perder Judas

houve agora algum tempo e conjuntura para pensar num amigo perdido, conjuntura formada pelas férias e por um vazio profundo de determinados interesses e opiniões comuns, que ele preenchia sem esforço, e que eu desconsiderava sem consciência, pensando que este tipo de relações era inevitável, que acabávamos por nos fazer rodear de pessoas que nos faziam sentir assim, que era isso a que chamávamos amigos. mas não, os amigos são outra coisa, possivelmente mas não necessariamente coincidente.

tenho pensado, porque me é querido e custoso, no anormal caso de um gajo culto, competente, giro, genial, jovial, justo, o Judas, que vive sozinho, despojado de mulheres e amigos. vive, não habita, vive sozinho, não por opção consciente mas por ser um filho da puta, sem maldade intrínseca, mas o mais puro filho da puta, se é que existe alguma universalidade nesse conceito. na verdade não vive despojado de mulheres. na verdade, as mulheres são a única coisa que lhe resta. e são muitas. são centenas, talvez milhares, se manteve o ritmo desde a última vez que fomos amigos. mas nenhuma é a sua mulher.

o Judas perdeu-se depois de uma experiência falhada em viver com a nossa amiga Madalena, seu amor platónico nos anos universitários, depois de explodir entre eles uma paixão assolapada de que me envergonha falar, porque sinto que dei por ela demasiado tarde e que fui empata-fodas durante demasiado tempo. aliás, desconfio que nem cheguei bem a ser empata-fodas, o que me parece pior, porque foi na mais completa ignorância que o não fui.

enfim, acabaram mal. nenhum deles queria perder o outro, mas nenhum quis permitir que fosse o outro a pôr um ponto final naquele martírio matrimónio. ficaram os dois na merda e orgulhavam-se imenso de terem sido eles (cada um deles, isoladamente) a decidir o fim da relação. discutiram bastante em público nos anos seguintes, até que deixaram de se comunicar a não ser para enviar mensagens anuais de parabéns. hoje já até dos ânus um do outro se esqueceram.

soube também demasiado tarde a história dele com amigos e mulheres. um grande amigo seu que conheci bêbado, foi um monte de merda, perseguiu sem piedade uma ex-namorada do Judas, ainda fresquinha, por uma antiga paixão clandestina inexplicável (que lhe toldava o raciocínio e a moral, o que é comum). esta ex-namorada, abandonada de surpresa, sedenta de vingar-se do Judas com sangue, entregou-se como virgem devota ao amigo que antes desprezava, entregou o inentregável, filmou e enviou-lhe por email. este episódio ficou forçosamente gravado na memória e na personalidade do Judas, que me confessou ter ficado viciado no vídeo, tendo ritualizado durante aproximadamente dois anos uma visualização diária antes de se deitar, a maioria das vezes com um copo de whisky numa mão e a outra dentro das cuecas, apesar de com o amigo ter cortado relações e os 4 pneus, estes também de forma ritualizada.

a este episódio colou-se a apaixonada relação com a Madalena e o novelesco fim da relação com a Madalena, nunca mais conseguiu ter uma relação que lhe interessasse. teve várias, todas coxas à partida, todas impossíveis, experimentou tudo o que pudesse soar a imoralidade, adultério, clientes, chefes, triângulos amorosos, primas, praticamente experimentou a pedofilia. quando os amigos ultrapassavam o choque ou o choque deixava de ser o tema nuclear, perdia o interesse, rompia tudo, partia para a próxima barbaridade. confrontei-o com esse fascínio, com essa procura pelo impossível e o bárbaro, e disse que achava que esse conceito era galopante e que tendia para o abismo, mas não me lembro da resposta dele porque infelizmente estava completamente bêbado. resta-me no telemóvel uma estranha gravação em vídeo dessa conversa, debaixo de música dos santos populares, já na parte em que ele diz que está na hora de ir para casa. a única memória material que tenho da sua voz.

fui uma vez de férias com ele, sem destino traçado, apenas uma direcção genérica e o prazo francamente elástico que o emprego precário permite. era o início do verão, o sal e a confiança queimavam a pele de tal forma que apenas tínhamos que entrar no spot da moda para garantir indígenas deslumbradas e imprevisíveis ofertas de bebidas saloias de sílabas básicas. imprevisíveis porque estávamos concentrados em conversar e antes que reparássemos na fauna local, já estávamos na base da cadeia alimentar, precisamente porque estávamos indiferentes ao ecossistema. éramos verdadeiramente interessados em estar um com o outro, o pretexto da viagem servia para compensar os meses que passávamos sem nos falar em exclusivo. as horas de conversa que necessitam duas pessoas viciadas no argumento um do outro e que se gostam e que se entendem, são sempre insuficientes quando no fim do dia e da noite há casas diferentes onde regressar.

no regresso a Lisboa e a casa ele começou a andar com a minha ex-namorada.

perdoei-o, era este o poder argumentativo do Judas, depois de discussões intermináveis e de algum tempo de nojo. fizemos até uns programas a 4, e quando tudo estava bem, quando lhes abençoei a relação (e aqui admito o meu demérito, deve ser irritante receber a bênção paternalista do ex-namorado), ele terminou-a. já não chocava, já não interessava, decidiu vingar-se do meu paternalismo com esta humilhação da minha memória viva, ver a Sofia enxovalhada e a chorar por ele. um cabrão. ainda assim voltámos a ser amigos.

o culminar conhecido das suas experiências, do seu controverso conceito de amor, foi logo de seguida, viver com a mulher do seu melhor amigo do atelier, ao lado de quem trabalhava diariamente no Carrilho, com quem fazia directas, com quem bebia copos e festejava entregas bem sucedidas e primeiros prémios em concursos internacionais, de quem ouviu as mágoas em álcool e lágrimas quando a mulher pediu o divórcio ao fim de uma semana sem vir dormir a casa, por estar apaixonada por um desconhecido. viveu com ela o tempo suficiente para todos os amigos saberem disto, e os cornos do ignóbil ex-marido e amigo terem adquirido proporção mitológica. eu via este encornado como uma daquelas pessoas que têm um papel colado nas costas onde se lê "dá-me um chuto no cu", tinha uma pena profunda dele e ao mesmo tempo irritava-me tamanha cegueira e euforia bipolar pós divórcio, ele, bêbado, abraçado a um Judas desconfortavelmente sóbrio, a confessar-me "este gajo aqui é um senhor, um amigo, um arquitecto!". depois o Judas fartou-se da farsa e encornou-a, deixou-a em lágrimas e álcool.

tenho pensado então. creio que o vício de iniciar amores clandestinos o ajuda nas decisões de abandonar relações que ainda vão no adro. inicia-as sempre com grandes projecções de futuro, em que ele próprio não acredita. acabou por assumir o seu gosto por esses momentos de planeamento do presente disfarçados de projectos de vida. esse vício ajuda-o também a relativizar a moral, e ajuda-o a encontrar e esgrimir com confiança argumentos para explicar traições injustificáveis, mas essa confiança é a fórmula do seu sucesso argumentativo, não o raciocínio subjacente. é a confiança fraternal com que nos diz "eu sei, eu sei, tens toda a razão, é uma filha da putice, no teu lugar eu estaria todo fodido. mas tens que compreender que" tenho que compreender que ele não está no meu lugar.

é desse argumento que tenho saudades, dessa frontalidade desarmante, sem a boçalidade do bimbo que se arroga frontal, diz o que lhe apetece e assim justifica a bestialidade. não, é antes uma franqueza não ofensiva, não maldosa, não julgadora, de quem está ali para ouvir o seu próprio sacramento e perdoar-se perante nós. é inexplicável, mas eu admirava esse dom.

há cerca de dois anos decidiu afastar-se de mim definitivamente, num dos picos da nossa relação feita de reatamentos e tempos de luto. vínhamos num crescendo de auto-suficiência (a dois), o que para os homens não é como com as mulheres, necessitar apenas de um amigo para relatar todos os problemas do dia-a-dia. não é normal, é claustrofóbico. talvez eu próprio me tivesse tornado numa âncora emocional para ele, e ele tivesse procedido como normalmente, seguindo para a próxima. a quebra foi rápida, o quotidiano ajudou e deixou finalmente de me atender quando lhe disse que ia ser pai de uma menina, a Madalena, como a mãe.

a insubestimável clareza do sonho

- estava a sonhar contigo.
- hhmmmmmmm rrrrsss...
- foi bom.

ela estava de costas para mim, virou a cara para cima e abriu um olho, depois debruçou-se sobre a mesa de cabeceira e agarrou no telemóvel. tinha o cabelo todo achatado de um lado. fica-lhe bem o cabelo curto, mas assim parecia um puto ranhoso, com ramelas e os olhos e lábios inchados, mas não de uma forma Angelina Jolie.

- que horas são...? já são 8 e meia..
- calma, é sábado.. o meu sonho passava-se no início da nossa relação. estávamos apaixonados. que estranho, é uma sensação completamente diferente do que sentimos agora.
- oh... parvo... (pronunciava as palavras como se escondesse comida na boca)
- estou a falar a sério. acabei de o sentir no sonho. acabo de passar do início da nossa relação para os dias de hoje, é uma diferença abismal, é uma sensação muito estranha, uma nostalgia da paixão.. é quase deprimente, como um luto.
- como é que sabes..?
- hm?
- como é que sabes... que eu sinto o mesmo que tu? tu é que já não gostas de mim.
- não é nada disso, se estivesses no sonho percebias. estavas sempre a rir, completamente horny, insinuante, e estavas toda tesudona, foda-se, era praticamente um sonho erótico. que fixe, era mesmo real. lembro-me perfeitamente daquele nosso estado de espírito inicial.

enquanto tentava relembrar-me do sonho, a olhar para os florões infinitos no tecto, senti a mão dela na minha perna. automatizada, como quando vê outra mulher a olhar para mim na rua. claramente precisava de me tocar para não me deixar fugir pelo meu pensamento adentro, para uma realidade que lhe era adversa. mas adversa porquê? era ela aquela do meu sonho. ela tinha capacidade de ser aquela pessoa, já a tinha sido.

- ele já acordou?
- não sei, ainda não o ouvi.
- queres ir aquecer-lhe o leite? eu vou lá acordá-lo?
- espera um bocado, é sábado. estavas com a blusa azul, acho que ainda a tens, sabes qual é?
- essa blusa está rasgada há anos.
- ah... mas era óptima...

debruçava-se agora sobre a minha mesa de cabeceira e sobre mim para agarrar o intercomunicador do João, encostou-o ao ouvido, atenta. ficou naquela posição a tentar ouvir, apoiada num braço, o peito sem sutiã sobre a minha cara, roçava-me nos lábios, no limbo da gola extra-larga, aquilo foi de propósito? não, foi casual, como quando se dobra à minha frente ao tirar as calças para ir para o banho, e eu lhe agarro firmemente o rabo espetado e ela resmunga irritada "ai pára". sem me mover fiquei a apreciar a pele nua e o tecido nos lábios. ela levantou-se.

- acho que ele está acordado. vou lá buscá-lo e aquecer-lhe o leite.
- eu acho que vou voltar para o meu sonho.
- não te esqueças que temos almoço com os meus pais.

lúmen

estiquei-me e acabei sozinho. pareceu-me que toda a gente tinha ido para casa a horas cinderélicas, mas afinal eu é que tinha perdido a noção das horas e do ridículo. cheguei àquele momento fatídico em que acabo de pedir uma bebida, volto-me para a pista e consigo ver grandes pedaços do chão imundo e poucas pessoas demasiado felizes a dançar sozinhas. cabrão do gajo do bar vendeu-me a última imperial da noite sabendo que eu ficava ali com o refugo. fico triste, convém ter presente que a intenção de sair à noite desta forma abestalhada é esquecer, e para isso é preciso criar memórias, rir e foder, e perdi-me algures a meio da noite a falar com uma amiga da minha ex-namorada (uma amiga fiel, demorei a perceber), agora era tarde. o último copo é bebido como uma janela temporal a fechar-se para o romance. à minha frente um erasmus eufórico metia-se com uma gaja das que dançam a apontar para o DJ e ela a berrava-lhe que a deixasse. ele olhou para mim, e eu deixei-os, para não lhe agigantar a derrota e para evitar que ele viesse tentar ser meu amigo. desci as escadas, Zé Carlos, o porteiro que não sabe o meu nome, despediu-se de mim como se eu me fosse embora, e eu senti-me obrigado a sair.

chegado cá fora, a luz do dia ainda sem sol cegou-me momentaneamente, o frio da manhã soprou-me o pescoço, maxilares e orelhas, várias pessoas que vira lá dentro agora eram feias, pintadas exageradamente, com borbulhas, o eco surdo do subwoffer de um carro quitado testava os meus tímpanos anestesiados. entre alguns grupos de pessoas estava um homem sozinho de t-shirt preta muito justa que reconheci sem saber inicialmente de onde. era o Morais Sarmento, o ex-toxicodependente. o parlamento tinha sido dissolvido há um ou dois meses. nunca o imaginei com este estilo de cromo da discodance, calças de cabedal também justas, suava que nem um porco, os olhos raiados de sangue debaixo das pálpebras pesadas e inchadas. foi a primeira de duas vezes que o vi em ambiente nocturno, arrisco-me a dizer, em ambiente de drogas pesadas. olhou-me indiferente. fui ter com ele, pedi-lhe lume. silencioso enquanto eu acendia o cigarro, perguntou-me quando lhe devolvi o Dunhill "onde é que se vai agora?", não sei, eu vou para casa, se fosse a ti ia para outro país. ele sorriu e voltou-me as costas. fui até à beira do cais, ainda não havia gradeamento, na altura em que os carros caíam ao Tejo. sentei-me e fiquei a ouvir as conversas dos grupos de bêbados. todas giravam à volta de sexo. nenhuma daquelas pessoas me parecia sexualmente activa.

olhei para o sítio onde o sol deveria aparecer, nunca mais aparecia. ouvi as gaivotas e o som das ondinhas a chapinhar no musgo da margem, eram sons muito agressivos, deram-me para pensar em merdas que fazem chorar e decidi voltar para casa antes que algum cristão pastilhado decidisse vir perguntar-me se estava bem e se era feliz, e eu o atirasse ao rio. meti-me no único táxi da fila, um belenense. uma rapariga sozinha chegou entretanto à paragem, voltei a abrir a porta e perguntei-lhe para onde ia, podíamos partilhar o táxi. não era feia (não era linda), sorriu muito para mim e vestia-se bem. ia para Sarilhos Grandes.

a vida a dois

seguramente não sou caso único entre os homens, toda a vida tenho sonhado viver sozinho, numa casa funcional, simples, oca, na minha desarrumação minimalista. toda a vida vivi em matriarcados, ou seja, nunca tive uma casa de banho arrumada, 95% dos items que lá se encontram não me pertencem. cremes, vernizes, secadores, alisadores de cabelo, vibradores, convivem todos com a minha escova de dentes. o papel higiénico acaba-se no mesmo dia em que substituo o rolo, o meu champô também é amaciador e deixa-me o cabelo seboso, aliás nem sequer é meu porque não sou eu que o compro nunca, mea culpa. de alguma maneira tem-me escapado sempre a oportunidade de me confrontar com a auto-suficiência por períodos maiores ou com a minha incapacidade para tal, precisava de saber isto.

a primeira pessoa com quem vivi foi uma rapariga que espalhava a roupa usada pela casa, por vezes em cima da cama, e conseguia dormir ali sem tirar a roupa de cima. se não a amasse, acordava-a aos berros todas as noites quando chegava a casa exausto a precisar de cair na cama. assim simplesmente recolhia a roupa e metia-a no cesto, e ouvi-a reclamar por ter acendido a luz trémula da minha cabeceira. a Sofia obrigava-me a cozinhar feijão com linguiça de madrugada, quando eu seria capaz de passar dois dias a iogurtes e sandes de queijo só para não ter trabalho, e como não tínhamos máquina de lavar loiça, a cozinha era Chernobyl por períodos de 48 horas, até que já não houvesse panelas, "alguém" as lavasse e eu as sujasse outra vez. depois refizemos o contrato da cozinha, passei eu a lavar a loiça e ela a cozinhar. aí raramente comíamos em casa.

a dada altura morei com um casal num soft threesome, fodiam sem pudor na minha presença. a namorada, surpreendentemente uma neat-freak, vinha depois mostrar-me os preservativos usados e deixava-os disfarçadamente no meu quarto, talvez porque estivesse farta de mim ali em casa, talvez por ser frita dos cornos. lá está, tomava a pílula e fodia com preservativo o seu namorado de 7 anos. também tomava banho à minha frente, por isso a coisa foi-se equilibrando (para mim uma personalidade devassa compensa certa dose de cabra de merda). até que enfiei uma amiga mais frita e ruidosa que ela lá em casa, pegaram-se, e acabei por ser posto na rua. a casa de banho e cozinha eram forradas a caixinhas kitsch e bibelots fashion, gatos que dizem adeus, torre-efféis cantantes, nossa-senhoras fluorescentes, cartazes de filmes indy-cliché para gajas, a Amélie Poulain por cima do autoclismo obrigou-me a longos minutos de ansiedade em frente à sanita, tenho uma shy bladder, e a Amélie tem ar de quem não faz sexo oral por convicção de virgem feminista ou de quem já teve um namorado moçambicano de 1 metro e 94 (ler, pila de 25cm). de vez em quando eu mandava um bibelot para a sanita para aliviar a tensão.

apenas morei sozinho em momentos de transição, quando estava mais ocupado e ansioso em enfiar-me noutras camas do que em compor a minha toca. nessas alturas ia ao supermercado e um só saco de compras bastava para enfiar tudo aquilo que preciso para sobreviver, higiene, comida e sexo. nem sei bem o que a higiene faz nesta lista. cheguei a comprar uns móveis IKEA, à falta de MUJI, para a minha eterna casa nova, chegou a ter um ar próximo do confortável, até que dei guarida a uma artista plástica que trouxe o cão, um rafeiro com um problema de pele que me mijava no terraço, nas ervas que usava para a cozinha. esse cão, o Já Disse, roubou-me para sempre o lugar no sofá, já que o seu problema de pele me impediu de tentar reconquistá-lo. além do Já Disse ela trouxe as suas esculturas multimérdia, roubou-me o escritório para a arte robótica, sujou-me o pinho de Riga com tinta de esmalte e pintou numa parede um esquema de montagem de uma impressora-saca-rolhas-ipod que nunca construiu, apesar de querer convencer-me que aquela parede era a própria "peça" e era dela por usucapião. um dia sozinho em casa reparei que a mesa de centro tinha o nome dela gravado com uma chave ou quem sabe, uma catana. ela tinha vivido com uma mulher mais velha, rica que lhe pagava para viver e foder. mas eu não era velha nem rica e cansei-me de sustentar uma criança crescida, de quem gostava muito e que fodia como gente grande. decisões difíceis estas que envolvem perder uma gaja boa e fodilhona. o Já Disse morreu na mudança.

também enquanto vivi com a minha mãe, por falar em gaja boa e fodilhona, a desarrumação apocalíptica era um modo de estar na vida, com a diferença de eu nunca ter reparado nisso, porque era organizada e porque cresci no meio daquela parafernália de futilidades. se olhasse para cada objecto isoladamente encontrava uma razão para ele existir e estar naquela prateleira, mas tudo junto formava uma espécie de loja do chinês, de coisas que foram usadas apenas uma vez, outras que nunca foram usadas e outras que nunca poderiam ser usadas porque eram inúteis. o problema é que havia prateleiras a mais e a minha mãe só queria dar-lhes uso. penso que terá sido por isso que o meu pai saiu de casa. cheguei a ponderar aproveitar para fugir com ele, ir viver para a Expo que nem um novo-rico, mas seria patético tendo em conta que fui praticamente eu a expulsá-lo de casa, como um gorila chegado à adolescência. também teria sido sui generis tentar dividir tarefas com alguém que pensa que uma casa é vendida com uma mulher lá dentro.

quase me esquecia da Antje, vivi 2 meses com uma alemã, mas como era alemã, não há nada para contar. a Antje estava na vida como quem está sentado na sala de estar da Farnsworth a ler Kierkegaard ou António Aleixo. não se vive, coabita-se com uma pessoa assim, e ela tem de nós apenas uma suave lembrança.

gosto de viver com mulheres, não tenho dúvidas, senão não tinha recaídas constantes e não tinha decidido este ano viver o resto da minha vida (sim, um passo de cada vez) com uma pessoa insuportavelmente injusta e casmurra no que respeita à partilha do mesmo espaço, que enche a casa de mobiliário com "personalidade", que me permite escolher a cor do tapete da sala que ela já reduziu a duas hipóteses, que é capaz de empilhar correio e tralha em qualquer superfície plana mas não é capaz de me ver a mim a fazê-lo sem se irritar, que me obriga a despachar os assuntos e arrumações pendentes que fiquei eu de tratar só para eles ficarem pendentes mais à frente na inércia dela, que chora baba e ranho quando eu fujo ao que ela esperava de mim: a confirmação de que ela teve uma grande ideia para nós "ok, então eu concordo" "não, assim não! eu quero que tu sejas sincero" "mas quando eu sou, tu choras" "porque tu não percebes... hic hic hic (choro convulsivo)!" e é assim que um homem aprende a ler pensamentos, para sobreviver.

eu gosto de chegar a casa e não poder ver a bola porque ela está a ver uma série de médicos, porque sinto que estou a acumular créditos para quando houver um clássico e eu quiser convidar amigos e cerveja. gosto quando fico na cozinha depois do jantar a arrumar a loiça da e na máquina enquanto ela vai para a sala e enfia-se toda na internet, porque a seguir posso ir ler sem preocupações de ser boa companhia. também porque isso implica que as vezes que mexi numa máquina da roupa se contem pelos dedos de um pé. gosto de resolver as merdas de bricolage com que ela me persegue porque quando estão resolvidas ela faz-me sentir que vive com o MacGyver, se eu vivesse sozinho não tinha esta compensação orgulhosa por reparar fios do candeeiro ou apertar os puxadores das portas. mas com muita pena minha, Júlia, viverei para sempre com a esperança de um dia ter a minha própria casa. não implica divórcio, não implica nada. só quero o meu T1 na Baixa, e podes vir lá jantar e passar a noite de vez em quando.

mestre dobras

saí hoje de casa com a perfeita noção de que não era um dia bom para ir mostrar-me para uma universidade. sentia-me com o estilo do Eládio Clímaco num dia de folga, se ele vivesse numa barraca. voltar à minha universidade traz sentimentos contraditórios. quando lá andei as raparigas tinham o estilo que se esperava de uma universitária, pullover pelos ombros, mangas dobradas, sapatões de vela com sola todo-o-terreno, poupas com gel. não, minto, isto era no secundário, na universidade usavam botas das obras e os cabelos eram ondulados por electricidade estática, e na universidade já havia uma ou outra rapariga que fazia professores e alunos comportarem-se como macacos, sim, havia uma ou outra que, dada a raridade, eram deusas (dos anos 90, convenhamos) simplesmente nunca eram da minha turma, eram da turma de um gajo qualquer das tunas. hoje as universitárias são modelos e actrizes e os universitários também. têm corpos de modelos fotográficos, trejeitos de estrelas de rock, têm a superficialidade social de colunáveis desempregados, mas têm memes próprios e uma estética geracional, que me deixam a leste dos conteúdos e das razões das suas gargalhadas e soberba. entrar numa universidade e ser completamente ignorado por hordas de gajas giras vestidas de forma comovente é uma experiência hostil para alguém que sente que no fundo não devia estar ali. ou aqui ou além. foi como a experiência de voltar ao meu infantário passados dois anos de ter saído de lá, por insistência da minha mãe, que as educadoras me queriam ver, tinham saudades e o caralho (andei lá até aos 9). quando lá cheguei ninguém sabia quem eu era, só havia educadoras que não foram minhas educadoras, os putos mais novos que nunca foram meus amigos, cresceram e não se lembravam de mim, alguns já tinham buço. na secretaria ignoraram a emoção de uma mãe pela boca de um puto de 11 anos, disseram que se quisesse podia passear pelo infantário, mas depois tinha que me ir embora. na universidade não me dizem para ir embora porque simplesmente não dão conta que estou ali, excepto a senhora da biblioteca "tá na hora de arrumar, vamos fechar daqui a 10 minutos" já sei caralho! ontem foi a mesma merda, não demoro 10 minutos a meter o computador na pasta, que idade é que julga que eu tenho? a minha tendência involuntária para perseguir ambientes do meu passado deixa-me desagarrado, anacrónico e sem grupo social. basicamente as mulheres são o meu barómetro de inserção, se me ignoram não pertenço, e tenho sido muito ignorado nos ambientes em que me movo, excepto por cinquentonas fogosas. anda foda-se, arruma as tuas merdas e baza daqui, diz-me uma bibliotecária ao ouvido.

quatro a zero

estávamos na sala, eu no chão, a Sofia estirada no sofá, com um copo de Periquita, de saia e pernas abertas. o Pedro chegou da cozinha com as garrafas de vinho do porto e whisky, o que fez a Sofia dar pinotes de uma alegria contagiante como só dá na companhia de terceiros e acerca de álcool, mas manteve-se no sofá.

- estou a ver-te as cuecas - disse-lhe o Pedro, de ângulo privilegiado.
- não tenho cuecas!

o Pedro riu-se muito, entusiasmado com intimidade libertina que a minha namorada lhe dirigia. eu também senti um kinky chill, cheguei a pensar que ela não tinha de facto cuecas e que o Pedro lhe estava a ver a periquita, algo que já me era rotineiramente invisível e se tornou naquele momento idolatrável pela quebra de exclusividade.

a Juliana que recolhia os pratos na sala de jantar também se riu, muito alto, correu para a sala e disse que também queria ver, mostra, mostra, a Sofia mostrou qualquer coisa que eu não vi e largaram-se as duas a rir, com a Juliana a apalpar-lhe as pernas e a Sofia a soltar guinchos e risos de abuso permitido. wow! olhei para o Pedro. um momento pleno de potencial, sondámo-nos mutuamente por alguma ideia para não deixar morrer a situação.

- vá, vão lá as duas para o quarto, eu e o Pedro ficamos aqui a beber copos.
- não, eu quero é ir aqui com o nosso "casal amigo" e tu ficas aqui a beber copos sozinho.
- ahahah
- ahahahaha
- ehehehehe
- ahahaha
- tudo bem, também já estou velho para vos acompanhar, só ia fazer má figura.

o Pedro sentou-se perto das duas e a Sofia fingiu (fingiu?) uma tontura de paixão, deixou-se cair para cima dele, ele agarrou-a completamente atrapalhado pelo toque incontornável nas mamas enormes da minha namorada. a Juliana levantou-se.
- não Zé, o Pedro está mais interessado na tua namorada e vice-versa, parece que eu vou ter que ficar aqui contigo e vão eles os dois lá para dentro. veremos quem se diverte mais, confio em ti!

inacreditável, eu e o Pedro completamente ultrapassados pela libido licorosa das miúdas, parecíamos dois putos virgens, cada frase e gesto de qualquer uma delas só encontrava em nós risos imbecis de testosterona tímida. a Juliana, já o tinha comentado em excesso com a Sofia, lembra-me a razão porque tenho saudades de ser solteiro, é por gostar de me deixar conduzir pela tesão, sem coração. fantasiei muitas vezes com olhos verdes a ver-me de cima, com o cabelo escorrido todo despenteado e a pele morena a envergonhar o meu bronze. a Sofia, já o tinha ouvido do Pedro, é conservadoramente provocadora. e isso é possível Pedro? sim.

mas agora passava-se qualquer coisa fora do nosso guião. essa tarde tinha sido esclarecedora quanto ao padrão de intimidade estabelecido. nenhum de nós o definiria sozinho, mas os subconscientes destaparam-se uns aos outros na medida da sua concordância e exponenciaram-se além do tabu, a esta hora já desbravávamos terreno desconhecido, como animais estúpidos que em vez de fugir, correm maravilhados para um fogo incontrolável.

essa tarde.

atravessávamos uma serra do Algarve, um calor fervente dentro do carro de janelas abertas, a sinuosidade e demora do percurso foi-nos deixando uma noção de isolamento muito vincada, estaríamos mesmo a descobrir uma zona inexplorada do país se viéssemos a alcatroar a estrada. o primeiro frisson foi a natureza a chamar, por todos. virei por uma estrada de terra e encostei pouco depois perto de uns chaparros.

- vi numa reportagem que esta zona tem algumas comunidades de freaks alemães, completamente isolados e hostis para os visitantes, uns mini sudetas.
- ai não digas isso! não me apetece nada ter que fugir com as cuecas nos tornozelos!
- hhmm.. não é uma má contrapartida se tivermos que apanhar uns tabefes de uns freaks, ver-te de rabo ao léu.
- vejo o rabo dela todos os dias - disse-me o Pedro - apanha tu os tabefes sozinho.

fizemos todos xixi na savana, a cerca de 5 metros uns dos outros, mantendo contacto visual e conversando sobre a actualidade política, a vida dos famosos, o estado da arte, da arte. a Sofia perguntou, enquanto apertava os calções, se não queríamos comer, e embora não tivesse fome conheço-a suficientemente bem para não arriscar enfiar-me num carro com ela tendo-lhe recusado alimento.

- não há aqui um sítio mais decente para nos sentarmos, sem ser aqui ao pé do urinólium?
- acho que ali em baixo há um rio, estou a ouvir água.

tive uma ideia, mas ninguém tinha o fato de banho vestido por baixo da roupa, estavam nas malas, que estavam na bagageira, que estava atulhada de merdas inúteis que não iríamos certamente usar em 4 dias. trouxe só a comida e fomos descendo até à margem de um riacho escondido do mundo mas exposto ao sol. idílico. depois das sandochas e dois litros de água já me apetecia mijar outra vez.

- vou à água.
- mas tu tens fato de banho?
- vou de cuecas, vens Pedro?
- e nós não podemos ir? - a Sofia, sempre chica esperta, sempre de pito aos saltos em frente aos outros, à espera de uma desculpa para mostrar o seu sutiã tensionado e ver a minha reacção.
- podem - eu, sempre a querer exibi-la. acho que a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente.

aquilo que era uma provocação da Sofia foi aproveitado pela Juliana que tirou a t-shirt larga de forma automática, ainda estávamos todos vestidos e ela com as suas perky tits de fora. que tits! o Pedro fez aquela sua expressão de "a minha namorada está despir-se em frente aos meus amigos", eu e a Sofia demos uma gargalhada e o Pedro, conformando-se, contra-atacou com um strip integral e correu para o rio exibindo o rabo peludo, obrigando-me a mim e à minha namorada a completar o ramalhete de strips. elas ficaram de cuecas, que a água tratou de ridicularizar. entrar foi fácil e divertido, sair da água mantendo o decoro foi mais complicado para mim e para o Pedro.

essa noite.

num momento definidor, a Sofia agarrou o Pedro pela cintura e levou-o para um dos quartos, foram em risos eufóricos e desapareceram no corredor a olhar para nós "estamos mesmo a fazer isto!". eu fiquei numa situação constrangedora com a Juliana, que longe da Sofia perdeu o élan da depravação de forma automática. tentei ler-lhe o pensamento e só me ocorreu que a sua moral estivesse a criticá-la, o pânico de estar ali comigo e não ter a certeza do que eu esperava dela. riu-se para mim, o que foi um alívio.

- então Zé? e nós? vamos espreitá-los ou vamos encorná-los de volta?
- bom, se calhar devíamos espreitá-los para termos a certeza de que não vamos encorná-los só de ida.
- ahah, vamos pelo menos ver para que quarto foram.

deu-me a mão, acho que nunca tinha dado a mão à Juliana, foi suficientemente íntimo para sentir uma erecção a despontar no sentido descendente dos calções. aproximámo-nos do quarto da direita, estavam ali, ouvimos beijos sonoros, roupa remexida, um fecho éclair (wtf?), risos curtos e lambidos. tive um calafrio, a minha namorada estava aos beijos com o meu amigo, ele estava seguramente a brincar com as copas E, e ela com a pila dele (não sei a copa da pila do Pedro). a Juliana olhou para mim escandalizada e beijou-me a cara, "também quero" segredou-me ao ouvido.

passado 1 minuto estávamos a deitar-nos semi-nus, semi-trapalhões, colados pela boca, ela cheirava a álcool e a canela. "que corpo, meu deus". deus a existir seria o máximo responsável pelo seguinte martírio previsível. ela não me tocava em nenhum ponto digno de registo, eu ia tentando marcar um ritmo de apalpanço que claramente não estava ser seguido por ela. a minha pila foi percebendo isto e deixou de estar prestes a rasgar-me as cuecas para ficar em modo de alheira de caça. avancei para a minha área de expertise. como diz a Nigella, com convidados façam sempre receitas que têm a certeza que saem bem e fazem sucesso. a minha cara próxima das cuecas dela enquanto estas desciam foi o ponto alto da noite, o meu último momento de êxtase, todos os meus sentidos apurados, os passarinhos a cantar. o ponto baixo foi ela dar uma cabeçada na cabeceira de ferro forjado, e morreu tudo, clima, tesão, esperança. tive que me rir.

- estás bem?
- não... aii! que estupidez. desculpa. acho que é melhor... bem...
- não faz mal, também não estava a perceber bem se queremos mesmo fazer isto.
- pois, nem eu.

eu queria, caralho! ficámos calados um bocado, nus, debaixo dos lençóis, fiquei inadvertidamente a reconfortar a minha pila de forma explícita, só mais tarde me apercebi disto. o som da cama do quarto deles estava a ficar mais claro e ritmado, o que agravou o ambiente. perguntei-lhe:

- está a fazer-te impressão?
- não, nenhuma. nem sei explicar porquê. a ti está?
- não sei. só me está a fazer impressão que não estejamos a fazer o mesmo.
- eu acho que não tenho ciúmes da Sofia, é minha amiga, adoro-a, acho que o sentimento de partilha com a Sofia é dos elementos mais excitantes desta situação, para mim. foi isso que gostei na ideia de estar contigo, tem mais a ver com ela.
- olha que fixe..
- mas isto não é mau Zé. gosto de ti também, gosto de vocês os dois, mas tenho uma relação profunda com a Sofia. tu és homem, olho para ti de outra maneira, mais física até.
- e onde é que o Pedro entra nisso?
- não é suposto entrar. ele dá-me raiva ultimamente, acho que queria partilhar isto com vocês os dois e cagar nele. estava a precisar disso. na prática ele é o único que não me excita nesta situação. excita-me só por conveniência, porque é necessário para eu sentir a posição da Sofia.
- hhmm.. não sei o que diga. não sabia que estavas chateada com ele (ou que eras lésbica?).
- não estou chateada. ando com raiva dele.
- e achas que foi boa ideia termos entrado nisto com essa raiva toda?
- não. sei lá! - suspirou profundamente, afundou-se nos lençóis apesar do calor.
- ok.

calei-me, não entendi um cu da conversa, nem quis forçar aquele momento. comecei a distrair-me com o som da Sofia a ter um orgasmo, ao fundo, a elevar-se. lembrei-me dos mamilos intumescidos das mulheres durante os orgasmos. "a Juliana tem uns mamilos maiores do que era suposto. mas são giros. é pena isto ir morrer assim. e amanhã?".

- tenho mais ciúmes daquela gorda do escritório do Pedro que lhe escreve os bilhetes.
- o quê? mas já a viste? essa miúda é uma rolha de poço. porque é que tens ciúmes dela?
- porque ela está com o Pedro o dia todo, gosta dele e ele fala-lhe demasiado bem. ela deve ser feliz na sua relaçãozinha com ele.
- mas ele não gosta dela. não podes comparar-te a ela, é ridículo. tu és... epá, és a Juliana!
- nem tentes, deves saber melhor que eu o que eu quero dizer.
- ?? eu? ahah. ouve Juliana, o Pedro adora-te. só sei isso.
- então porque é que está ali a foder a tua namorada? ahah! que horror. estou a brincar ok? bem, não estou não. ahah.

mais grave que isso, a minha namorada estava a fodê-lo a ele. dei por mim novamente a concentrar-me no som vindo do quarto e a dissecar o momento, o que se passou na cabeça da Sofia para conseguir libertar-se da monogamia que sempre advogou contra as minhas conversas libertinas? entregou-se a outro, furou a fronteira das nossas fantasias, sentiria o mesmo que quando se entregava a mim? nesse caso que espaço havia agora para mim? porque é que preciso de perder uma pessoa para lhe dar valor? entendi então que foi o desejo de desejar mais a Sofia que me levou a entrar nisto sem ciúmes. a precisar de vê-la pelos olhos de outro. a Juliana, fofa, leve e fresca, parecia-me agora uma manobra de diversão do meu subconsciente e um desastre. a minha namorada fazia todo o sentido em mim, não outra.

a minha bedmate não falava há algum tempo, adormeci ao som do segundo orgasmo da Sofia, deve ter sido quando me conformei, a meio da noite acordei ou sonhei com um terceiro.

a Sofia

acordei de manhã mais cedo que o habitual. o rabo perfeito da Juliana dormia desinteressante ao meu lado (dispenso descrever a luta vergonhosa entre a minha erecção matinal e o meu cérebro adulto). passei pelo quarto deles e não ouvi nada, silêncio sepulcral. fui tomar banho, demorei-me um bocado, tentei lavar o medo e a ansiedade mas não saiu tudo. quando saí vinham vozes da cozinha.

- bom dia! - a Sofia fitava-me radiante "tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei e que doidos que somos uau!". que merda. fiz um sorriso amarelo, mas derrotado, ela entendeu. tinham os dois ido à mercearia da aldeia e fizeram um pequeno-almoço de hotel. a que horas é que se levantaram, foda-se? havia leite, café, sumo de laranja, pão, croissants, compota, popota, queijo, papaia, kiwis, que raiva! estavam eufóricos. o Pedro olhava-me ainda a pensar que eu tinha comido a Juliana, deu-me um abraço grande, dei-lhe só umas palmadinhas nas costas, tímido.
- então? estamos todos envergonhados, comme il faut?
- a Juliana? acho que o meu namorado deu cabo da tua. ahah!
- ainda está deitada? vou lá ver em que estado a deixaste, porco.
- deixei-a num estado lastimável.

sentei-me. a Sofia estava brilhante, veraneante, bronzeada. não reparei, quando o verão chegou, como ela se andava a vestir bem. estava óptima, sorridente, distraída. quando me viu a observá-la sorriu para mim. houve um compasso de espera em que tudo foi entendido. era isso também que eu estava a arriscar, a cumplicidade insubstituível da Sofia. eles entraram na cozinha, a Juliana passou-me a mão pelo cabelo e beijou-me a cara. depois riu-se envergonhada para a Sofia.

- bom dia! bem! que pequeno almoço orgásmico que os meninos nos fizeram. deve ser sentimento de culpa!
e agarrou-se ao Pedro, este começou a programar o dia, descer o rio de caiaque, a Juliana disse que preferia qualquer coisa mais seca, menos mexida.
a Sofia abraçou-me por trás empoleirando-se nos meus ombros e segredou-me "adoro-te, ainda bem que não vos correu bem, hihi".