chega a época de pôr em perspectiva algumas matérias que me desanimam no resto do ano, e regra geral, o desânimo mantém-se. mas a pressão de uma sociedade alienada com as festividades obriga-me a dizer que são matérias sem importância vital, pior era se estivesse morto. sim, isso é inegável, além de idiota.
este ano vi-me imbuído do espírito do Natal Passado. chegou hoje quando acordei, com a memória dada como morta de um episódio da minha 3ª classe, quando a professora se dirige a nós em tom natalício e sugere que tenhamos uma hora do recreio mais alargada, até que os pais nos viessem buscar. para tal teríamos apenas, cada um de nós, que inventar um problema matemático para um colega rifado resolver. à medida que fôssemos resolvendo poderíamos ir saindo. esta foi a primeira professora com quem fantasiei sexualmente. não por este episódio. bom, achei que merecia menção.
na 3ª classe a dificuldade de um problema matemático é risível, pelo menos da perspectiva de alguém com um cérebro completo, a mim calhou-me uma redução de metros para centímetros ou de maçãs para laranjas, não consigo precisar, mas a besta calculista e mesquinha que há em mim redigiu para um colega aleatório uma multiplicação de 3 coeficientes na casa dos milhões. era fácil, mas trabalhoso para um miúdo de 7 anos acabado de aprender a multiplicar. calhou ao Pedro.
eu lembro-me de entregar o meu exercício das laranjas, passar pela carteira dele, vê-lo ainda na primeira linha e ter sentido a felicidade que só uma criança consegue sentir por uma filha-da-putice bem calculada. ao sair da sala já estava com alguma pena dele. no recreio nem eu nem ninguém se lembrava que o Pedro existia.
foi certamente o recreio mais longo do meu ensino primário, foi muito divertido, havia um lanchinho para todos, fizemos montes de coisas que os miúdos da 3ª classe fazem nos recreios, e rimos muito, mas o Pedro não. o Pedro ficou 3/4 do recreio de Natal a tentar resolver o meu problema. quando saiu da sala, já metade das crianças tinha ido embora com os pais. saiu triste e foi sentar-se sozinho junto a um muro grande e feio. na verdade nem me lembro dele ter saído da sala. na verdade inventei o nome Pedro, porque nem me lembro do nome do rapaz, mas achei que era desumano evocá-lo nesta história deprimente sem sequer o conseguir identificar. Pedro, ou lá como é que tu te chamas: se és meu amigo no facebook, desculpa-me. do fundo do meu coração. desejo-te um bom Natal junto das pessoas e/ou dos animais de quem mais gostas.
consanguinidade
ao fim de anos de convivência com uma pessoa deixamos de prestar atenção a detalhes, com uma vida demasiado preenchida pela necessidade de fazer dinheiro, pelos sonhos esparsos, pelos filhos, pela crise, pela tentativa de não deixar tudo desagregar-se, facilmente a Filipa estaria a enganar-me sem que eu percebesse. na primavera desta relação... no verão, vá lá.. aí não, aí eu estava atento, ela também, não havia minuto fora de casa que não soasse a adultério, tudo bem explicado quando chegasse, cada olhar, cada "boa noite", cada curva até casa. resquícios de relações mal passadas transportadas disfarçadamente para essa nova esperança, o cadáver esquisito que saltou do armário à primeira conversa fora de tom. mas enfim, foi definhando, confio na Filipa como se não houvesse forma de me sentir traído. confio. não vejo motivos nela para me trair. por exemplo, por vezes penso que morreu sexualmente, já não acha piada a actores rebuçado, não fala de sexo nunca, se faço uma piada que envolva pila sorri distraída, fode em piloto automático ao domingo à noite. mas alguém poderia argumentar que o problema sou eu, que não lhe interesso, que não me esforço por lhe despertar interesse, que alguém mais homem que eu, talvez até assexuado mas adulto, sensato e influente ou filósofo revolucionário e com barba, a arrebataria e a faria deixar-nos a todos cá em casa sem roupa lavada, nem mãe, nem amiga, nem sexo, nem nada. não se trata disso. posso garantir que ela deixou de ver a humanidade dividida em géneros, no sentido mais desinteressante do conceito, e eu faço parte do seu clã, uma inevitabilidade. ela parece-me feliz. pergunto-lhe:
-Filipa.
-
-Filipa.
-hã?
-és feliz?
-
-Filipa..
-o quê?
-és feliz comigo?
-claro que sim.
parece-me feliz. também deixou de prestar atenção a detalhes, é natural, como eu deixei. posso traí-la sem que ela o sonhe. posso traí-la com a Sónia, que isso lhe é invisível. não tenho com a Sónia uma relação profunda, por isso é satisfeita em cada troca clandestina de beijos na cozinha em jantares de amigos, cada mão nas coxas descobertas por baixo da mesa, é obviamente isso que alimenta essa relação, a clandestinidade. e é essa relação que alimenta a minha relação com a Filipa e a relação da Sónia com o Pedro. serve perfeitamente esse propósito e sabemos bem como conduzir e manter a tesão no seu auge e as hormonas a salivar pelo fim de semana. não há discussão do tema, não há troca de mensagens insonoras, nem telefonemas a meio de uma tarde de trabalho. não nos falamos ao longo da semana. só falo com o Pedro à sexta feira e pergunto:
-jantar cá em casa?
-pode ser, deixa-me falar com a Sónia. mas em princípio sim, ela quer sempre.
-ok, também ainda não falei com a Filipa, mas ela também quer sempre.
-Filipa.
-
-Filipa.
-hã?
-és feliz?
-
-Filipa..
-o quê?
-és feliz comigo?
-claro que sim.
parece-me feliz. também deixou de prestar atenção a detalhes, é natural, como eu deixei. posso traí-la sem que ela o sonhe. posso traí-la com a Sónia, que isso lhe é invisível. não tenho com a Sónia uma relação profunda, por isso é satisfeita em cada troca clandestina de beijos na cozinha em jantares de amigos, cada mão nas coxas descobertas por baixo da mesa, é obviamente isso que alimenta essa relação, a clandestinidade. e é essa relação que alimenta a minha relação com a Filipa e a relação da Sónia com o Pedro. serve perfeitamente esse propósito e sabemos bem como conduzir e manter a tesão no seu auge e as hormonas a salivar pelo fim de semana. não há discussão do tema, não há troca de mensagens insonoras, nem telefonemas a meio de uma tarde de trabalho. não nos falamos ao longo da semana. só falo com o Pedro à sexta feira e pergunto:
-jantar cá em casa?
-pode ser, deixa-me falar com a Sónia. mas em princípio sim, ela quer sempre.
-ok, também ainda não falei com a Filipa, mas ela também quer sempre.
um olho na merda, outro no infinito
- a sofia? está boa?
- está. acho que sim.
- achas?
- sim. acho que está.
- ok.. e o francisco? já fala?
- diz mamãmã, quando fica rabujento.
- boa. e papápá? não diz?
- não.
- tens que o ensinar.
- achas? não me tinha passado pela cabeça tal coisa.
- tudo bem, mas tens-te esforçado por isso?
- sim, acho que sim.
- não pareces muito certo de nada.
- não. ando farto, não me apetece ter certezas.
- então está bem.
- e tu? que é feito?
- nada de especial. quer dizer, no outro dia enrolei-me com uma gaja no aniversário da sara, já te tinha dito?
- a loira de calções-cueca?
- sim. a joaninha, é a prima do caruso.
- já.
- pois, tirando isso não tenho feito mais nada.
- e o trabalho, está a correr bem?
- sei lá, não tenho paciência para aquela merda. olhe, fáxavor?
- pois, eu até tenho paciência para o meu trabalho, ganhei-a nos últimos meses, desde que o francisco foi para a creche. agora cada vez que chega o fim da tarde e tenho que o ir buscar sinto que o dia me escapou por entre os dedos e só espero a hora de o ir deitar para trabalhar mais um bocado em casa.
- sim, diga sefáxavor...?
- sim, traga mais duas imperiais. queres mais uma imperial?
- não, obrigado. não consigo acabar esta, acho que deixei de gostar de álcool.
- é só um fino então? sim senhor...
- deixaste de gostar de álcool?
- acho que sim.
- mas então o que é que se passa, estás farto do puto?
- não, o puto é espectacular, mas falta-me a minha vida. tenho saudades de fazer coisas de improviso, de não ter que vir para casa ao fim do dia. tenho saudades de me enrolar com a prima da sara.
- quem é a prima da sara?
- aquela com quem te enrolaste.
- não, essa é a prima do caruso! já a comeste?
- não meu, é em sentido figurado.
- ah...? ok.
- tenho saudades de fazer o que me apetece. de ser solteiro ou poder tornar-me solteiro de um dia para o outro.
- não estás fixe com a sofia?
- acho que sim, mas a sofia só vê o puto à frente, não fala do trabalho dela. chega a casa e começa a aquecer a comida do francisco, dá-lhe, depois brinca com ele um bocado na sala. parece divertida. depois dá-lhe banho e depois eu vou deitá-lo. quando saio já ela está no sofá a ler um livro ou um blog sobre bebés, passado um bocado adormece. depois acorda estremunhada e vai para o quarto sem dizer boa noite. e eu fico sozinho na sala.
- não falam?
- entre duas destas coisas tento falar com ela. responde telegraficamente. nem me deixa ajudá-la com o francisco.
- olha, um gajo nunca está contente com o que tem. eu tenho saudades de ter namorada e adorava já ter um puto. o teu puto é muita fixe!
- foda-se, acho que o meu telemóvel tem gravador de voz. como é que se liga? espera, deixa-me enviar um SMS para mim próprio "t-e-n-h-o-s-a-u-d-a-d-e-s-d-e-t-e-r-n-a-m-o-r-a-...."
- oh, sempre te disse que gostava de assentar, 35 anos, já começa a ser urgente, vou ter que arranjar uma miúda de 25-30 para me dar 5 ou 6 filhos, que a partir dos 40 já é arriscado para elas.
- o seu fino...
- tazia-me também uns tremoços? queres tremoços?
- não, estou farto tremoços. olha, deixa-me lembrar-te uma coisa. tu já assentaste umas 10 vezes. como estás viciado nessa vidinha de puta, encontras sempre problemas nas tuas namoradas de 5 meses.
- se tu já tivesses estado com 864 mulheres, a tua mulher ideal também era um frankenstein de virtudes de todas elas. os defeitos de qualquer nova gaja seriam exponenciais para ti, porque já os conhecias a fundo. mas pior, por vezes, procurarias na tua mulher ideal várias virtudes incompatíveis entre si para o mesmo traço de personalidade, o que é um suicídio antes de nascer. julgas que eu nunca pensei nisso? ando aqui a dormir sobre a minha vida? simplesmente tenho que encontrar alguém que me faça esquecer de forma inexplicável todos essas virtudes e todos esses defeitos das mulheres passadas. alguém que faça click, mas sobretudo bum! alguém por quem me vou apaixonar estupidamente, como o Toy no seu sucesso de verão. acredito verdadeiramente que essa mulher existe. até lá estou a fazer prospecção, a passar o tempo e a afagar o ego, porque também eu preciso de carinho, meu paneleiro.
- ok, é por isso que enfias lá em casa de malas e bagagem qualquer mulher que ultrapasse as duas semanas de quecas? esquecendo o pormenor hilariante de julgares que estar apaixonado é garante de uma relação decente, se não estás sequer apaixonado porque é que queres forçar essas relações de infantário? já agora casa-te e engravida-as num mês. se a intenção é poder partilhar as histórias dos teus amigos comprometidos, fá-lo em grande.
- comigo, falo, é sempre em grande.
- hã?
- olha lá, eu quando decidi viver com a rita estava completamente apaixonado. quando vivi com a madalena estava perdidamente apaixonado. quando vivi com a carlota joaquina estava estupidamente apaixonado. não ia tomar essas decisões sem ter certezas.
- epá, então não sei que te diga. tens umas certezas de merda. mas eu sei o que se passa. tu já não sabes o que é estar apaixonado ou então até sabes, mas já estás vacinado, já não consegues. até duvido que consigas ter tesão com todas as miúdas que metes no saco.
- e se não conseguir ter? quem tem boca vai a Roma. ahah. e eu não estou vacinado. eu gosto de ser solteiro, mas adoro sentir aquela ansiedade, quando sabes que ela está interessada, mas se mostra a cagar para ti, e até te liga e manda SMS a saber de ti, para ver se tu te sabes comportar e cortejar uma menina (e eu sei!) e depois encontras-te várias vezes, mas não devias porque és solteiro e gostas de ser e estás a arriscar a liberdade, mas gostas de ir ter com ela e voltar a vê-la nua, epá, sei lá. adoro essa fase da paixão, sempre igual, sempre diferente.
- foda-se, isso não é a fase da paixão, isso é a fase do engate. sugiro o trumps.
- não pá, a fase do engate é quando ainda não te enrolaste.
- ouve, és um puto.
- ah sou? tu tens um filho e não sabes se o queres e eu sou um puto? pelo menos sei usar preservativo.
- ai o caralho! estás parvo??
- os tremocinhos...
- obrigadinho. de certeza que não queres mais nada, puto?
- foda-se! traga-me então também mais uma imperial fáxavor.
- então?! e eu ando aqui para trás e para a frente? vão querer o quê a seguir, carago?
- está. acho que sim.
- achas?
- sim. acho que está.
- ok.. e o francisco? já fala?
- diz mamãmã, quando fica rabujento.
- boa. e papápá? não diz?
- não.
- tens que o ensinar.
- achas? não me tinha passado pela cabeça tal coisa.
- tudo bem, mas tens-te esforçado por isso?
- sim, acho que sim.
- não pareces muito certo de nada.
- não. ando farto, não me apetece ter certezas.
- então está bem.
- e tu? que é feito?
- nada de especial. quer dizer, no outro dia enrolei-me com uma gaja no aniversário da sara, já te tinha dito?
- a loira de calções-cueca?
- sim. a joaninha, é a prima do caruso.
- já.
- pois, tirando isso não tenho feito mais nada.
- e o trabalho, está a correr bem?
- sei lá, não tenho paciência para aquela merda. olhe, fáxavor?
- pois, eu até tenho paciência para o meu trabalho, ganhei-a nos últimos meses, desde que o francisco foi para a creche. agora cada vez que chega o fim da tarde e tenho que o ir buscar sinto que o dia me escapou por entre os dedos e só espero a hora de o ir deitar para trabalhar mais um bocado em casa.
- sim, diga sefáxavor...?
- sim, traga mais duas imperiais. queres mais uma imperial?
- não, obrigado. não consigo acabar esta, acho que deixei de gostar de álcool.
- é só um fino então? sim senhor...
- deixaste de gostar de álcool?
- acho que sim.
- mas então o que é que se passa, estás farto do puto?
- não, o puto é espectacular, mas falta-me a minha vida. tenho saudades de fazer coisas de improviso, de não ter que vir para casa ao fim do dia. tenho saudades de me enrolar com a prima da sara.
- quem é a prima da sara?
- aquela com quem te enrolaste.
- não, essa é a prima do caruso! já a comeste?
- não meu, é em sentido figurado.
- ah...? ok.
- tenho saudades de fazer o que me apetece. de ser solteiro ou poder tornar-me solteiro de um dia para o outro.
- não estás fixe com a sofia?
- acho que sim, mas a sofia só vê o puto à frente, não fala do trabalho dela. chega a casa e começa a aquecer a comida do francisco, dá-lhe, depois brinca com ele um bocado na sala. parece divertida. depois dá-lhe banho e depois eu vou deitá-lo. quando saio já ela está no sofá a ler um livro ou um blog sobre bebés, passado um bocado adormece. depois acorda estremunhada e vai para o quarto sem dizer boa noite. e eu fico sozinho na sala.
- não falam?
- entre duas destas coisas tento falar com ela. responde telegraficamente. nem me deixa ajudá-la com o francisco.
- olha, um gajo nunca está contente com o que tem. eu tenho saudades de ter namorada e adorava já ter um puto. o teu puto é muita fixe!
- foda-se, acho que o meu telemóvel tem gravador de voz. como é que se liga? espera, deixa-me enviar um SMS para mim próprio "t-e-n-h-o-s-a-u-d-a-d-e-s-d-e-t-e-r-n-a-m-o-r-a-...."
- oh, sempre te disse que gostava de assentar, 35 anos, já começa a ser urgente, vou ter que arranjar uma miúda de 25-30 para me dar 5 ou 6 filhos, que a partir dos 40 já é arriscado para elas.
- o seu fino...
- tazia-me também uns tremoços? queres tremoços?
- não, estou farto tremoços. olha, deixa-me lembrar-te uma coisa. tu já assentaste umas 10 vezes. como estás viciado nessa vidinha de puta, encontras sempre problemas nas tuas namoradas de 5 meses.
- se tu já tivesses estado com 864 mulheres, a tua mulher ideal também era um frankenstein de virtudes de todas elas. os defeitos de qualquer nova gaja seriam exponenciais para ti, porque já os conhecias a fundo. mas pior, por vezes, procurarias na tua mulher ideal várias virtudes incompatíveis entre si para o mesmo traço de personalidade, o que é um suicídio antes de nascer. julgas que eu nunca pensei nisso? ando aqui a dormir sobre a minha vida? simplesmente tenho que encontrar alguém que me faça esquecer de forma inexplicável todos essas virtudes e todos esses defeitos das mulheres passadas. alguém que faça click, mas sobretudo bum! alguém por quem me vou apaixonar estupidamente, como o Toy no seu sucesso de verão. acredito verdadeiramente que essa mulher existe. até lá estou a fazer prospecção, a passar o tempo e a afagar o ego, porque também eu preciso de carinho, meu paneleiro.
- ok, é por isso que enfias lá em casa de malas e bagagem qualquer mulher que ultrapasse as duas semanas de quecas? esquecendo o pormenor hilariante de julgares que estar apaixonado é garante de uma relação decente, se não estás sequer apaixonado porque é que queres forçar essas relações de infantário? já agora casa-te e engravida-as num mês. se a intenção é poder partilhar as histórias dos teus amigos comprometidos, fá-lo em grande.
- comigo, falo, é sempre em grande.
- hã?
- olha lá, eu quando decidi viver com a rita estava completamente apaixonado. quando vivi com a madalena estava perdidamente apaixonado. quando vivi com a carlota joaquina estava estupidamente apaixonado. não ia tomar essas decisões sem ter certezas.
- epá, então não sei que te diga. tens umas certezas de merda. mas eu sei o que se passa. tu já não sabes o que é estar apaixonado ou então até sabes, mas já estás vacinado, já não consegues. até duvido que consigas ter tesão com todas as miúdas que metes no saco.
- e se não conseguir ter? quem tem boca vai a Roma. ahah. e eu não estou vacinado. eu gosto de ser solteiro, mas adoro sentir aquela ansiedade, quando sabes que ela está interessada, mas se mostra a cagar para ti, e até te liga e manda SMS a saber de ti, para ver se tu te sabes comportar e cortejar uma menina (e eu sei!) e depois encontras-te várias vezes, mas não devias porque és solteiro e gostas de ser e estás a arriscar a liberdade, mas gostas de ir ter com ela e voltar a vê-la nua, epá, sei lá. adoro essa fase da paixão, sempre igual, sempre diferente.
- foda-se, isso não é a fase da paixão, isso é a fase do engate. sugiro o trumps.
- não pá, a fase do engate é quando ainda não te enrolaste.
- ouve, és um puto.
- ah sou? tu tens um filho e não sabes se o queres e eu sou um puto? pelo menos sei usar preservativo.
- ai o caralho! estás parvo??
- os tremocinhos...
- obrigadinho. de certeza que não queres mais nada, puto?
- foda-se! traga-me então também mais uma imperial fáxavor.
- então?! e eu ando aqui para trás e para a frente? vão querer o quê a seguir, carago?
quero foder contigo
era a música de Enapá que tocava no bar. na casa de banho conseguia ouvir-se toda a sala a cantar em uníssono, bêbados e desafinados. as mulheres cantam sempre mais alto e embebedam-se com pouco. atrás de mim estava um gajo que não se calava a falar da gaja do balcão. em urinóis eu não consigo mijar com alguém atrás de mim, sobretudo se ele não se cala e está cambaleante a mandar-me encontrões. daí a pouco iria notar que eu estava ali há demasiado tempo.
- então amigo? isso vai? está difícil..
- estou a masturbar-me. fala-me mais da gaja do balcão.
- heisch... que nojo, estás a bater uma? fóda-ssssss...
ao falar com bêbados é preciso avaliar bem o tempo disponível para assimilação de uma piada, se não houver tempo de a compreender, ou de lha explicarmos, ele vai ser literal e básico e vai lá para fora contar aos amigos. foi o que aconteceu. mas finalmente consegui mijar. ao sair, estava ele com mais 2 amigas e 3 amigos "Foi este!" a olhar-me com cara de nojo, gozo e desprezo. uma das miúdas sorriu para mim. lavei daí as minhas mãos e atirei-me para a multidão que continuava a alimentar a sua necessidade de Yupiais na maioridade, uma rapariga de buço que momentaneamente ficou presa na corrente humana que me levava gritou-me ao ouvido Se tu não foderes comigo Não foderei contigoooo!.. sorri amarelo e ela tentou beijar-me, desviei a cara mas ainda senti a sua língua áspera de álcool passar-me pelos lábios, como me acontecia com o cão do meu tio quando eu era puto.
consegui chegar à porta mais ou menos ileso. cá fora estava um gajo que me entregou uma imperial.
- então, foste cagar? ahah
tirei um cigarro, acendi-o.
- tu és o...?
- Pedro. sou o Pedro. tu és o Zé, não é?
- não, deves estar a confundir-me.
- ...?
- estou a brincar.
- ahahah. pois, isto está complicado, muito álcool, muito álcool. ahahah.
ele era o Pedro, irmão do Miguel, o liberal e o absolutista. nunca entendi como tantos gays passam despercebidos para a maioria das pessoas, talvez porque não passam um jantar a tentar fodê-los com os olhos do outro lado da mesa, sou eu sempre o feliz contemplado. o Miguel é um gajo do atelier com quem nunca falo, excepto daquela vez que, chegado mais cedo da hora de almoço, o apanhei a masturbar-se na casa de banho, que não tem fechadura, e passado 20 minutos veio ter comigo todo vermelho "olha, isto fica entre nós, ok?" - "não, isso fica só para ti, mesmo". o seu irmão, o Pedro, tem um ar mais sociável e mais prevenido, mas é isto, engraçou comigo do outro lado da mesa e foi o resto da noite a patinar num beco que não tem saída, muito menos entrada.
- beeem, isto está mesmo cheio, parece o Santo António.
- pois é.
- tu vieste para o Santo António este ano com o meu irmão?
- não, vim com uns amigos.
- ah pois, é que ele também veio, podiam ter vindo juntos.
- não me dou com o teu irmão.
- nem eu.
- alguém se dá?
- a namorada dele, essa vaca. ahaha.
- ele tem namorada? muito me surpreende. pensei que não gostasse de seres humanos.
- ela não é um ser humano, é uma vaca! odeia-me. homofóbica de merda.
ri-me condescendentemente, para ele entender que não era preciso usar subterfúgios para me transmitir uma ideia óbvia. dei por mim a exagerar os meus maneirismos de macho latino, quase escarrei para o chão, para traçar um limite no engate. ele riu-se ainda mais. alguma barreira na conversa se quebrou com isso.
aproximou-se daí a pouco a Bli, a geek do atelier, uma miúda possante, que quase parece gorda por causa das mamas, cada uma do tamanho da minha cabeça. é gira, mas sempre me pareceu uma universitária recém-urbana, alguém que junta o ingénuo e o devasso.
- o que é que os meus meninos estão aqui a segredar? seus malandros!
eu não estava a segredar com o Pedro e não queria de todo passar essa ideia numa noite de copos tão sexualmente promissora, daí que a pressa em esclarecê-lo me tenha retirado momentaneamente a capacidade de filtrar o pensamento.
- estávamos a falar das tuas mamas.
- AAH! seu porco, tu é que deves ter puxado a conversa, porque o meu Pedrinho está interessado em bolinhas mais pequenas. ahahah!
- olha-me esta! eu gosto é de bolinhas grandes! ahaha!
ah, ah, ah, estavam os dois muito divertidos e a Bli tinha notoriamente maior capacidade de encaixe do que eu pensei, isso tornou-a interessante e a cada golo das minhas sucessivas imperiais mais me parecia uma deusa da fertilidade, voluptuosa, radiosa, inspiradora. falámos todos bastante tempo acerca da sexualidade de cada um, tema que me interessa muito depois do primeiro trago de álcool. afinal o Pedro até tinha tido várias namoradas antes de entender o que queria realmente e a Bli não era propriamente um rato de biblioteca, mas antes uma rata muito bem sucedida no amor de ocasião, tinham ambos a libido de um presidiário ou dois, por isso a conversa foi conduzida, controlada, talhada por mim. conduzi-a descontroladamente no sentido de acabarmos os três em casa dele, "um t1 em Alfama com um pátio reservadíssimo onde instalei uma banheira de grupo para as noites em que faço mais do que um amigo" (sic), ela morava numa "vivenda em Caneças", a escolha foi simples.
não sei porque me coloco nestas situações, claramente a alma do acontecimento era eu, a fazer a ponte entre os dois, e atirei-me, mesmo sendo óbvio que qualquer um deles queria apenas foder a ponte. no fundo, como sempre, queria ver até onde conseguia levar aquilo, algo novo, com a bênção de algo já visto, mesmo sem ter idealizado uma forma airosa de me pôr a arder caso tudo deixasse de ter piada ou me passasse a bebida. em linguagem futebolística chama-se a isto "correr mais que a bola". a verdade é que o Pedro era um gajo fixe, já me tinha surpreendido com algumas importantes definições de cultura e personalidade que me eram próximas, a ter alguma experiência com outro gajo, já tinha pensado nisto, que fosse alguém assim. tinha também feito uma piada qualquer com "Lamb Crica" quando mencionámos o jantar no restaurante indiano, e assumi imbecilmente que aquilo fosse para me descansar em caso de sexo a três. e descansei.
o álcool já ia alto, fomos todos para casa dele, não sem antes passarmos por uma rua escura para mijar. eu e o Pedro trazíamos bebidas na mão, assim, a Bli segurou nas nossas pilas, uma de cada lado, gozou com o tamanho da minha, ríamos todos às gargalhadas, sacudiu-as embora o Pedro não tivesse bem acabado de mijar, lançando pingos quentes sobre todos nós e talvez nas bebidas e rimo-nos ainda mais. fiz uma piada com o facto de não conseguir mijar com alguém atrás de mim, mas conseguir fazê-lo com alguém a segurar-me na pila.
- podes passar a pedi-lo aos teus companheiros de urinol.
rimos muito. no táxi para Alfama fui eu no meio, comecei a apalpar uma mama da Bli com as duas mãos, ela agarrou-me numa delas e levou-a ao colo do Pedro. não a mexi, congelado, e tentei antes concentrar-me no tamanho daquela maravilha da engenharia da natureza que era uma mama da Bli. grande e rija, como a minha pila ficou quando o Pedro a agarrou. isto porque inicialmente pensei que era a mão da Bli. o taxista parou o carro de repente e disse que na presença de Jesus não admitia deboche, muito menos deboche homem-sexual. claro, para segurar um crucifixo gigante, era necessário um retrovisor do tamanho da minha televisão, embora Jesus não se tivesse manifestado enquanto eu ainda estava sequiosamente a sondar a Bli por leite materno. acalmámos ou disfarçámos melhor, chegámos a casa do Pedro já eu tinha as cuecas da Bli nos dentes.
foi tudo muito rápido até eu estar deitado no sofá, com a Bli e o Pedro a desapertar-me as calças enquanto se beijavam. o Pedro mais uma vez agarrou-me qualquer coisa e eu tentei ganhar tempo, tinha que ir mijar uma última vez. na casa de banho tive uma tontura com o papel de parede, tinha umas cores berrantes em cornocópias, parecia estar a mexer ou a gritar comigo, deu-me uma náusea e ajoelhei-me na sanita a vomitar. o frio da sanita foi o abraço possível naquele momento, e assim fiquei algum tempo, até que adormeci no tapete felpudo azul-cueca que destoava naquela casa de banho decorada como a sala de estar da minha tia.
acordei sem noção do tempo que estive deitado, não me pareceu muito. levantei-me, lavei a boca com um bocado de pasta de dentes bochechada, e voltei a sentir-me acordado, revigorado. ainda estava a segurar nas cuecas azuis da Bli, lembrei-me das mamas dela, que estariam elas a fazer? não entendo o que se passa quando bebo e durmo um bocado, acordo sempre com uma erecção pétrea, difícil de desfazer devido a alguma insensibilidade ebriosa. não obstante, a testosterona substitui-me o sangue e obriga-me a procurar desfazê-la, animalmente, tudo me excita, o Pedro já me excitava, talvez ele como homem de festas que constantemente acabam em sexo soubesse melhor como lidar com este problema banal, talvez me maravilhasse com uma técnica apuradíssima e uma reveladora omnisciência do meu caminho para o orgasmo, a pila dele seria maior que a minha? finalmente imaginava um verdadeiro threesome, em que participaria por inteiro, com a substancial Bli a suplicar ser devorada e usada e suada pelos dois. queria beijá-la à frente dele, queria que ele a beijasse, como a beijava contra-senso há bocado na sala. receei que a espera lhes tivesse refreado o ímpeto e estivessem a dormir, teria que os despertar outra vez, sentia-me capaz disso. a sala estava às escuras, vinha apenas um som maquinal de um corredor, um som bastante claro, segui-o e acabei à porta de um quarto com a porta mal encostada. não entrei, lá dentro vi os dois corpos à luz da lua de Lisboa, num movimento continuo, ela estava por cima, perfeita, ondulante, carnal, em vias de descontrolo, ele estava por baixo, algo atlético, com a cara que eu gostaria de fazer durante o sexo, muito cinematográfica. as mãos firmes na anca dela marcavam a cadência, mas permitiam veleidades. a anca dela obedecia, as mãos no peito dele com uma minúcia espásmica, de vez em quando arranhavam-lhe o corpo e aceleravam-lhe o movimento quando a timidez lhe parecia ignóbil face àquele gozo. fiquei ali a observar, estático, desprezado, excitado além do ponto que a minha pele parecia aguentar. o Pedro viu-me, fitou-me uns segundos e ignorou-me, a Bli veio-se, na perdição e no choro próprios de alguém que acaba de descobrir a vida, eu fui-me, para casa, a pé, sem a certeza de qual deles me estava a dobrar a alma de ciúme e euforia.
- então amigo? isso vai? está difícil..
- estou a masturbar-me. fala-me mais da gaja do balcão.
- heisch... que nojo, estás a bater uma? fóda-ssssss...
ao falar com bêbados é preciso avaliar bem o tempo disponível para assimilação de uma piada, se não houver tempo de a compreender, ou de lha explicarmos, ele vai ser literal e básico e vai lá para fora contar aos amigos. foi o que aconteceu. mas finalmente consegui mijar. ao sair, estava ele com mais 2 amigas e 3 amigos "Foi este!" a olhar-me com cara de nojo, gozo e desprezo. uma das miúdas sorriu para mim. lavei daí as minhas mãos e atirei-me para a multidão que continuava a alimentar a sua necessidade de Yupiais na maioridade, uma rapariga de buço que momentaneamente ficou presa na corrente humana que me levava gritou-me ao ouvido Se tu não foderes comigo Não foderei contigoooo!.. sorri amarelo e ela tentou beijar-me, desviei a cara mas ainda senti a sua língua áspera de álcool passar-me pelos lábios, como me acontecia com o cão do meu tio quando eu era puto.
consegui chegar à porta mais ou menos ileso. cá fora estava um gajo que me entregou uma imperial.
- então, foste cagar? ahah
tirei um cigarro, acendi-o.
- tu és o...?
- Pedro. sou o Pedro. tu és o Zé, não é?
- não, deves estar a confundir-me.
- ...?
- estou a brincar.
- ahahah. pois, isto está complicado, muito álcool, muito álcool. ahahah.
ele era o Pedro, irmão do Miguel, o liberal e o absolutista. nunca entendi como tantos gays passam despercebidos para a maioria das pessoas, talvez porque não passam um jantar a tentar fodê-los com os olhos do outro lado da mesa, sou eu sempre o feliz contemplado. o Miguel é um gajo do atelier com quem nunca falo, excepto daquela vez que, chegado mais cedo da hora de almoço, o apanhei a masturbar-se na casa de banho, que não tem fechadura, e passado 20 minutos veio ter comigo todo vermelho "olha, isto fica entre nós, ok?" - "não, isso fica só para ti, mesmo". o seu irmão, o Pedro, tem um ar mais sociável e mais prevenido, mas é isto, engraçou comigo do outro lado da mesa e foi o resto da noite a patinar num beco que não tem saída, muito menos entrada.
- beeem, isto está mesmo cheio, parece o Santo António.
- pois é.
- tu vieste para o Santo António este ano com o meu irmão?
- não, vim com uns amigos.
- ah pois, é que ele também veio, podiam ter vindo juntos.
- não me dou com o teu irmão.
- nem eu.
- alguém se dá?
- a namorada dele, essa vaca. ahaha.
- ele tem namorada? muito me surpreende. pensei que não gostasse de seres humanos.
- ela não é um ser humano, é uma vaca! odeia-me. homofóbica de merda.
ri-me condescendentemente, para ele entender que não era preciso usar subterfúgios para me transmitir uma ideia óbvia. dei por mim a exagerar os meus maneirismos de macho latino, quase escarrei para o chão, para traçar um limite no engate. ele riu-se ainda mais. alguma barreira na conversa se quebrou com isso.
aproximou-se daí a pouco a Bli, a geek do atelier, uma miúda possante, que quase parece gorda por causa das mamas, cada uma do tamanho da minha cabeça. é gira, mas sempre me pareceu uma universitária recém-urbana, alguém que junta o ingénuo e o devasso.
- o que é que os meus meninos estão aqui a segredar? seus malandros!
eu não estava a segredar com o Pedro e não queria de todo passar essa ideia numa noite de copos tão sexualmente promissora, daí que a pressa em esclarecê-lo me tenha retirado momentaneamente a capacidade de filtrar o pensamento.
- estávamos a falar das tuas mamas.
- AAH! seu porco, tu é que deves ter puxado a conversa, porque o meu Pedrinho está interessado em bolinhas mais pequenas. ahahah!
- olha-me esta! eu gosto é de bolinhas grandes! ahaha!
ah, ah, ah, estavam os dois muito divertidos e a Bli tinha notoriamente maior capacidade de encaixe do que eu pensei, isso tornou-a interessante e a cada golo das minhas sucessivas imperiais mais me parecia uma deusa da fertilidade, voluptuosa, radiosa, inspiradora. falámos todos bastante tempo acerca da sexualidade de cada um, tema que me interessa muito depois do primeiro trago de álcool. afinal o Pedro até tinha tido várias namoradas antes de entender o que queria realmente e a Bli não era propriamente um rato de biblioteca, mas antes uma rata muito bem sucedida no amor de ocasião, tinham ambos a libido de um presidiário ou dois, por isso a conversa foi conduzida, controlada, talhada por mim. conduzi-a descontroladamente no sentido de acabarmos os três em casa dele, "um t1 em Alfama com um pátio reservadíssimo onde instalei uma banheira de grupo para as noites em que faço mais do que um amigo" (sic), ela morava numa "vivenda em Caneças", a escolha foi simples.
não sei porque me coloco nestas situações, claramente a alma do acontecimento era eu, a fazer a ponte entre os dois, e atirei-me, mesmo sendo óbvio que qualquer um deles queria apenas foder a ponte. no fundo, como sempre, queria ver até onde conseguia levar aquilo, algo novo, com a bênção de algo já visto, mesmo sem ter idealizado uma forma airosa de me pôr a arder caso tudo deixasse de ter piada ou me passasse a bebida. em linguagem futebolística chama-se a isto "correr mais que a bola". a verdade é que o Pedro era um gajo fixe, já me tinha surpreendido com algumas importantes definições de cultura e personalidade que me eram próximas, a ter alguma experiência com outro gajo, já tinha pensado nisto, que fosse alguém assim. tinha também feito uma piada qualquer com "Lamb Crica" quando mencionámos o jantar no restaurante indiano, e assumi imbecilmente que aquilo fosse para me descansar em caso de sexo a três. e descansei.
o álcool já ia alto, fomos todos para casa dele, não sem antes passarmos por uma rua escura para mijar. eu e o Pedro trazíamos bebidas na mão, assim, a Bli segurou nas nossas pilas, uma de cada lado, gozou com o tamanho da minha, ríamos todos às gargalhadas, sacudiu-as embora o Pedro não tivesse bem acabado de mijar, lançando pingos quentes sobre todos nós e talvez nas bebidas e rimo-nos ainda mais. fiz uma piada com o facto de não conseguir mijar com alguém atrás de mim, mas conseguir fazê-lo com alguém a segurar-me na pila.
- podes passar a pedi-lo aos teus companheiros de urinol.
rimos muito. no táxi para Alfama fui eu no meio, comecei a apalpar uma mama da Bli com as duas mãos, ela agarrou-me numa delas e levou-a ao colo do Pedro. não a mexi, congelado, e tentei antes concentrar-me no tamanho daquela maravilha da engenharia da natureza que era uma mama da Bli. grande e rija, como a minha pila ficou quando o Pedro a agarrou. isto porque inicialmente pensei que era a mão da Bli. o taxista parou o carro de repente e disse que na presença de Jesus não admitia deboche, muito menos deboche homem-sexual. claro, para segurar um crucifixo gigante, era necessário um retrovisor do tamanho da minha televisão, embora Jesus não se tivesse manifestado enquanto eu ainda estava sequiosamente a sondar a Bli por leite materno. acalmámos ou disfarçámos melhor, chegámos a casa do Pedro já eu tinha as cuecas da Bli nos dentes.
foi tudo muito rápido até eu estar deitado no sofá, com a Bli e o Pedro a desapertar-me as calças enquanto se beijavam. o Pedro mais uma vez agarrou-me qualquer coisa e eu tentei ganhar tempo, tinha que ir mijar uma última vez. na casa de banho tive uma tontura com o papel de parede, tinha umas cores berrantes em cornocópias, parecia estar a mexer ou a gritar comigo, deu-me uma náusea e ajoelhei-me na sanita a vomitar. o frio da sanita foi o abraço possível naquele momento, e assim fiquei algum tempo, até que adormeci no tapete felpudo azul-cueca que destoava naquela casa de banho decorada como a sala de estar da minha tia.
acordei sem noção do tempo que estive deitado, não me pareceu muito. levantei-me, lavei a boca com um bocado de pasta de dentes bochechada, e voltei a sentir-me acordado, revigorado. ainda estava a segurar nas cuecas azuis da Bli, lembrei-me das mamas dela, que estariam elas a fazer? não entendo o que se passa quando bebo e durmo um bocado, acordo sempre com uma erecção pétrea, difícil de desfazer devido a alguma insensibilidade ebriosa. não obstante, a testosterona substitui-me o sangue e obriga-me a procurar desfazê-la, animalmente, tudo me excita, o Pedro já me excitava, talvez ele como homem de festas que constantemente acabam em sexo soubesse melhor como lidar com este problema banal, talvez me maravilhasse com uma técnica apuradíssima e uma reveladora omnisciência do meu caminho para o orgasmo, a pila dele seria maior que a minha? finalmente imaginava um verdadeiro threesome, em que participaria por inteiro, com a substancial Bli a suplicar ser devorada e usada e suada pelos dois. queria beijá-la à frente dele, queria que ele a beijasse, como a beijava contra-senso há bocado na sala. receei que a espera lhes tivesse refreado o ímpeto e estivessem a dormir, teria que os despertar outra vez, sentia-me capaz disso. a sala estava às escuras, vinha apenas um som maquinal de um corredor, um som bastante claro, segui-o e acabei à porta de um quarto com a porta mal encostada. não entrei, lá dentro vi os dois corpos à luz da lua de Lisboa, num movimento continuo, ela estava por cima, perfeita, ondulante, carnal, em vias de descontrolo, ele estava por baixo, algo atlético, com a cara que eu gostaria de fazer durante o sexo, muito cinematográfica. as mãos firmes na anca dela marcavam a cadência, mas permitiam veleidades. a anca dela obedecia, as mãos no peito dele com uma minúcia espásmica, de vez em quando arranhavam-lhe o corpo e aceleravam-lhe o movimento quando a timidez lhe parecia ignóbil face àquele gozo. fiquei ali a observar, estático, desprezado, excitado além do ponto que a minha pele parecia aguentar. o Pedro viu-me, fitou-me uns segundos e ignorou-me, a Bli veio-se, na perdição e no choro próprios de alguém que acaba de descobrir a vida, eu fui-me, para casa, a pé, sem a certeza de qual deles me estava a dobrar a alma de ciúme e euforia.
roupa usada
vestir as cuecas do dia anterior não me faz tanta impressão como calçar as meias usadas e húmidas. sempre que acordo numa casa que não é a minha vivo esse prazer desconfortável de procurar a roupa amarrotada, as meias enroladas num casulo, vestir a t-shirt que parece um trapo de lavar a casa de banho. por vezes calço os ténis sem meias e guardo-as nos bolsos, mais tarde encontro-as enquanto procuro a carteira num café. nem sempre dá para tomar banho, quando dá é menos mau. mas mesmo que não tome, consigo tirar prazer em sair à rua de cabelo seboso porque fica mais domesticável e sinto que toda a gente percebe que passei a noite em casa de uma miúda gira. o verdadeiro prazer advém, é óbvio, dessa infantil sensação de vitória por ter tido sexo, de ter conhecido uma rapariga nova, a sua casa, a sua decoração, o seu corpo, o seu orgasmo, a sua casa de banho, e eventualmente o seu frigorífico. a intimidade é a minha perdição.
gosto quando têm casa própria, ser convidado para esse ninho de forma imprevista é uma parte importante da tesão da caça. isto deve estar relacionado com outro dado, gosto que tomem a iniciativa mas de forma envergonhada e até trapalhona, mostra coragem apesar da consciência de certas limitações e ridículos e uma capacidade de auto-crítica jocosa. merda, como eu adoro gajas patetas. convidar um rapaz para sua casa, entre justificações pelo dálmata de loiça na entrada e a lassitude de umas cuecas usadas no chão da casa de banho, é em tudo uma patetice deliciosa e excitante. aquela casa não é um ninho de amor, é simplesmente a casa de uma rapariga solteira que hoje, inadvertidamente, se enrolou com um gajo e não teve tempo de arrumar as vergonhas. na verdade, o verdadeiro ridículo dá-se quando tentam esconder alguma vergonha e decidem mostrar coisas que preferia não ver, como livros de autores merdosos, como umas cuecas especiais para noites de núpcias. isto pode tornar-se bastante confrangedor, porque demonstra orgulho na bimbalhice ou pior, a tentativa de impressionar com um ideal de expectativas muito reles. deixa-me sempre a libido em baixo, passo a metáfora.
tenho amigos que preferem one night stands em sua própria casa, isso tem qualquer coisa de primário, imagino-os a levá-las pelos cabelos, mas entendo a matéria territorial. mas a minha casa também não é nenhum ninho de amor, é só a casa de um gajo solteiro. só trago aqui alguém em ultíssimo recurso. se a quisesse arrumar não conseguiria, a minha visão filtra a desarrumação e deixaria certamente um rolo de papel higiénico ao lado da televisão, uma caixa de pizza debaixo de uns papéis ou uma garrafa de whiskey com beatas no braço do sofá. além disso a minha decoração não vai além de uma fotografia minha e da Sofia que me tenho esquecido de tirar ao longo destes 3 anos de um móvel da sala. já tive que dizer que era minha irmã, mas duvido que aquela mão na mama possa ser interpretado de forma fraternal.
não quero namoradas, já tive, já entendi do que se trata e para onde inevitavelmente caminha. quero ser solteiro e conhecer as mulheres que me apetecer, sem complicações. não entendo de que se serve estragar a memória de uma pessoa que se adora prolongando uma relação até à total insanidade ou falta de bom senso que imperam no final de todas as relações. acabam sempre de forma apoteótica e massacrante, mesmo que apenas para um dos implicados, mesmo que silenciosamente. agora quero amizades íntimas, beber um copo com alguém disposto a deixar-se levar, tomar duche com uma miúda que conheço há dois dias, experimentar a confiança em brincadeiras cada vez mais exageradas, os espíritos estão muito mais abertos nessa altura, aceita-se tudo. como é que eu conseguiria, com a Sofia, fazer uma pizza fight a dois no Casanova até ser convidado a sair, como na semana passada? ou foder numa casa de banho para crianças no Oceanário? aliás, tenho que dar a mão à palmatória, como é que a Sofia podia fazer isso comigo, porque fui eu quem sempre se preocupou com as aparências. e com a moralidade, e com o desperdício de comida. mas ela exagerava na brincadeira e depois queixava-se de eu não a acompanhar nas suas infantilidades. com a Sofia tudo tinha que ser um momento kodak. espero que o tal produtor tenha andamento para as brincadeirinhas dela. talvez tenha, pessoal da televisão anda sempre cocainado e hiper-divertido.
enfim, não queria falar outra vez na Sofia.
acho que estes tempos não são para se viver em casal. tempos de crise e oportunidade. o mundo está ai, todo, a vertigem da sobrevivência liberta instinto, as experiências são profundas e vívidas. os casais ficam por casa, no sofá em frente à televisão, cada um deitado para seu lado, ela põe-lhe os pés no colo e ele faz-lhe massagens. deprimente. o amor vai-se escoando desse saco que é "a relação" e no fim fica apenas um mosto, a massa de ressentimentos, um kit para usar em discussões, misturado com dependência e falta de confiança, que o amor levou. mas atenção, também não estou aqui fazer a apologia do solteiro ressabiado. estou sozinho porque quero. posso sair todas as noites e faço-o, e todas as noites posso acabar na casa de alguém diferente. se tiver que vir dormir sozinho à minha casa de solteiro, que tresanda a relação falhada, que se foda. é temporário. amanhã é outro dia e outra noite, outra oportunidade. e pelo menos aqui neste ninho pode beber-se em silêncio.
gosto quando têm casa própria, ser convidado para esse ninho de forma imprevista é uma parte importante da tesão da caça. isto deve estar relacionado com outro dado, gosto que tomem a iniciativa mas de forma envergonhada e até trapalhona, mostra coragem apesar da consciência de certas limitações e ridículos e uma capacidade de auto-crítica jocosa. merda, como eu adoro gajas patetas. convidar um rapaz para sua casa, entre justificações pelo dálmata de loiça na entrada e a lassitude de umas cuecas usadas no chão da casa de banho, é em tudo uma patetice deliciosa e excitante. aquela casa não é um ninho de amor, é simplesmente a casa de uma rapariga solteira que hoje, inadvertidamente, se enrolou com um gajo e não teve tempo de arrumar as vergonhas. na verdade, o verdadeiro ridículo dá-se quando tentam esconder alguma vergonha e decidem mostrar coisas que preferia não ver, como livros de autores merdosos, como umas cuecas especiais para noites de núpcias. isto pode tornar-se bastante confrangedor, porque demonstra orgulho na bimbalhice ou pior, a tentativa de impressionar com um ideal de expectativas muito reles. deixa-me sempre a libido em baixo, passo a metáfora.
tenho amigos que preferem one night stands em sua própria casa, isso tem qualquer coisa de primário, imagino-os a levá-las pelos cabelos, mas entendo a matéria territorial. mas a minha casa também não é nenhum ninho de amor, é só a casa de um gajo solteiro. só trago aqui alguém em ultíssimo recurso. se a quisesse arrumar não conseguiria, a minha visão filtra a desarrumação e deixaria certamente um rolo de papel higiénico ao lado da televisão, uma caixa de pizza debaixo de uns papéis ou uma garrafa de whiskey com beatas no braço do sofá. além disso a minha decoração não vai além de uma fotografia minha e da Sofia que me tenho esquecido de tirar ao longo destes 3 anos de um móvel da sala. já tive que dizer que era minha irmã, mas duvido que aquela mão na mama possa ser interpretado de forma fraternal.
não quero namoradas, já tive, já entendi do que se trata e para onde inevitavelmente caminha. quero ser solteiro e conhecer as mulheres que me apetecer, sem complicações. não entendo de que se serve estragar a memória de uma pessoa que se adora prolongando uma relação até à total insanidade ou falta de bom senso que imperam no final de todas as relações. acabam sempre de forma apoteótica e massacrante, mesmo que apenas para um dos implicados, mesmo que silenciosamente. agora quero amizades íntimas, beber um copo com alguém disposto a deixar-se levar, tomar duche com uma miúda que conheço há dois dias, experimentar a confiança em brincadeiras cada vez mais exageradas, os espíritos estão muito mais abertos nessa altura, aceita-se tudo. como é que eu conseguiria, com a Sofia, fazer uma pizza fight a dois no Casanova até ser convidado a sair, como na semana passada? ou foder numa casa de banho para crianças no Oceanário? aliás, tenho que dar a mão à palmatória, como é que a Sofia podia fazer isso comigo, porque fui eu quem sempre se preocupou com as aparências. e com a moralidade, e com o desperdício de comida. mas ela exagerava na brincadeira e depois queixava-se de eu não a acompanhar nas suas infantilidades. com a Sofia tudo tinha que ser um momento kodak. espero que o tal produtor tenha andamento para as brincadeirinhas dela. talvez tenha, pessoal da televisão anda sempre cocainado e hiper-divertido.
enfim, não queria falar outra vez na Sofia.
acho que estes tempos não são para se viver em casal. tempos de crise e oportunidade. o mundo está ai, todo, a vertigem da sobrevivência liberta instinto, as experiências são profundas e vívidas. os casais ficam por casa, no sofá em frente à televisão, cada um deitado para seu lado, ela põe-lhe os pés no colo e ele faz-lhe massagens. deprimente. o amor vai-se escoando desse saco que é "a relação" e no fim fica apenas um mosto, a massa de ressentimentos, um kit para usar em discussões, misturado com dependência e falta de confiança, que o amor levou. mas atenção, também não estou aqui fazer a apologia do solteiro ressabiado. estou sozinho porque quero. posso sair todas as noites e faço-o, e todas as noites posso acabar na casa de alguém diferente. se tiver que vir dormir sozinho à minha casa de solteiro, que tresanda a relação falhada, que se foda. é temporário. amanhã é outro dia e outra noite, outra oportunidade. e pelo menos aqui neste ninho pode beber-se em silêncio.
o que eu tinha a perder
há cerca de 15 anos, eu estava na estação de comboios de Caxias, à espera do primeiro comboio da manhã (noite). deitado num banco, no banco seguinte estava o meu amigo Pastel. vínhamos de uma festa estranha, a aniversariante tinha alugado um restaurante que era na prática uma casa enorme sobre uma encosta da marginal. grande terraço, grande vista de mar, mas era noite sem lua, não se via um cu. dinheiro adolescentemente gasto. mas era giro.
tínhamos chegado já no fim da festa. vínhamos de outra festa. prometi à aniversariante que passaria no fim da noite no restaurante. só a conhecíamos a ela e uma amiga, que nos recebeu à porta. a Fafá. "AAAIIII ele chegou!! espera aí Zé, não sei se é boa ideia ires ali agora. é melhor eu ir lá primeiro, espera aqui!" e do fundo dos meus 18 anos eu esperei. eu e o Pastel. "já deve estar agarrada a outro gajo" disse-me ele. pois deve.
a Mia apareceu, tapou com as duas mãos a cara, adorável, e disse "eu não acredito! isto é que são horas?" e deu-me um beijo na boca como nos filmes. estava boa, gira, bêbada. de vestido curto preto, colans, bêbada. depois do beijo, a Fátima aproximou-se e disse baixo "Mia, olha lá o Bebé, está todo ciumento". o ex-namorado. aparentemente tinha direito ao ciúme, porque a Mia disse-me "desculpa, mas hoje é complicado, devias ter aparecido mais cedo". disse-me para esperar um bocado e foi lá dentro. a ideia de haver um gajo que sabia quem eu era, sabia que eu estava ali e tinha ciúmes da minha presença, era agradável, é que eu não sabia absolutamente nada acerca dele. eu e o Pastel ficámos cá fora a conhecer o sítio, tinha uns jardins, uns casais protegidos pela falta de lua, umas miúdas a vomitar numa varanda, uns putos a travar a respiração "hey, querem?" ok, jafumega.
o Pastel perguntou-me se eu sabia do outro gajo. sim, sabia da possibilidade. "e queres esperar? ou vamos embora?" não sei, vou lá ver como está aquilo. já tinham passado uns 15 minutos, que na minha percepção do tempo encharcada em álcool equivalem a 45. fui. estava um grupo grande sentado num sofá enorme e a Mia estava ao colo do Bebé aos beijos e a fazer-lhe festas no cabelo. provavelmente esqueceu-se de mim, pensei, abrindo para mim próprio a possibilidade de ir lá dizer olá. os 18 anos podem ser por si só uma situação muito ridícula. o meu 'par ou ímpar' interno safou-me à humilhação.
no caminho para a estação ia completamente colérico. aquela vaca! não se faz! "pois não" pois não Pastel! vim cá fazer figura de otário, que merda é esta? nunca mais lhe falo! mas no fundo só estava frustrado por ter decidido vir embora. talvez se lá ficasse mais meia hora ele se tivesse ido embora e eu ficasse com ela. e sexo! e tudo. agora ao chegar à estação já não tinha a mínima esperança de voltar a vê-la. aquele comboio ia levar-me dali para sempre.
deitado no banco, disse então ao Pastel que ia voltar para lá. "estás totó? que ridículo, vais lá fazer o quê?" não sei, vou fumar outra com aqueles putos, vou fazer uma proposta a um daqueles casais do jardim, ou vou aproveitar-me daquela miúda que estava a vomitar. entretanto pode ser que a Mia se arrependa, ela insistiu imenso para eu lá ir ter, no mínimo devia ter-me despedido. "foda-se, que camelice. ela é assim tão boa na cama?" não sei, nunca estive na cama com ela. a última vez que saímos demos uns melos num sofá de uma disco do Cais do Sodré, e foi só isso. mas acho que estou apaixonado! "epá... tu deves ser é parvo. não! eu é que devo ser parvo para vir para aqui contigo" não sejas assim, já fiz o mesmo por ti, com aquela Milene do Casal Ventoso. ele andava doido com ela. cheguei a ter que esperar por eles de noite num jardim de prostituição de agarrados. "ela não era do Casal Ventoso, era de Campo de Ourique". whatever.
a minha cabeça funcionava então numa equação simples de custo-benefício, mas do lado do custo estava quase sempre o meu amor próprio, já que dinheiro era o que havia disponível para esse dia e o desgaste físico aos 18 anos é residual, sentimo-lo como se fosse crónico e vivemos com ele, enquanto houver fígado. às expensas desse amor próprio voltei a ver a Mia e valeu a pena. na noção adolescente de 'valer a pena'. existe uma capacidade de encaixe completamente elástica num adolescente, que depende sobretudo da igual elasticidade de aceitação dos nossos pares, que por compaixão nos esquecem as fraquezas com facilidade. não acho que os adolescentes sejam assim tão cruéis. sobretudo tendo em conta a quantidade de situações humilhantes em que nos colocamos constantemente. sobretudo comparando com os trintões e a sua ilusão de que já são adultos respeitáveis e selectivos.
tínhamos chegado já no fim da festa. vínhamos de outra festa. prometi à aniversariante que passaria no fim da noite no restaurante. só a conhecíamos a ela e uma amiga, que nos recebeu à porta. a Fafá. "AAAIIII ele chegou!! espera aí Zé, não sei se é boa ideia ires ali agora. é melhor eu ir lá primeiro, espera aqui!" e do fundo dos meus 18 anos eu esperei. eu e o Pastel. "já deve estar agarrada a outro gajo" disse-me ele. pois deve.
a Mia apareceu, tapou com as duas mãos a cara, adorável, e disse "eu não acredito! isto é que são horas?" e deu-me um beijo na boca como nos filmes. estava boa, gira, bêbada. de vestido curto preto, colans, bêbada. depois do beijo, a Fátima aproximou-se e disse baixo "Mia, olha lá o Bebé, está todo ciumento". o ex-namorado. aparentemente tinha direito ao ciúme, porque a Mia disse-me "desculpa, mas hoje é complicado, devias ter aparecido mais cedo". disse-me para esperar um bocado e foi lá dentro. a ideia de haver um gajo que sabia quem eu era, sabia que eu estava ali e tinha ciúmes da minha presença, era agradável, é que eu não sabia absolutamente nada acerca dele. eu e o Pastel ficámos cá fora a conhecer o sítio, tinha uns jardins, uns casais protegidos pela falta de lua, umas miúdas a vomitar numa varanda, uns putos a travar a respiração "hey, querem?" ok, jafumega.
o Pastel perguntou-me se eu sabia do outro gajo. sim, sabia da possibilidade. "e queres esperar? ou vamos embora?" não sei, vou lá ver como está aquilo. já tinham passado uns 15 minutos, que na minha percepção do tempo encharcada em álcool equivalem a 45. fui. estava um grupo grande sentado num sofá enorme e a Mia estava ao colo do Bebé aos beijos e a fazer-lhe festas no cabelo. provavelmente esqueceu-se de mim, pensei, abrindo para mim próprio a possibilidade de ir lá dizer olá. os 18 anos podem ser por si só uma situação muito ridícula. o meu 'par ou ímpar' interno safou-me à humilhação.
no caminho para a estação ia completamente colérico. aquela vaca! não se faz! "pois não" pois não Pastel! vim cá fazer figura de otário, que merda é esta? nunca mais lhe falo! mas no fundo só estava frustrado por ter decidido vir embora. talvez se lá ficasse mais meia hora ele se tivesse ido embora e eu ficasse com ela. e sexo! e tudo. agora ao chegar à estação já não tinha a mínima esperança de voltar a vê-la. aquele comboio ia levar-me dali para sempre.
deitado no banco, disse então ao Pastel que ia voltar para lá. "estás totó? que ridículo, vais lá fazer o quê?" não sei, vou fumar outra com aqueles putos, vou fazer uma proposta a um daqueles casais do jardim, ou vou aproveitar-me daquela miúda que estava a vomitar. entretanto pode ser que a Mia se arrependa, ela insistiu imenso para eu lá ir ter, no mínimo devia ter-me despedido. "foda-se, que camelice. ela é assim tão boa na cama?" não sei, nunca estive na cama com ela. a última vez que saímos demos uns melos num sofá de uma disco do Cais do Sodré, e foi só isso. mas acho que estou apaixonado! "epá... tu deves ser é parvo. não! eu é que devo ser parvo para vir para aqui contigo" não sejas assim, já fiz o mesmo por ti, com aquela Milene do Casal Ventoso. ele andava doido com ela. cheguei a ter que esperar por eles de noite num jardim de prostituição de agarrados. "ela não era do Casal Ventoso, era de Campo de Ourique". whatever.
a minha cabeça funcionava então numa equação simples de custo-benefício, mas do lado do custo estava quase sempre o meu amor próprio, já que dinheiro era o que havia disponível para esse dia e o desgaste físico aos 18 anos é residual, sentimo-lo como se fosse crónico e vivemos com ele, enquanto houver fígado. às expensas desse amor próprio voltei a ver a Mia e valeu a pena. na noção adolescente de 'valer a pena'. existe uma capacidade de encaixe completamente elástica num adolescente, que depende sobretudo da igual elasticidade de aceitação dos nossos pares, que por compaixão nos esquecem as fraquezas com facilidade. não acho que os adolescentes sejam assim tão cruéis. sobretudo tendo em conta a quantidade de situações humilhantes em que nos colocamos constantemente. sobretudo comparando com os trintões e a sua ilusão de que já são adultos respeitáveis e selectivos.
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