branco frigorífico
chegou finalmente a casa, pousou as chaves na mesa do hall, despiu o casaco, pendurou-o, consigo vê-la daqui deste sofá. ela nem procura ver se eu estou na sala a olhar para ela, como costuma fazer. ignora-me completamente. passa na sala, diz-me olá ou diz olá para o ar, segue para a casa de banho. o tempo que lá demora parece-me uma eternidade, oiço o autoclismo, a torneira várias vezes, a porta do armário, calculo que saia já com a camisa de dormir. nem vai comer primeiro? e isto parece a torneira do bidé. porquê o bidé assim que chega a casa? demora mais um bocado, irrita-me esta demora, está a fazer de propósito. não entendo, chega a casa a esta hora, não avisa antes, não dá explicações depois. mas eu estava à espera disto, não estranho e não a vou chatear com uma coisa tão secundária. estamos há semanas nisto, hoje está pior. puxa outra vez o autoclismo. silêncio agora. então? oiço a porta abrir, quando chegar à sala não vou olhar para ela. vou esperar que ela fale comigo, me faça perguntas ou me dê alguma explicação. se me mantiver calado certamente ela vai precisar de quebrar o gelo, vai ficar irritada com o meu silêncio, provar do seu próprio remédio. este tratamento de facto aumenta os níveis de adrenalina de um morto. oiço outra porta a abrir, merda! foi para o quarto! não oiço nada daqui. o que é que ela está a fazer? que raiva. oiço uns murmúrios inidentificáveis. janela? telefone? televisão? temos televisão no quarto? não. deve ser telefone. a esta hora? penso em ir lá mas estou psicologicamente exausto e mais a raiva com o seu orgulho que não me deixam levantar para perceber o que se passa. prefiro evitar o ridículo de me aproximar e ela perceber que estou a tentar ouvi-la. tento distrair-me, esquecer o tempo a passar como um caracol, ver televisão, que é esta merda? pingo doce? que medo. está a sair, abre a porta do quarto, é agora? é agora. "estiveste ao telefone?" não consegui evitar, saltou-me do estômago. "não" "não? pareceu-me mesmo ter-te ouvido falar". não me respondeu. também não era bem uma pergunta, não posso censurá-la. não vem de camisa de dormir, vestiu uma t-shirt de alças branca e umas calças de fato de treino. apanhou o cabelo. descalça? está gira. puta. vai à cozinha, abre a porta do frigorífico e oiço mexer uns frascos e uns sacos. "eu fiz uma lasanha", grito-lhe "está no forno". "obrigada, não tenho fome" não tem fome mas está a preparar alguma coisa para comer. sempre pensei em fazer isto, estar em casa antes dela, fazer o jantar para mim e deixar o resto no forno à espera dela. sempre pensei e nunca o fiz, faço sempre uma sandes de pão de plástico, até hoje, e não foi este o resultado que imaginei. não vou lá dizer-lhe isso, é ridículo, uma humilhação completa e não é esse o âmago da questão. se é para falar fala-se do problema principal, do problema todo. está outra vez a demorar, já não consigo estar a ouvi-la sem a ver, começo a sentir umas desconfortáveis saudades dela, que estupidez. podia esquecer tudo por hoje, adiar a conversa para amanhã e passar esta noite enrolado a ela à frente da televisão e na cama, e quem sabe até pode haver sexo para fazer as pazes. não, ela nunca foi de sexo assim do nada. eu prevejo uma queca cá em casa com uma antecedência de vários dias, ultimamente semanas. além disso não posso ignorar o facto de ela ter chegado a esta hora sem qualquer justificação. vou à cozinha, preciso de vê-la. está sentada no chão ao pé do frigorífico a comer um iogurte. "então? no chão?" não me responde outra vez. "ouviste o que eu disse? o que é que se passa?" "ouvi, pensei que era uma pergunta retórica" sorri para mim, "e passa-se alguma coisa ou não?" "não, tudo normal" sorri formalmente e volta a olhar para baixo. eu posso ser estúpido mas não sou estúpido. ambos sabemos que se passa algo que é preciso esclarecer, mas já tentámos tantas vezes que ela diz já não aguentar mais esta conversa. e que merda é esta? sentada no chão da cozinha a ler um flyer da agência abreu? de alças e sem sutiã. nada típico. esta menina neat freak com esta máscara negligé. isto é para me provocar. e está a resultar. volta a saltar-me do fundo uma vontade de falar sem passar pelo cérebro. bom, "ouve, eu quero estar bem contigo, vamos esquecer isto. não estou chateado contigo, provavelmente tenho sido demasiado chato com coisas pouco importantes. se tenho sido chato é porque te adoro e às vezes preocupo-me demasiado. mas sei que és a mulher da minha vida e sabe-me bem dizer-te isto, de repente o resto é supérfluo" sorrio para ela, abandono-me, não pode correr mal se der parte fraca, mas se correr mal pelo menos fui honesto, é o que me vai na alma, não sei onde esta sensação estava escondida mas sabe mesmo bem dizê-la e pensá-la agora! é tão mais fácil ficar bem. é isto que é suposto acontecer entre dois seres humanos que decidiram juntar-se porque perceberam que se amam. é um cliché, mas é verdade. "ok zé, eu também não estou chateada. só tenho estado a pensar em muita coisa e preciso de mais algum tempo para perceber o que quero para mim e não tomar uma decisão irreflectida. quando eu conseguir falar falamos. ok?".
o big bang
quem és, onde estás e o que fazes aqui, podias perguntar-me se soubesses dizer os érres. eu também não sei. mas devia saber responder-te. eu não sei o que eu próprio aqui faço. conheço-me apenas medianamente. nem sei bem onde estamos. algures na via láctea, esse último bairro classificável antes do desconhecido, mas a via láctea não é uma área facilmente localizável. enfim, talvez seja localizável, mas em relação a quê? esquece, nem sabes o que é o desconhecido. o nosso tamanho relativiza a nossa localização, estamos sempre em casa. não sabes a nossa espécie, não sabes que tens mãos mas seguras-te ao meu dedo como a uma bóia salva-vidas desde esse naufrágio inverso. não sabes que tens quem te ame, mas sorris-me quando me reconheces na miríade de familiares que te sorriem e te apalpam perversamente enquanto outros te pegam ao colo nas últimas três horas e meia, como num bacanal de pedófilos com etiqueta.
o teu cérebro está pronto para tudo, virgem, podes vir a ser um astronauta ou um filho da puta. mas serás o meu filho da puta. é fácil dizê-lo porque ainda não o és nem perspectivo que venhas a ser, não pode ser difícil evitar que sejas alguém que desconheço. porque comunicamos. o teu cérebro não processa o conceito de linguagem, não me diferencias do meu gato em comunicação verbal. mas entendes quando te seguro ao colo se berras bestialmente que isso significa que é inevitável para mim fazê-lo. por mais que tudo o resto seja sugado para dentro desse hiato em que te fizeste. precisamente porque dependo agora mais de ti que tu de mim.
o teu cérebro está pronto para tudo, virgem, podes vir a ser um astronauta ou um filho da puta. mas serás o meu filho da puta. é fácil dizê-lo porque ainda não o és nem perspectivo que venhas a ser, não pode ser difícil evitar que sejas alguém que desconheço. porque comunicamos. o teu cérebro não processa o conceito de linguagem, não me diferencias do meu gato em comunicação verbal. mas entendes quando te seguro ao colo se berras bestialmente que isso significa que é inevitável para mim fazê-lo. por mais que tudo o resto seja sugado para dentro desse hiato em que te fizeste. precisamente porque dependo agora mais de ti que tu de mim.
irmã, Lúcia
cheguei à esquina da rua do J e dei-lhe um toque para o telemóvel para descer. fiquei na D. Carlos, não gosto de ir até à porta dele, tenho sempre medo de encontrar a Lúcia, talvez porque a encontro sempre que me aproximo dali. tive há uns meses um fling com ela e desde que tivemos sexo perdi o interesse, para variar. o J apareceu e pela décima vez perguntou-me "porque é que não foste até ali? fui à janela e não te vi."
- porque não quero encontrar a Lúcia, tenho que explicar sempre que aqui venho?
- epá, ainda com essa merda. tenho-a visto com um amigo novo, já deve ter cagado para ti. vamos onde?
- tens visto? mas a entrar para casa dela?
- vi-os uma vez à porta do prédio, não sei se iam a sair ou a entrar. ou se estavam só ali. eu ia a sair. onde é que vamos?
- vamos ali ao pontão. mas viste-os mais que uma vez?
- caga lá na miúda, não andavas a evitá-la? vamos ao pontão fazer o quê? fumar uma? não tenho nada. queres passar no russo?
- não, deixei de fumar. brocas também. vamos só ali passear.
- ah passear, tão querido, como dois marinheiros apaichenados?
- não pá, queria falar contigo. mas diz-me lá viste-a mais que uma vez ou não?
- sim, vi várias vezes, uma delas ele tinha a mão no rabo dela. por isso não há dúvidas que há ali palhaçada. e da grossa, se é isso que queres saber.
- és mesmo besta. não.. quer dizer, sim, mas não é isso que me interessa, era só para saber se é uma cena séria.
J parou e olhou-me de frente.
- epá, explica lá isso bem, mas tu estás interessado na Lúcia ou não? pedi-te para não te meteres com ela, tinhas que fazer merda, e depois cagaste nela como é teu apanágio, agora não deixas a miúda continuar a vida dela?
- estás armado em vizinho galinha? tenho simplesmente um interesse especial por raparigas com quem tive uma proximidade deste género. saber se estão bem, curiosidades. nada mais.
- está bem, deve ser isso... faz o que quiseres, chapinha no teu próprio esterco. mas tenta não sujar toda a gente à tua volta. e o que é que querias falar comigo?
andámos mais um bocado, atravessámos a nova ponte pedonal sobre a 24 de Julho, a que sai em frente ao novo pontão que acaba num canteiro gigante dentro do rio, com árvores raquíticas que quando crescerem hão-de ficar muito bonitas, cheias de salitre e dar flores roxas que sujarão a calçada portuguesa com que algum génio se lembrou de calcetar a margem. vai dar uma óptima sopa de pedra quando vierem as marés vivas.
- acho que tenho cancro no testículo.
- o quê? no testículo?? só tens um?!
- pára lá de gozar, estou preocupado com isto. está um maior que o outro.
- isso pode ser cancro ou roubo. está um a roubar o outro.
- foda-se! para a próxima vou falar com o Manel. estou todo fodido com isto e tu estás a dar baile.
- não, só acho que andas hipocondríaco. devias era ir ver isso. eu não te vou apalpar os testículos, podes ter a certeza.
- achas que vá a um médico?
- não, a um veterinário.
- merda pá, estás impossível.
estava impossível, estranhamente sarcástico, sem o mínimo arrependimento de me estar a irritar, aliás, parecia estar só a pensar como me irritar mais.
- está tudo bem? - perguntei.
- sim. está tudo óptimo. pelo menos não tenho cancro.
.........
- tu gostas da Lúcia?
- eu, estás parvo? conheço-a desde pitinha.
- e então?
- e então nada, é tipo irmã, que estupidez de conversa é essa?
.........
- ok, então desculpa lá, eu é que ando preocupado com isto e ando um bocado irascível.
- também me parece. é porque deixaste de fumar? e que merda é essa, deixaste de fumar? tu nunca fumaste a sério.
- lá estás tu, que merda de conversa, tu é que és o grande fumador de Lisboa. os outros são amadores. deixei de fumar porque posso ter cancro no testículo.
- e tu fumas com os testículos? és claramente amador.
- sei lá, essas merdas podem estar todas relacionadas. é como o IRS e a Seg. Social. um gajo não arrisca.
- sabes o que é que está relacionado? doenças venéreas e não usar preservativo.
- ??
- sim, ela contou-me.
- a Lúcia?!
- claro.
- mas porque é que ela anda a falar disso contigo?? andas a comê-la? palhaço, todo moralista para mim. ahah.
- não ando a comê-la, não. há relações entre homens e mulheres sem ser a foder. estava preocupada com isso e veio perguntar-me pela tua vida "amorosa".
- e o que é que disseste?
- disse que não amavas ninguém. só fodias.
- ahah, estás armado em Florbela Espanca? não me lembro desses sentimentos honestos quando andaste a perseguir a minha irmã até ela te enfiar lá no quarto e depois desapareceres durante um ano.
o J ficou envergonhado mas raivoso. fica sempre, quando jogo o trunfo.
- então não me chateies mais com o teu colhão.
- porque não quero encontrar a Lúcia, tenho que explicar sempre que aqui venho?
- epá, ainda com essa merda. tenho-a visto com um amigo novo, já deve ter cagado para ti. vamos onde?
- tens visto? mas a entrar para casa dela?
- vi-os uma vez à porta do prédio, não sei se iam a sair ou a entrar. ou se estavam só ali. eu ia a sair. onde é que vamos?
- vamos ali ao pontão. mas viste-os mais que uma vez?
- caga lá na miúda, não andavas a evitá-la? vamos ao pontão fazer o quê? fumar uma? não tenho nada. queres passar no russo?
- não, deixei de fumar. brocas também. vamos só ali passear.
- ah passear, tão querido, como dois marinheiros apaichenados?
- não pá, queria falar contigo. mas diz-me lá viste-a mais que uma vez ou não?
- sim, vi várias vezes, uma delas ele tinha a mão no rabo dela. por isso não há dúvidas que há ali palhaçada. e da grossa, se é isso que queres saber.
- és mesmo besta. não.. quer dizer, sim, mas não é isso que me interessa, era só para saber se é uma cena séria.
J parou e olhou-me de frente.
- epá, explica lá isso bem, mas tu estás interessado na Lúcia ou não? pedi-te para não te meteres com ela, tinhas que fazer merda, e depois cagaste nela como é teu apanágio, agora não deixas a miúda continuar a vida dela?
- estás armado em vizinho galinha? tenho simplesmente um interesse especial por raparigas com quem tive uma proximidade deste género. saber se estão bem, curiosidades. nada mais.
- está bem, deve ser isso... faz o que quiseres, chapinha no teu próprio esterco. mas tenta não sujar toda a gente à tua volta. e o que é que querias falar comigo?
andámos mais um bocado, atravessámos a nova ponte pedonal sobre a 24 de Julho, a que sai em frente ao novo pontão que acaba num canteiro gigante dentro do rio, com árvores raquíticas que quando crescerem hão-de ficar muito bonitas, cheias de salitre e dar flores roxas que sujarão a calçada portuguesa com que algum génio se lembrou de calcetar a margem. vai dar uma óptima sopa de pedra quando vierem as marés vivas.
- acho que tenho cancro no testículo.
- o quê? no testículo?? só tens um?!
- pára lá de gozar, estou preocupado com isto. está um maior que o outro.
- isso pode ser cancro ou roubo. está um a roubar o outro.
- foda-se! para a próxima vou falar com o Manel. estou todo fodido com isto e tu estás a dar baile.
- não, só acho que andas hipocondríaco. devias era ir ver isso. eu não te vou apalpar os testículos, podes ter a certeza.
- achas que vá a um médico?
- não, a um veterinário.
- merda pá, estás impossível.
estava impossível, estranhamente sarcástico, sem o mínimo arrependimento de me estar a irritar, aliás, parecia estar só a pensar como me irritar mais.
- está tudo bem? - perguntei.
- sim. está tudo óptimo. pelo menos não tenho cancro.
.........
- tu gostas da Lúcia?
- eu, estás parvo? conheço-a desde pitinha.
- e então?
- e então nada, é tipo irmã, que estupidez de conversa é essa?
.........
- ok, então desculpa lá, eu é que ando preocupado com isto e ando um bocado irascível.
- também me parece. é porque deixaste de fumar? e que merda é essa, deixaste de fumar? tu nunca fumaste a sério.
- lá estás tu, que merda de conversa, tu é que és o grande fumador de Lisboa. os outros são amadores. deixei de fumar porque posso ter cancro no testículo.
- e tu fumas com os testículos? és claramente amador.
- sei lá, essas merdas podem estar todas relacionadas. é como o IRS e a Seg. Social. um gajo não arrisca.
- sabes o que é que está relacionado? doenças venéreas e não usar preservativo.
- ??
- sim, ela contou-me.
- a Lúcia?!
- claro.
- mas porque é que ela anda a falar disso contigo?? andas a comê-la? palhaço, todo moralista para mim. ahah.
- não ando a comê-la, não. há relações entre homens e mulheres sem ser a foder. estava preocupada com isso e veio perguntar-me pela tua vida "amorosa".
- e o que é que disseste?
- disse que não amavas ninguém. só fodias.
- ahah, estás armado em Florbela Espanca? não me lembro desses sentimentos honestos quando andaste a perseguir a minha irmã até ela te enfiar lá no quarto e depois desapareceres durante um ano.
o J ficou envergonhado mas raivoso. fica sempre, quando jogo o trunfo.
- então não me chateies mais com o teu colhão.
revolver
a capacidade de uma só pessoa despoletar uma revolução, se não foi já exaustivamente esmiuçada e publicada, foi pelo menos amplamente tentada, de forma patética ou de forma doutoral, com ou sem sucesso, desejada, individualmente ou colectivamente, em privado ou em público, metodicamente ou ansiosamente discutida, em tempos de apática paz ou em períodos de crise extrema ou de sufoco ditatorial.
porquê a revolução? a revolução é mais do que um grito de desespero, é um atropelamento mortal em raiva, sem fuga, capaz de trazer a justiça social pela força bruta. o que é esta justiça, das suas perspectivas e contornos, a quem toca na prática e em detrimento de quem, se de uma minoria ou de uma maioria, é mais do que aquilo a que me consigo propor divagar em cima neste parapeito vertigo sobre a avenida da Liberdade, sem sapatos. na teoria, a revolução representa a força do desespero de uma maioria desfavorecida e no seu limite da consciência. na prática, representa a capacidade de condução de uma elite esclarecida sobre uma massa acéfala desesperada, que apesar da condição de acéfala, sabe bem o que não quer, mas não para onde a conduzem.
porque não uma manifestação? uma manifestação é a forma mais rastejante de um ser humano se manifestar. sob uma baliza policial, é o rinoceronte de D Manuel, é uma gay parade sem pride, é marcada segundo a conveniência das partes envolvidas, dos manifestantes, das forças da ordem, do município, do trânsito, dos pacificadores, dos ambientalistas, das necessidades, dos alvos da manifestação, dos pombos, da puta da mãe deles. é a antítese do propósito da manifestação porque não causa qualquer incómodo, porque se torna invisível. para passar uma mensagem, é preferível pôr um anúncio num jornal. isto não é uma hipérbole, é mesmo preferível, porque notícias de manifestações na TV, ninguém V. a mente diverge do ecrã para o cheiro a bife que vem da cozinha. publicidade no jornal todos papam, é uma questão de marketing. o sentido jurídico da palavra manifestação não é o mesmo que o sentido linguístico, a verdadeira manifestação deve ser feita de forma espontânea, convocada informalmente, só porque é proibido.
a revolução pode assim ser uma simples manifestação espontânea, pacífica, um ajuntamento de centenas, de milhares de pessoas, que, desde que haja fé e persistência suficientes, mais tarde ou mais cedo resultará em confrontos físicos. ela é ilegal, não foi convocada, a autoridade vê-se no direito de usar o cacete. assim o manifestante vê-se no direito de se defender. e se as pessoas não voltarem para casa ao fim do dia? e se a manifestação for contínua? e se o povo sabendo que tem razão tiver tomatinhos para não arredar pé? e se não desistir, se estiver disposto a ir até às últimas consequências? a morte? e se eu não sair daqui de cima até que voltes a esta varanda e fales comigo decentemente e me digas que afinal estavas errada e eu estava certo? e se não houver limite na cabeça das pessoas que estabeleça o bom senso e a guerra civil rebentar por causa de merdinhas destas? por coisas evitáveis logo no início das conversas?
revolução de um só homem. podem ser cem, mas basta um que incendeie outros noventa e nove, um rastilho, e que depois movam uma multidão unida por um sufoco. o sufoco de não querer viver sob as duras regras, de estratégia dúbia, de uma elite que sucessivamente arrasta a maioria para um abismo que estica à medida que nele se cai, e que sugere numa base diária novas regras para cingir a voz dessa maioria. quando o poder da mole humana que constitui uma comunidade, uma nação, um continente, um planeta, se resume ao voto em entidades genéricas com bandeiras abstractas e discursos tão abrangentes e pouco objectivos que tendem para zero, que não representam nada de prático, nada daquilo que na verdade podem ou querem fazer, quando a população entende que aqueles que elege não têm poderes, nem em teoria nem de facto, para os governar, nem sequer vontade, para além daquilo que lhes garanta nova posição, quando se atinge o limite da compreensão para a obscenidade que nos toca cada vez mais dentro da própria roupa, basta um fósforo (amorfo?) que inflame um rastilho assaz consistente, que rapidamente se dará a explosão branqueadora. o rastilho é o que importa tocar, barris de pólvora há-os por todo o lado, sempre, à espera da menor atenção.
*um dado curioso relativo ao controlo de um barril de pólvora: quando todos os preços aumentam, o dos canais de informação cai a pique. não que com isso a informação seja mais democrática, pelo contrário, mas poderia sem perigo algum sê-lo, que perdeu-se já a capacidade de a filtrar ou pior, de a sentir.
enfim, não precisas de voltar, entendo agora que a minha ansiedade não se deve ao facto de me teres deixado aqui com esta chuva, com os faróis dos carros a encadear-me quando descem a avenida. deve-se antes à consciência que aflora nesta cacofonia de ideias de merda, de que sempre fui governado, por ti, por eles, por outros antes de ti, sempre me deixei governar ao bel-prazer de terceiros indiferentes, com umas quantas manifestações, organizadas, dentro dos limites da legalidade, algumas queixas azedas do estado das coisas, sem efeito. até que te fartaste e eles fartaram e fartarão dessas queixas e seguiste e seguiram e seguirão com a sua vida e eu continuo a necessitar de ser governado, com a agravante dos estragos que me deixaste na alma, cada vez com menor capacidade de aprender a governar-me sozinho, e o chão a aproximar-se.
porquê a revolução? a revolução é mais do que um grito de desespero, é um atropelamento mortal em raiva, sem fuga, capaz de trazer a justiça social pela força bruta. o que é esta justiça, das suas perspectivas e contornos, a quem toca na prática e em detrimento de quem, se de uma minoria ou de uma maioria, é mais do que aquilo a que me consigo propor divagar em cima neste parapeito vertigo sobre a avenida da Liberdade, sem sapatos. na teoria, a revolução representa a força do desespero de uma maioria desfavorecida e no seu limite da consciência. na prática, representa a capacidade de condução de uma elite esclarecida sobre uma massa acéfala desesperada, que apesar da condição de acéfala, sabe bem o que não quer, mas não para onde a conduzem.
porque não uma manifestação? uma manifestação é a forma mais rastejante de um ser humano se manifestar. sob uma baliza policial, é o rinoceronte de D Manuel, é uma gay parade sem pride, é marcada segundo a conveniência das partes envolvidas, dos manifestantes, das forças da ordem, do município, do trânsito, dos pacificadores, dos ambientalistas, das necessidades, dos alvos da manifestação, dos pombos, da puta da mãe deles. é a antítese do propósito da manifestação porque não causa qualquer incómodo, porque se torna invisível. para passar uma mensagem, é preferível pôr um anúncio num jornal. isto não é uma hipérbole, é mesmo preferível, porque notícias de manifestações na TV, ninguém V. a mente diverge do ecrã para o cheiro a bife que vem da cozinha. publicidade no jornal todos papam, é uma questão de marketing. o sentido jurídico da palavra manifestação não é o mesmo que o sentido linguístico, a verdadeira manifestação deve ser feita de forma espontânea, convocada informalmente, só porque é proibido.
a revolução pode assim ser uma simples manifestação espontânea, pacífica, um ajuntamento de centenas, de milhares de pessoas, que, desde que haja fé e persistência suficientes, mais tarde ou mais cedo resultará em confrontos físicos. ela é ilegal, não foi convocada, a autoridade vê-se no direito de usar o cacete. assim o manifestante vê-se no direito de se defender. e se as pessoas não voltarem para casa ao fim do dia? e se a manifestação for contínua? e se o povo sabendo que tem razão tiver tomatinhos para não arredar pé? e se não desistir, se estiver disposto a ir até às últimas consequências? a morte? e se eu não sair daqui de cima até que voltes a esta varanda e fales comigo decentemente e me digas que afinal estavas errada e eu estava certo? e se não houver limite na cabeça das pessoas que estabeleça o bom senso e a guerra civil rebentar por causa de merdinhas destas? por coisas evitáveis logo no início das conversas?
revolução de um só homem. podem ser cem, mas basta um que incendeie outros noventa e nove, um rastilho, e que depois movam uma multidão unida por um sufoco. o sufoco de não querer viver sob as duras regras, de estratégia dúbia, de uma elite que sucessivamente arrasta a maioria para um abismo que estica à medida que nele se cai, e que sugere numa base diária novas regras para cingir a voz dessa maioria. quando o poder da mole humana que constitui uma comunidade, uma nação, um continente, um planeta, se resume ao voto em entidades genéricas com bandeiras abstractas e discursos tão abrangentes e pouco objectivos que tendem para zero, que não representam nada de prático, nada daquilo que na verdade podem ou querem fazer, quando a população entende que aqueles que elege não têm poderes, nem em teoria nem de facto, para os governar, nem sequer vontade, para além daquilo que lhes garanta nova posição, quando se atinge o limite da compreensão para a obscenidade que nos toca cada vez mais dentro da própria roupa, basta um fósforo (amorfo?) que inflame um rastilho assaz consistente, que rapidamente se dará a explosão branqueadora. o rastilho é o que importa tocar, barris de pólvora há-os por todo o lado, sempre, à espera da menor atenção.
*um dado curioso relativo ao controlo de um barril de pólvora: quando todos os preços aumentam, o dos canais de informação cai a pique. não que com isso a informação seja mais democrática, pelo contrário, mas poderia sem perigo algum sê-lo, que perdeu-se já a capacidade de a filtrar ou pior, de a sentir.
enfim, não precisas de voltar, entendo agora que a minha ansiedade não se deve ao facto de me teres deixado aqui com esta chuva, com os faróis dos carros a encadear-me quando descem a avenida. deve-se antes à consciência que aflora nesta cacofonia de ideias de merda, de que sempre fui governado, por ti, por eles, por outros antes de ti, sempre me deixei governar ao bel-prazer de terceiros indiferentes, com umas quantas manifestações, organizadas, dentro dos limites da legalidade, algumas queixas azedas do estado das coisas, sem efeito. até que te fartaste e eles fartaram e fartarão dessas queixas e seguiste e seguiram e seguirão com a sua vida e eu continuo a necessitar de ser governado, com a agravante dos estragos que me deixaste na alma, cada vez com menor capacidade de aprender a governar-me sozinho, e o chão a aproximar-se.
nada mais assustador que a ignorância em acção
talvez esse medo justifique a minha inércia.
"Cidades como Cartago, Alexandria, Bizâncio, Constantinopla e Istambul apresentam-se como sendo as primeiras com importância a nível civilizacional que estreitaram esta relação com a água".
com os pêlos do pescoço eriçados penso "esta imbecil teve 18 com erros destes?" o desespero imobiliza-me, o apatia de não saber por onde pegar no resto da minha própria tese, para que é que me dou ao trabalho? há pessoas que fazem e dizem esta merda e safam-se. com 18 valores.
admiravelmente isso não me dá alento, por duas razões: primeiro porque deixo de ter um termo de comparação real. sim, alguém fez uma tese no mesmo tema que eu, mas resultou neste lixo, fê-la entre o pequeno almoço de cereais com fibra e a primeira evacuação do dia. em segundo lugar porque me apercebo de que apesar de ignorante na matéria em que diz ser mestre, ela tem bastante maior capacidade de trabalho que eu. isso nota-se pela excelente organização dos capítulos e dos sub-capítulos com números e letras e cores e sons e tudo. não tenho hipóteses quando comparado com pessoas que sabem trabalhar. no campo dos inúteis até sou uma pessoa medianamente interessante.
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