v2.0

a última vez que consegui sentir-me, foi quando o puto começou a falar. tenho a certeza de que esse foi o último momento em que achei que a vida era uma coisa admirável. ele estava não só a falar, estava a dizer as palavras que eu lhe ensinava. ou as que me ouvia dizer, algumas delas pode dizer-se que em momentos menos felizes. durante as semanas seguintes eram palavras atrás de palavras, pai, gato, bola, foda-se, gaja, alguns encadeamentos de palavras, quero gato, foda-se bola.

um dia aprendeu a palavra miragem. não sei onde a foi buscar, não me lembro de a ter dito, pelo menos vezes suficientes para ele a registar, e apesar de nunca ter pensado nisso antes, sempre achei por intuição que aquela palavra dificilmente seria pronunciada por uma criança, até que ouvi o meu filho dizê-la. miragem? diz filho, miragem o quê? queres a bola? queres o gato? "miragem!" repetia ele. com o tempo esqueci-me deste pormenor da sua aprendizagem.

com o tempo esqueci-me que estava a educar um filho e tentei recomeçar a minha vida normal. a minha vida antes de ter um filho. isto é, lembrei-me durante a sua educação que me tinha esquecido da minha própria educação, que estava a viver a vida dele. normal. então recomecei a normalidade, reeduquei a minha vida, e esqueci-me da educação do meu filho. só desisti deste irritante exercício de estilo quando percebi que já não havia normalidade, que a minha vida era agora outra coisa, um regresso a fosse o que fosse já não fazia sentido, não havia nada onde regressar, isso seria desistir do meu filho. e foi então, por volta dos seus 8 anos que deixei de sentir fosse o que fosse. felicidade ou infelicidade, só havia o meu filho. e o meu gato.

m/f

J- pois não sei, vejo-te todos os dias chegar a casa cansada.
A- e então? estou a trabalhar. trabalhar cansa.
J- hmmm...
A- hmmm o quê? duvidas que esteja a trabalhar?
J- não duvido que estejas a trabalhar em alguma altura do teu dia.
A- isso quer dizer o quê?
J- quer dizer exactamente isso.
A- ai a merda.. estás a insinuar o quê, diz lá?
J- estou a insinuar que vens demasiado cansada para o trabalho que tens.
A- sabes lá tu o trabalho que eu tenho? o que é que tu sabes do meu trabalho?
J- sei que trabalhas à secretária. e vens geralmente a querer sentar-te "urgentemente" depois de fazeres uma viagem de 10 minutos de carro. sentada outra vez.
A- olha, é assim: o meu trabalho cansa-me, cansa-me a cabeça, quando venho para casa o trânsito cansa-me, e quando chego a casa tu cansas-me. preciso de descansar. se estás a insinuar alguma coisa para além deste encadeamento lógico de acontecimentos diz já ou deixa-me descansar em paz.
J- estou a insinuar que acho estranho que uma vez por semana chegues a casa às 11 da noite, de vez em quando chegas de madrugada. já chegaste às 5, e de manhã estavas a voltar para lá ainda não eram 8. mas os restantes dias da semana chegas a casa às 6 da tarde, como se todo o trabalho do teu escritório te caísse em cima apenas um dia por semana. e o que eu ando desconfiado é que não é bem o trabalho que te cai em cima uma vez por semana.
A- tás parvo??
J- não, não estou parvo, estou farto. estou farto de andar a fingir que não percebo que vens a cheirar a latex e a perfume de gajo e a álcool. estou farto de ignorar as vezes que ligo para lá à tua procura e ninguém atende, porque obviamente, às 10 da noite não está ninguém a trabalhar!
A- a cheirar a quê? tu és doido? já te disse que se atender o telefone arrisco-me a que seja mais trabalho e venho ainda mais tarde para casa!
J- ah, exacto e também tiras o som do telemóvel para não te desconcentrar, tal a pressa que tens em vir para casa.
A- isso é porque tenho reuniões durante o dia e esqueço-me de voltar a pôr o som!
J- sempre?! sempre que ficas lá até tarde tens reuniões durante o dia e esqueces-te de voltar a pôr o som no telemóvel?! a sério, deves achar que eu fiz uma lobotomia em vez de uma endoscopia.
A- quem me dera estar a foder em vez de estar a trabalhar! contigo ou com outro gajo qualquer, era-me indiferente! é isso que queres ouvir?
J- não. quero que admitas que não estás a trabalhar, se calhar estás a fazer outra coisa qualquer que não a foder. num grupo de alcoólicos anónimos, numa festa a encher balões, não sei. a trabalhar não estás.
A- nao estou?! ahah ok! se o omnisciente da aldeia diz que eu não estou a trabalhar se calhar estou enganada e os meus patrões também. se calhar é porque tu não trabalhas que tens a mania que os outros também não fazem nada da vida deles, eu não fico em casa o dia todo a coçar o rabo, para eu trabalhar tenho que sair de casa! e às vezes tenho que ficar lá até tarde!
J- em primeiro lugar, se eu não ficar em casa a limpar esta merda toda, a lavar a tua roupa, a passá-la a ferro, a ir comprar o teu jantar e a fazê-lo, passas a ser a robinson crusoe lá do teu escritório, assumimos que isto ia ser assim e é de um baixo nível atroz que me atires isso agora à cara. não tenho culpa que ainda não tenhamos conseguido engravidar, sabes bem que eu fiquei em casa com objectivos bem definidos. em segundo lugar, e antes que te enterres mais, ontem passei no teu escritório à meia noite, e o segurança disse-me que não estava lá ninguém desde as 7 da tarde.. vim para casa e estive o resto da noite a chorar à tua espera. quando tu chegaste, às 4!! eu ainda estava acordado. pronto, a conversa começa agora!
......
A- andas a seguir-me?
..
J- vais virar isto ao contrário? não percebeste? eu fui lá! sei que tu não estavas lá! ainda no início desta conversa me estiveste candidamente a explicar que estiveste lá a noite toda e que mandaram vir umas pizzas. porque até ao final preferia não acreditar no óbvio, podias ter ido trabalhar para o jardim, não sei. nesse caso seria injusto acusar-te por um mal-entendido, só querias contacto com a natureza!
.....
A- estavas a manipular-me no início da conversa?!
J- epá desiste! pára! ainda não entendeste?? estás a tentar ter razão nesta altura?!
.....
.....
J- queres dizer-me alguma coisa agora?
.....
A- é preciso?
J- é.
.....
A- não é fácil..
J- faz um esforço, eu também tenho feito.
.....
....
A- tenho um caso com a tua mãe.
J- hã??!
A- tinha um caso com o teu pai, mas depois percebi que era lésbica.
J- vai à merda!
A- vai tu à merda. estou farta desta conversa. acabou.
J- acabou?? tás-te a passar! que explicação é que tens para o que eu te acabei de dizer?!
A- não tenho explicação nenhuma, há coisas inexplicáveis.
J- aaaaaahh!! que raiva! és tão puta! não penses que te vais escapar desta conversa assim! abre a porta! abre a porta já andreia cristina!

wunderbar

para conseguir saltar para o outro lado do muro começou por pôr as mãos no seu topo e desde logo descobriu que este tinha vidros partidos incrustados para evitar estas situações estúpidas. olhou à sua volta e procurou outra solução enquanto tentava estancar o sangue que lhe encharcava as mangas. tirou a camisola e lançou-a para cima do muro a fim de ter uma protecção para voltar a apoiar as mãos. subiu, lançou-se do outro lado e tentou retirar a camisola que ficou presa nos vidros. para além dos cortes nas mãos tinha agora cortes nos braços, nos joelhos, não tinha camisola, mas tinha mais experiência, ficou mais adulto. pensou na vida e congratulou-se com o facto de ela ser uma aprendizagem constante. sorriu enquanto fugia da besta satânica que guardava este lado do muro e que se aproximava à razão de 2 para 1. conseguiu sair, pelo portão, que estranhamente estava apenas encostado. o cão não saiu. tem medo da vida.

O egoísmo miserável desses sub-humanos

Enojam-me as pessoas carentes, de tal modo que não consigo sequer tentar suprir-lhes a carência e contribuo para a decadência da relação a dois à qual pertenço sem intenção.

Contribuo para a decadência do ser humano visto da perspectiva de outro. Para a vergonha sem consciência de a ter, de andar em público com o corpo à mostra, com um corpo feio e decadente de quem não volta a recuperar a forma inicial.

Irrita-me a falta de capacidade de auto-análise das pessoas que sofrem, da forma como ignoram os sinais dos outros sobre a triste figura, do sentido mesquinho e exagerado que dão a um acontecimento nascido da natureza para os violar.

Essas pessoas que crêem ser o centro do universo, num renascimento pretensioso baseado no coitadinhismo ortodoxo, essas carpideiras egoístas sem vontade de relativizar a dureza da vida.

Dão-me vómitos. Gritar-lhes-ia ao ouvido que o mundo não é deles, e que nem sequer deles se lembra, nem para eles foi criado, que morram sozinhos pela incauta forma de se dar e se mostrar aos outros.

Burros que não entendem que eu sou o único ser vivo que se pode orgulhar de sofrer com todas as letras, e cujo martírio ficará escrito na mente dos homens como o exemplo daquele que sofreu sem ter culpa de o fazer e contra a sua vontade.

empregado do mês

a semana passada cruzei-me com o tipo do restaurante que fica por baixo da casa da Joana. disse-lhe olá, ele como não estava à espera, ignorou-me. ele vinha com a farda do trabalho, camisa preta, calças brancas, caneta no bolso da camisa. não, ao contrário, camisa branca, calças pretas, obviamente. cabelo cheio de gel ou brylcreem ou óleo das batatas, penteado para trás-esquerda. fiquei a vê-lo, ia ter com uma rapariga do outro lado da estrada. era loira, gordita, mamas grandes, um estilo de roupa muito em voga na Malveira da Serra, e uns Aviator iguais aos meus.

deu-lhe um beijo na boca. ela agarrou-lhe nas mãos e ficaram a falar, ela sorria mais que ele. ele soltou as mãos e tirou um cigarro. falaram bastante tempo, basicamente o tempo da Joana descer desde que eu tinha tocado, uns 10 minutos. no fim despediram-se, ela sorrisinhos, ele Chuck Norris. enquanto ela meteu o capacete e montou a Vespa, ele atravessou a rua, passou por mim, disse-lhe olá, ele ignorou-me.

A Joana chegou nesse momento, passou por ele distraída, a compor o decote, ele, todo sorrisinhos, não estava nada distraído e disse "olá boneca!" a Joana riu-se e disse olá. perguntei-lhe se ele lhe chamava boneca sempre que a via, ela ridicularizou-me, perguntou se eu tinha ciúmes do empregado do restaurante. não era isso que estava em causa, expliquei-lhe. em ti eu confio, nele não, ainda por cima digo-lhe olá e não me responde, deve ser mesmo porque me vê como um rival do engate. "ele nem sabe quem tu és!" respondeu-me. raiva. então não sabe? fomos lá jantar no outro dia, da vez que nos chateámos porque os empregados passaram a noite toda a olhar para as tuas mamas. "sim, e tu achaste que a culpa era minha", eu não achei que a culpa era tua, só queria que estivesses mais complacente com a minha causa e não ignorasses quando te chamei a atenção para isso. "então preferias que lhes desse atenção? se calhar devia ter dado" não é atenção a eles, é atenção ao que eu te estava a dizer, podia não ter assim tanta importância mas ganhou-a assim que não deste importância nenhuma. merda, não queria discutir com ela "não quero discutir contigo, mas tu és difícil, tenho que te ignorar para não nos chatearmos", eu é que tenho que te ignorar, disse ela. "mas isso já tu fazes sempre" disse eu. "merda zé, acabei de sair de casa, já estás a fazer isto".

"desculpa, esquece lá isto então... achas o gajo giro?" ela riu-se, muito alto. pensei que era sinal que não, mas ela disse que sim. "tem pinta", pinta de chulo?, "não, tem um charme qualquer, tem pinta de empregado de restaurante, mas isso até lhe dá piada". não entendo. achas piada a pessoal de farda, é isso? "não, é qualquer coisa especial, é giro, tem expressões fortes, cara máscula" coisa que eu não tenho? "não, tu tens mais cara de puto"... sempre esta merda. cara de puto é uma coisa muita fixe quando se quer andar em carroceis sem levantar suspeitas mas serve de pouco quando se quer ter a certeza de que a namorada tem tesão por nós, em alturas que ela nos compara a um gajo com cara "máscula", a quem acha "piada". eu é que comparei??? disse ela.

ontem já deitados, durante os preliminares de qualquer coisa, lembrei-me de lhe dizer que a conversa da semana passada veio a propósito do gajo ter ido falar com uma rapariga que me pareceu namorada dele. "não, ele não tem namorada" ??? perguntei-lhe como é que sabia, ela disse-me que falou com ele durante a semana que passou. e não me disseste nada? "já sabia que ias ficar com ciúmes" porque é que ia ficar com ciumes, há razões para isso? "não". raiva. mas falaste com ele porquê? "foi ele que falou comigo", epá, ó Joana, ajuda-me lá um bocado nisto, ainda a semana passada falámos dele, agora sabias que era do meu interesse e não me dizes que estiveste a falar com ele, ainda por cima acerca de namorados? também lhe disseste que não tinhas namorado? "ó zé, vai à merda". puxou a t-shirt para baixo e virou-se para o outro lado. eu ainda tive que procurar as minhas cuecas no intervalo entre o colchão e a cama.

zero

a frieza com que assisto ao azar dos outros não é criticável, não posso fazer nada contra a minha indiferença correndo o risco de ser cínico. não sinto. não vou mentir para me mostrar humano. eu tenho quase a certeza que sou humano, mas não sinto muito.

sou compreensivo. esforço-me por entender que se fosse eu naquela posição estaria na merda, e isto serve-me para transmitir algum apoio, mas não compaixão. apoio é mais "pois, isso é fodido... epá, pois..." eventualmente um "força nessa merda, tens que cagar nisso" e aqui estou muito mais próximo de transmitir o que na prática sinto. que me estou a cagar.

nem sei se estaria realmente na merda se fosse comigo, muitas vezes não sinto nada perante o meu próprio azar. não sei se a isso se chama optimismo perante o futuro, ou apatia para com o presente.

tento de tempos a tempos imaginar o meu funeral. uma morte precoce e um funeral bem anunciado, todos os que eu alguma vez conheci lá estariam, ainda que grande parte deles não tenha qualquer contacto com quem os poderia avisar. "olha, o zé morreu". "estou? olá, era só para dizer que o zé... meu deus! (soluços) o zé finou.. a dor! o funeral é amanhã. BYOB"...

aí sim. aí, ao imaginar todos os meus amigos e conhecidos a sofrer com a minha morte, todos a chorar, aí a dor parece-me real, e aí sim, vêm-me lágrimas aos olhos. muitas vezes acabo aqui sozinho também eu a soluçar. morri! e como eles sofrem sem mim.

a dada altura da minha vida, para não me rir em funerais (acontecia demasiado) imaginava um garfo a espetar-se-me nas costas da mão. agora imagino a minha própria morte e começo a chorar. talvez por isso agora me convidem muito para funerais.

só há uma coisa que me incomoda, a forma como morreria. soa sempre patética. "sabes quem foi atropelado pelo filho do embaixador do Brasil?? aquele gajo da primária, o zé. LOL!!!". ridículo.



o suicídio não parece mal. mostra controlo sobre o meu destino. talvez não sobre a minha vida.



estou a brincar. don't bother calling.