplicidade insubstituível da Sofia. eles entraram na cozinha, a Juliana passou-me a mão pelo cabelo e beijou-me a cara. depois riu-se envergonhada para a Sofia.
- bom dia! bem! que pequeno almoço orgásmico que os meninos nos fizeram. deve ser sentimento de culpa!
e agarrou-se ao Pedro, este começou a programar o dia, descer o rio de caiaque, a Juliana disse que preferia qualquer coisa mais seca, menos mexida.
a Sofia abraçou-me por trás empoleirando-se nos meus ombros e segredou-me "adoro-te, ainda bem que não vos correu bem, hihi".
- estou a ver-te as cuecas - disse-lhe o Pedro, de ângulo privilegiado.
- não tenho cuecas!
o Pedro riu-se muito, entusiasmado com intimidade libertina que a minha namorada lhe dirigia. eu também senti um kinky chill, cheguei a pensar que ela não tinha de facto cuecas e que o Pedro lhe estava a ver a periquita, algo que já me era rotineiramente invisível e se tornou naquele momento idolatrável pela quebra de exclusividade.
a Juliana que recolhia os pratos na sala de jantar também se riu, muito alto, correu para a sala e disse que também queria ver, mostra, mostra, a Sofia mostrou qualquer coisa que eu não vi e largaram-se as duas a rir, com a Juliana a apalpar-lhe as pernas e a Sofia a soltar guinchos e risos de abuso permitido. wow! olhei para o Pedro. um momento pleno de potencial, sondámo-nos mutuamente por alguma ideia para não deixar morrer a situação.
- vá, vão lá as duas para o quarto, eu e o Pedro ficamos aqui a beber copos.
- não, eu quero é ir aqui com o nosso "casal amigo" e tu ficas aqui a beber copos sozinho.
- ahahah
- ahahahaha
- ehehehehe
- ahahaha
- tudo bem, também já estou velho para vos acompanhar, só ia fazer má figura.
o Pedro sentou-se perto das duas e a Sofia fingiu (fingiu?) uma tontura de paixão, deixou-se cair para cima dele, ele agarrou-a completamente atrapalhado pelo toque incontornável nas mamas enormes da minha namorada. a Juliana levantou-se.
- não Zé, o Pedro está mais interessado na tua namorada e vice-versa, parece que eu vou ter que ficar aqui contigo e vão eles os dois lá para dentro. veremos quem se diverte mais, confio em ti!
inacreditável, eu e o Pedro completamente ultrapassados pela libido licorosa das miúdas, parecíamos dois putos virgens, cada frase e gesto de qualquer uma delas só encontrava em nós risos imbecis de testosterona tímida. a Juliana, já o tinha comentado em excesso com a Sofia, lembra-me a razão porque tenho saudades de ser solteiro, é por gostar de me deixar conduzir pela tesão, sem coração. fantasiei muitas vezes com olhos verdes a ver-me de cima, com o cabelo escorrido todo despenteado e a pele morena a envergonhar o meu bronze. a Sofia, já o tinha ouvido do Pedro, é conservadoramente provocadora. e isso é possível Pedro? sim.
mas agora passava-se qualquer coisa fora do nosso guião. essa tarde tinha sido esclarecedora quanto ao padrão de intimidade estabelecido. nenhum de nós o definiria sozinho, mas os subconscientes destaparam-se uns aos outros na medida da sua concordância e exponenciaram-se além do tabu, a esta hora já desbravávamos terreno desconhecido, como animais estúpidos que em vez de fugir, correm maravilhados para um fogo incontrolável.
essa tarde.
atravessávamos uma serra do Algarve, um calor fervente dentro do carro de janelas abertas, a sinuosidade e demora do percurso foi-nos deixando uma noção de isolamento muito vincada, estaríamos mesmo a descobrir uma zona inexplorada do país se viéssemos a alcatroar a estrada. o primeiro frisson foi a natureza a chamar, por todos. virei por uma estrada de terra e encostei pouco depois perto de uns chaparros.
- vi numa reportagem que esta zona tem algumas comunidades de freaks alemães, completamente isolados e hostis para os visitantes, uns mini sudetas.
- ai não digas isso! não me apetece nada ter que fugir com as cuecas nos tornozelos!
- hhmm.. não é uma má contrapartida se tivermos que apanhar uns tabefes de uns freaks, ver-te de rabo ao léu.
- vejo o rabo dela todos os dias - disse-me o Pedro - apanha tu os tabefes sozinho.
fizemos todos xixi na savana, a cerca de 5 metros uns dos outros, mantendo contacto visual e conversando sobre a actualidade política, a vida dos famosos, o estado da arte, da arte. a Sofia perguntou, enquanto apertava os calções, se não queríamos comer, e embora não tivesse fome conheço-a suficientemente bem para não arriscar enfiar-me num carro com ela tendo-lhe recusado alimento.
- não há aqui um sítio mais decente para nos sentarmos, sem ser aqui ao pé do urinólium?
- acho que ali em baixo há um rio, estou a ouvir água.
tive uma ideia, mas ninguém tinha o fato de banho vestido por baixo da roupa, estavam nas malas, que estavam na bagageira, que estava atulhada de merdas inúteis que não iríamos certamente usar em 4 dias. trouxe só a comida e fomos descendo até à margem de um riacho escondido do mundo mas exposto ao sol. idílico. depois das sandochas e dois litros de água já me apetecia mijar outra vez.
- vou à água.
- mas tu tens fato de banho?
- vou de cuecas, vens Pedro?
- e nós não podemos ir? - a Sofia, sempre chica esperta, sempre de pito aos saltos em frente aos outros, à espera de uma desculpa para mostrar o seu sutiã tensionado e ver a minha reacção.
- podem - eu, sempre a querer exibi-la. acho que a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente.
aquilo que era uma provocação da Sofia foi aproveitado pela Juliana que tirou a t-shirt larga de forma automática, ainda estávamos todos vestidos e ela com as suas perky tits de fora. que tits! o Pedro fez aquela sua expressão de "a minha namorada está despir-se em frente aos meus amigos", eu e a Sofia demos uma gargalhada e o Pedro, conformando-se, contra-atacou com um strip integral e correu para o rio exibindo o rabo peludo, obrigando-me a mim e à minha namorada a completar o ramalhete de strips. elas ficaram de cuecas, que a água tratou de ridicularizar. entrar foi fácil e divertido, sair da água mantendo o decoro foi mais complicado para mim e para o Pedro.
essa noite.
num momento definidor, a Sofia agarrou o Pedro pela cintura e levou-o para um dos quartos, foram em risos eufóricos e desapareceram no corredor a olhar para nós "estamos mesmo a fazer isto!". eu fiquei numa situação constrangedora com a Juliana, que longe da Sofia perdeu o élan da depravação de forma automática. tentei ler-lhe o pensamento e só me ocorreu que a sua moral estivesse a criticá-la, o pânico de estar ali comigo e não ter a certeza do que eu esperava dela. riu-se para mim, o que foi um alívio.
- então Zé? e nós? vamos espreitá-los ou vamos encorná-los de volta?
- bom, se calhar devíamos espreitá-los para termos a certeza de que não vamos encorná-los só de ida.
- ahah, vamos pelo menos ver para que quarto foram.
deu-me a mão, acho que nunca tinha dado a mão à Juliana, foi suficientemente íntimo para sentir uma erecção a despontar no sentido descendente dos calções. aproximámo-nos do quarto da direita, estavam ali, ouvimos beijos sonoros, roupa remexida, um fecho éclair (wtf?), risos curtos e lambidos. tive um calafrio, a minha namorada estava aos beijos com o meu amigo, ele estava seguramente a brincar com as copas E, e ela com a pila dele (não sei a copa da pila do Pedro). a Juliana olhou para mim escandalizada e beijou-me a cara, "também quero" segredou-me ao ouvido.
passado 1 minuto estávamos a deitar-nos semi-nus, semi-trapalhões, colados pela boca, ela cheirava a álcool e a canela. "que corpo, meu deus". deus a existir seria o máximo responsável pelo seguinte martírio previsível. ela não me tocava em nenhum ponto digno de registo, eu ia tentando marcar um ritmo de apalpanço que claramente não estava ser seguido por ela. a minha pila foi percebendo isto e deixou de estar prestes a rasgar-me as cuecas para ficar em modo de alheira de caça. avancei para a minha área de expertise. como diz a Nigella, com convidados façam sempre receitas que têm a certeza que saem bem e fazem sucesso. a minha cara próxima das cuecas dela enquanto estas desciam foi o ponto alto da noite, o meu último momento de êxtase, todos os meus sentidos apurados, os passarinhos a cantar. o ponto baixo foi ela dar uma cabeçada na cabeceira de ferro forjado, e morreu tudo, clima, tesão, esperança. tive que me rir.
- estás bem?
- não... aii! que estupidez. desculpa. acho que é melhor... bem...
- não faz mal, também não estava a perceber bem se queremos mesmo fazer isto.
- pois, nem eu.
eu queria, caralho! ficámos calados um bocado, nus, debaixo dos lençóis, fiquei inadvertidamente a reconfortar a minha pila de forma explícita, só mais tarde me apercebi disto. o som da cama do quarto deles estava a ficar mais claro e ritmado, o que agravou o ambiente. perguntei-lhe:
- está a fazer-te impressão?
- não, nenhuma. nem sei explicar porquê. a ti está?
- não sei. só me está a fazer impressão que não estejamos a fazer o mesmo.
- eu acho que não tenho ciúmes da Sofia, é minha amiga, adoro-a, acho que o sentimento de partilha com a Sofia é dos elementos mais excitantes desta situação, para mim. foi isso que gostei na ideia de estar contigo, tem mais a ver com ela.
- olha que fixe..
- mas isto não é mau Zé. gosto de ti também, gosto de vocês os dois, mas tenho uma relação profunda com a Sofia. tu és homem, olho para ti de outra maneira, mais física até.
- e onde é que o Pedro entra nisso?
- não é suposto entrar. ele dá-me raiva ultimamente, acho que queria partilhar isto com vocês os dois e cagar nele. estava a precisar disso. na prática ele é o único que não me excita nesta situação. excita-me só por conveniência, porque é necessário para eu sentir a posição da Sofia.
- hhmm.. não sei o que diga. não sabia que estavas chateada com ele (ou que eras lésbica?).
- não estou chateada. ando com raiva dele.
- e achas que foi boa ideia termos entrado nisto com essa raiva toda?
- não. sei lá! - suspirou profundamente, afundou-se nos lençóis apesar do calor.
- ok.
calei-me, não entendi um cu da conversa, nem quis forçar aquele momento. comecei a distrair-me com o som da Sofia a ter um orgasmo, ao fundo, a elevar-se. lembrei-me dos mamilos intumescidos das mulheres durante os orgasmos. "a Juliana tem uns mamilos maiores do que era suposto. mas são giros. é pena isto ir morrer assim. e amanhã?".
- tenho mais ciúmes daquela gorda do escritório do Pedro que lhe escreve os bilhetes.
- o quê? mas já a viste? essa miúda é uma rolha de poço. porque é que tens ciúmes dela?
- porque ela está com o Pedro o dia todo, gosta dele e ele fala-lhe demasiado bem. ela deve ser feliz na sua relaçãozinha com ele.
- mas ele não gosta dela. não podes comparar-te a ela, é ridículo. tu és... epá, és a Juliana!
- nem tentes, deves saber melhor que eu o que eu quero dizer.
- ?? eu? ahah. ouve Juliana, o Pedro adora-te. só sei isso.
- então porque é que está ali a foder a tua namorada? ahah! que horror. estou a brincar ok? bem, não estou não. ahah.
mais grave que isso, a minha namorada estava a fodê-lo a ele. dei por mim novamente a concentrar-me no som vindo do quarto e a dissecar o momento, o que se passou na cabeça da Sofia para conseguir libertar-se da monogamia que sempre advogou contra as minhas conversas libertinas? entregou-se a outro, furou a fronteira das nossas fantasias, sentiria o mesmo que quando se entregava a mim? nesse caso que espaço havia agora para mim? porque é que preciso de perder uma pessoa para lhe dar valor? entendi então que foi o desejo de desejar mais a Sofia que me levou a entrar nisto sem ciúmes. a precisar de vê-la pelos olhos de outro. a Juliana, fofa, leve e fresca, parecia-me agora uma manobra de diversão do meu subconsciente e um desastre. a minha namorada fazia todo o sentido em mim, não outra.
a minha bedmate não falava há algum tempo, adormeci ao som do segundo orgasmo da Sofia, deve ter sido quando me conformei, a meio da noite acordei ou sonhei com um terceiro.
a Sofia
acordei de manhã mais cedo que o habitual. o rabo perfeito da Juliana dormia desinteressante ao meu lado (dispenso descrever a luta vergonhosa entre a minha erecção matinal e o meu cérebro adulto). passei pelo quarto deles e não ouvi nada, silêncio sepulcral. fui tomar banho, demorei-me um bocado, tentei lavar o medo e a ansiedade mas não saiu tudo. quando saí vinham vozes da cozinha.
- bom dia! - a Sofia fitava-me radiante "tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei e que doidos que somos uau!". que merda. fiz um sorriso amarelo, mas derrotado, ela entendeu. tinham os dois ido à mercearia da aldeia e fizeram um pequeno-almoço de hotel. a que horas é que se levantaram, foda-se? havia leite, café, sumo de laranja, pão, croissants, compota, popota, queijo, papaia, kiwis, que raiva! estavam eufóricos. o Pedro olhava-me ainda a pensar que eu tinha comido a Juliana, deu-me um abraço grande, dei-lhe só umas palmadinhas nas costas, tímido.
- então? estamos todos envergonhados, comme il faut?
- a Juliana? acho que o meu namorado deu cabo da tua. ahah!
- ainda está deitada? vou lá ver em que estado a deixaste, porco.
- deixei-a num estado lastimável.
sentei-me. a Sofia estava brilhante, veraneante, bronzeada. não reparei, quando o verão chegou, como ela se andava a vestir bem. estava óptima, sorridente, distraída. quando me viu a observá-la sorriu para mim. houve um compasso de espera em que tudo foi entendido. era isso também que eu estava a arriscar, a cumplicidade insubstituível da Sofia. eles entraram na cozinha, a Juliana passou-me a mão pelo cabelo e beijou-me a cara. depois riu-se envergonhada para a Sofia.
- bom dia! bem! que pequeno almoço orgásmico que os meninos nos fizeram. deve ser sentimento de culpa!
e agarrou-se ao Pedro, este começou a programar o dia, descer o rio de caiaque, a Juliana disse que preferia qualquer coisa mais seca, menos mexida.
a Sofia abraçou-me por trás empoleirando-se nos meus ombros e segredou-me "adoro-te, ainda bem que não vos correu bem, hihi".
gambas
- afinal o que é isto que nós temos?
- isto o quê?
- isto, sei lá, também não sei..
a expressão dela passou de sensata a insegura, arrependida de ter falado no assunto.
- Sarita, já falámos disto, eu não quero uma relação agora, pensei que estávamos na mesma onda. também não quero que estejas à espera de outra coisa e te magoes.
- sim, mas eu concordo contigo, foi o que eu pensei! só queria uma confirmação.
- ok. ainda bem, porque gosto disto, da nossa despreocupação.
- eu também. assim como estamos. no strings attached.
- óptimo.
- só precisava de ter a certeza disso, quer dizer, já estamos nisto há umas semanas.
- ...
- mas não que isso seja um problema, só perguntei porque queria definir isto. agora já está. está tudo bem :)
- definir? ahah, mas o que eu não quero é precisamente uma definição disto, tonta.
- sim, é isso, indefinição, também é isso que eu quero ahah. expressei-me mal.
abusei um bocado no tom e até na lógica, tenho tendência para isso quando estou em modo solteiro, o ego e o propósito anulam-me as réstias de humanidade e conduzo a auto-estima dos outros no fio da navalha. até posso corrigir a mão se não correr bem, mas despreocupado com o resultado. perco o medo de desiludir.
- o que vais fazer hoje depois do trabalho?
- não sei.
- queres passar cá?
- não sei, eu logo te aviso, mas hoje à noite queria tratar do IRS.
- não trataste a semana passada?
- não, o Pedro ligou-me, enfim, acabei por fazer outras coisas.
- e não podes tratar aqui?
- Sara, vá lá. eu aviso-te.
- está bem. diz qualquer coisa, posso passar no supermercado a comprar coentros e faço um mega spaghetti gamberetti! abrimos um vinho e tal.. ou uns martinis com romã. hum!
- ok Sara. se der eu aviso.
- isto o quê?
- isto, sei lá, também não sei..
a expressão dela passou de sensata a insegura, arrependida de ter falado no assunto.
- Sarita, já falámos disto, eu não quero uma relação agora, pensei que estávamos na mesma onda. também não quero que estejas à espera de outra coisa e te magoes.
- sim, mas eu concordo contigo, foi o que eu pensei! só queria uma confirmação.
- ok. ainda bem, porque gosto disto, da nossa despreocupação.
- eu também. assim como estamos. no strings attached.
- óptimo.
- só precisava de ter a certeza disso, quer dizer, já estamos nisto há umas semanas.
- ...
- mas não que isso seja um problema, só perguntei porque queria definir isto. agora já está. está tudo bem :)
- definir? ahah, mas o que eu não quero é precisamente uma definição disto, tonta.
- sim, é isso, indefinição, também é isso que eu quero ahah. expressei-me mal.
abusei um bocado no tom e até na lógica, tenho tendência para isso quando estou em modo solteiro, o ego e o propósito anulam-me as réstias de humanidade e conduzo a auto-estima dos outros no fio da navalha. até posso corrigir a mão se não correr bem, mas despreocupado com o resultado. perco o medo de desiludir.
- o que vais fazer hoje depois do trabalho?
- não sei.
- queres passar cá?
- não sei, eu logo te aviso, mas hoje à noite queria tratar do IRS.
- não trataste a semana passada?
- não, o Pedro ligou-me, enfim, acabei por fazer outras coisas.
- e não podes tratar aqui?
- Sara, vá lá. eu aviso-te.
- está bem. diz qualquer coisa, posso passar no supermercado a comprar coentros e faço um mega spaghetti gamberetti! abrimos um vinho e tal.. ou uns martinis com romã. hum!
- ok Sara. se der eu aviso.
o milagre da multiplicação
chega a época de pôr em perspectiva algumas matérias que me desanimam no resto do ano, e regra geral, o desânimo mantém-se. mas a pressão de uma sociedade alienada com as festividades obriga-me a dizer que são matérias sem importância vital, pior era se estivesse morto. sim, isso é inegável, além de idiota.
este ano vi-me imbuído do espírito do Natal Passado. chegou hoje quando acordei, com a memória dada como morta de um episódio da minha 3ª classe, quando a professora se dirige a nós em tom natalício e sugere que tenhamos uma hora do recreio mais alargada, até que os pais nos viessem buscar. para tal teríamos apenas, cada um de nós, que inventar um problema matemático para um colega rifado resolver. à medida que fôssemos resolvendo poderíamos ir saindo. esta foi a primeira professora com quem fantasiei sexualmente. não por este episódio. bom, achei que merecia menção.
na 3ª classe a dificuldade de um problema matemático é risível, pelo menos da perspectiva de alguém com um cérebro completo, a mim calhou-me uma redução de metros para centímetros ou de maçãs para laranjas, não consigo precisar, mas a besta calculista e mesquinha que há em mim redigiu para um colega aleatório uma multiplicação de 3 coeficientes na casa dos milhões. era fácil, mas trabalhoso para um miúdo de 7 anos acabado de aprender a multiplicar. calhou ao Pedro.
eu lembro-me de entregar o meu exercício das laranjas, passar pela carteira dele, vê-lo ainda na primeira linha e ter sentido a felicidade que só uma criança consegue sentir por uma filha-da-putice bem calculada. ao sair da sala já estava com alguma pena dele. no recreio nem eu nem ninguém se lembrava que o Pedro existia.
foi certamente o recreio mais longo do meu ensino primário, foi muito divertido, havia um lanchinho para todos, fizemos montes de coisas que os miúdos da 3ª classe fazem nos recreios, e rimos muito, mas o Pedro não. o Pedro ficou 3/4 do recreio de Natal a tentar resolver o meu problema. quando saiu da sala, já metade das crianças tinha ido embora com os pais. saiu triste e foi sentar-se sozinho junto a um muro grande e feio. na verdade nem me lembro dele ter saído da sala. na verdade inventei o nome Pedro, porque nem me lembro do nome do rapaz, mas achei que era desumano evocá-lo nesta história deprimente sem sequer o conseguir identificar. Pedro, ou lá como é que tu te chamas: se és meu amigo no facebook, desculpa-me. do fundo do meu coração. desejo-te um bom Natal junto das pessoas e/ou dos animais de quem mais gostas.
este ano vi-me imbuído do espírito do Natal Passado. chegou hoje quando acordei, com a memória dada como morta de um episódio da minha 3ª classe, quando a professora se dirige a nós em tom natalício e sugere que tenhamos uma hora do recreio mais alargada, até que os pais nos viessem buscar. para tal teríamos apenas, cada um de nós, que inventar um problema matemático para um colega rifado resolver. à medida que fôssemos resolvendo poderíamos ir saindo. esta foi a primeira professora com quem fantasiei sexualmente. não por este episódio. bom, achei que merecia menção.
na 3ª classe a dificuldade de um problema matemático é risível, pelo menos da perspectiva de alguém com um cérebro completo, a mim calhou-me uma redução de metros para centímetros ou de maçãs para laranjas, não consigo precisar, mas a besta calculista e mesquinha que há em mim redigiu para um colega aleatório uma multiplicação de 3 coeficientes na casa dos milhões. era fácil, mas trabalhoso para um miúdo de 7 anos acabado de aprender a multiplicar. calhou ao Pedro.
eu lembro-me de entregar o meu exercício das laranjas, passar pela carteira dele, vê-lo ainda na primeira linha e ter sentido a felicidade que só uma criança consegue sentir por uma filha-da-putice bem calculada. ao sair da sala já estava com alguma pena dele. no recreio nem eu nem ninguém se lembrava que o Pedro existia.
foi certamente o recreio mais longo do meu ensino primário, foi muito divertido, havia um lanchinho para todos, fizemos montes de coisas que os miúdos da 3ª classe fazem nos recreios, e rimos muito, mas o Pedro não. o Pedro ficou 3/4 do recreio de Natal a tentar resolver o meu problema. quando saiu da sala, já metade das crianças tinha ido embora com os pais. saiu triste e foi sentar-se sozinho junto a um muro grande e feio. na verdade nem me lembro dele ter saído da sala. na verdade inventei o nome Pedro, porque nem me lembro do nome do rapaz, mas achei que era desumano evocá-lo nesta história deprimente sem sequer o conseguir identificar. Pedro, ou lá como é que tu te chamas: se és meu amigo no facebook, desculpa-me. do fundo do meu coração. desejo-te um bom Natal junto das pessoas e/ou dos animais de quem mais gostas.
consanguinidade
ao fim de anos de convivência com uma pessoa deixamos de prestar atenção a detalhes, com uma vida demasiado preenchida pela necessidade de fazer dinheiro, pelos sonhos esparsos, pelos filhos, pela crise, pela tentativa de não deixar tudo desagregar-se, facilmente a Filipa estaria a enganar-me sem que eu percebesse. na primavera desta relação... no verão, vá lá.. aí não, aí eu estava atento, ela também, não havia minuto fora de casa que não soasse a adultério, tudo bem explicado quando chegasse, cada olhar, cada "boa noite", cada curva até casa. resquícios de relações mal passadas transportadas disfarçadamente para essa nova esperança, o cadáver esquisito que saltou do armário à primeira conversa fora de tom. mas enfim, foi definhando, confio na Filipa como se não houvesse forma de me sentir traído. confio. não vejo motivos nela para me trair. por exemplo, por vezes penso que morreu sexualmente, já não acha piada a actores rebuçado, não fala de sexo nunca, se faço uma piada que envolva pila sorri distraída, fode em piloto automático ao domingo à noite. mas alguém poderia argumentar que o problema sou eu, que não lhe interesso, que não me esforço por lhe despertar interesse, que alguém mais homem que eu, talvez até assexuado mas adulto, sensato e influente ou filósofo revolucionário e com barba, a arrebataria e a faria deixar-nos a todos cá em casa sem roupa lavada, nem mãe, nem amiga, nem sexo, nem nada. não se trata disso. posso garantir que ela deixou de ver a humanidade dividida em géneros, no sentido mais desinteressante do conceito, e eu faço parte do seu clã, uma inevitabilidade. ela parece-me feliz. pergunto-lhe:
-Filipa.
-
-Filipa.
-hã?
-és feliz?
-
-Filipa..
-o quê?
-és feliz comigo?
-claro que sim.
parece-me feliz. também deixou de prestar atenção a detalhes, é natural, como eu deixei. posso traí-la sem que ela o sonhe. posso traí-la com a Sónia, que isso lhe é invisível. não tenho com a Sónia uma relação profunda, por isso é satisfeita em cada troca clandestina de beijos na cozinha em jantares de amigos, cada mão nas coxas descobertas por baixo da mesa, é obviamente isso que alimenta essa relação, a clandestinidade. e é essa relação que alimenta a minha relação com a Filipa e a relação da Sónia com o Pedro. serve perfeitamente esse propósito e sabemos bem como conduzir e manter a tesão no seu auge e as hormonas a salivar pelo fim de semana. não há discussão do tema, não há troca de mensagens insonoras, nem telefonemas a meio de uma tarde de trabalho. não nos falamos ao longo da semana. só falo com o Pedro à sexta feira e pergunto:
-jantar cá em casa?
-pode ser, deixa-me falar com a Sónia. mas em princípio sim, ela quer sempre.
-ok, também ainda não falei com a Filipa, mas ela também quer sempre.
-Filipa.
-
-Filipa.
-hã?
-és feliz?
-
-Filipa..
-o quê?
-és feliz comigo?
-claro que sim.
parece-me feliz. também deixou de prestar atenção a detalhes, é natural, como eu deixei. posso traí-la sem que ela o sonhe. posso traí-la com a Sónia, que isso lhe é invisível. não tenho com a Sónia uma relação profunda, por isso é satisfeita em cada troca clandestina de beijos na cozinha em jantares de amigos, cada mão nas coxas descobertas por baixo da mesa, é obviamente isso que alimenta essa relação, a clandestinidade. e é essa relação que alimenta a minha relação com a Filipa e a relação da Sónia com o Pedro. serve perfeitamente esse propósito e sabemos bem como conduzir e manter a tesão no seu auge e as hormonas a salivar pelo fim de semana. não há discussão do tema, não há troca de mensagens insonoras, nem telefonemas a meio de uma tarde de trabalho. não nos falamos ao longo da semana. só falo com o Pedro à sexta feira e pergunto:
-jantar cá em casa?
-pode ser, deixa-me falar com a Sónia. mas em princípio sim, ela quer sempre.
-ok, também ainda não falei com a Filipa, mas ela também quer sempre.
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