roupa usada

vestir as cuecas do dia anterior não me faz tanta impressão como calçar as meias usadas e húmidas. sempre que acordo numa casa que não é a minha vivo esse prazer desconfortável de procurar a roupa amarrotada, as meias enroladas num casulo, vestir a t-shirt que parece um trapo de lavar a casa de banho. por vezes calço os ténis sem meias e guardo-as nos bolsos, mais tarde encontro-as enquanto procuro a carteira num café. nem sempre dá para tomar banho, quando dá é menos mau. mas mesmo que não tome, consigo tirar prazer em sair à rua de cabelo seboso porque fica mais domesticável e sinto que toda a gente percebe que passei a noite em casa de uma miúda gira. o verdadeiro prazer advém, é óbvio, dessa infantil sensação de vitória por ter tido sexo, de ter conhecido uma rapariga nova, a sua casa, a sua decoração, o seu corpo, o seu orgasmo, a sua casa de banho, e eventualmente o seu frigorífico. a intimidade é a minha perdição.

gosto quando têm casa própria, ser convidado para esse ninho de forma imprevista é uma parte importante da tesão da caça. isto deve estar relacionado com outro dado, gosto que tomem a iniciativa mas de forma envergonhada e até trapalhona, mostra coragem apesar da consciência de certas limitações e ridículos e uma capacidade de auto-crítica jocosa. merda, como eu adoro gajas patetas. convidar um rapaz para sua casa, entre justificações pelo dálmata de loiça na entrada e a lassitude de umas cuecas usadas no chão da casa de banho, é em tudo uma patetice deliciosa e excitante. aquela casa não é um ninho de amor, é simplesmente a casa de uma rapariga solteira que hoje, inadvertidamente, se enrolou com um gajo e não teve tempo de arrumar as vergonhas. na verdade, o verdadeiro ridículo dá-se quando tentam esconder alguma vergonha e decidem mostrar coisas que preferia não ver, como livros de autores merdosos, como umas cuecas especiais para noites de núpcias. isto pode tornar-se bastante confrangedor, porque demonstra orgulho na bimbalhice ou pior, a tentativa de impressionar com um ideal de expectativas muito reles. deixa-me sempre a libido em baixo, passo a metáfora.

tenho amigos que preferem one night stands em sua própria casa, isso tem qualquer coisa de primário, imagino-os a levá-las pelos cabelos, mas entendo a matéria territorial. mas a minha casa também não é nenhum ninho de amor, é só a casa de um gajo solteiro. só trago aqui alguém em ultíssimo recurso. se a quisesse arrumar não conseguiria, a minha visão filtra a desarrumação e deixaria certamente um rolo de papel higiénico ao lado da televisão, uma caixa de pizza debaixo de uns papéis ou uma garrafa de whiskey com beatas no braço do sofá. além disso a minha decoração não vai além de uma fotografia minha e da Sofia que me tenho esquecido de tirar ao longo destes 3 anos de um móvel da sala. já tive que dizer que era minha irmã, mas duvido que aquela mão na mama possa ser interpretado de forma fraternal.

não quero namoradas, já tive, já entendi do que se trata e para onde inevitavelmente caminha. quero ser solteiro e conhecer as mulheres que me apetecer, sem complicações. não entendo de que se serve estragar a memória de uma pessoa que se adora prolongando uma relação até à total insanidade ou falta de bom senso que imperam no final de todas as relações. acabam sempre de forma apoteótica e massacrante, mesmo que apenas para um dos implicados, mesmo que silenciosamente. agora quero amizades íntimas, beber um copo com alguém disposto a deixar-se levar, tomar duche com uma miúda que conheço há dois dias, experimentar a confiança em brincadeiras cada vez mais exageradas, os espíritos estão muito mais abertos nessa altura, aceita-se tudo. como é que eu conseguiria, com a Sofia, fazer uma pizza fight a dois no Casanova até ser convidado a sair, como na semana passada? ou foder numa casa de banho para crianças no Oceanário? aliás, tenho que dar a mão à palmatória, como é que a Sofia podia fazer isso comigo, porque fui eu quem sempre se preocupou com as aparências. e com a moralidade, e com o desperdício de comida. mas ela exagerava na brincadeira e depois queixava-se de eu não a acompanhar nas suas infantilidades. com a Sofia tudo tinha que ser um momento kodak. espero que o tal produtor tenha andamento para as brincadeirinhas dela. talvez tenha, pessoal da televisão anda sempre cocainado e hiper-divertido.

enfim, não queria falar outra vez na Sofia.

acho que estes tempos não são para se viver em casal. tempos de crise e oportunidade. o mundo está ai, todo, a vertigem da sobrevivência liberta instinto, as experiências são profundas e vívidas. os casais ficam por casa, no sofá em frente à televisão, cada um deitado para seu lado, ela põe-lhe os pés no colo e ele faz-lhe massagens. deprimente. o amor vai-se escoando desse saco que é "a relação" e no fim fica apenas um mosto, a massa de ressentimentos, um kit para usar em discussões, misturado com dependência e falta de confiança, que o amor levou. mas atenção, também não estou aqui fazer a apologia do solteiro ressabiado. estou sozinho porque quero. posso sair todas as noites e faço-o, e todas as noites posso acabar na casa de alguém diferente. se tiver que vir dormir sozinho à minha casa de solteiro, que tresanda a relação falhada, que se foda. é temporário. amanhã é outro dia e outra noite, outra oportunidade. e pelo menos aqui neste ninho pode beber-se em silêncio.

o que eu tinha a perder

há cerca de 15 anos, eu estava na estação de comboios de Caxias, à espera do primeiro comboio da manhã (noite). deitado num banco, no banco seguinte estava o meu amigo Pastel. vínhamos de uma festa estranha, a aniversariante tinha alugado um restaurante que era na prática uma casa enorme sobre uma encosta da marginal. grande terraço, grande vista de mar, mas era noite sem lua, não se via um cu. dinheiro adolescentemente gasto. mas era giro.

tínhamos chegado já no fim da festa. vínhamos de outra festa. prometi à aniversariante que passaria no fim da noite no restaurante. só a conhecíamos a ela e uma amiga, que nos recebeu à porta. a Fafá. "AAAIIII ele chegou!! espera aí Zé, não sei se é boa ideia ires ali agora. é melhor eu ir lá primeiro, espera aqui!" e do fundo dos meus 18 anos eu esperei. eu e o Pastel. "já deve estar agarrada a outro gajo" disse-me ele. pois deve.

a Mia apareceu, tapou com as duas mãos a cara, adorável, e disse "eu não acredito! isto é que são horas?" e deu-me um beijo na boca como nos filmes. estava boa, gira, bêbada. de vestido curto preto, colans, bêbada. depois do beijo, a Fátima aproximou-se e disse baixo "Mia, olha lá o Bebé, está todo ciumento". o ex-namorado. aparentemente tinha direito ao ciúme, porque a Mia disse-me "desculpa, mas hoje é complicado, devias ter aparecido mais cedo". disse-me para esperar um bocado e foi lá dentro. a ideia de haver um gajo que sabia quem eu era, sabia que eu estava ali e tinha ciúmes da minha presença, era agradável, é que eu não sabia absolutamente nada acerca dele. eu e o Pastel ficámos cá fora a conhecer o sítio, tinha uns jardins, uns casais protegidos pela falta de lua, umas miúdas a vomitar numa varanda, uns putos a travar a respiração "hey, querem?" ok, jafumega.

o Pastel perguntou-me se eu sabia do outro gajo. sim, sabia da possibilidade. "e queres esperar? ou vamos embora?" não sei, vou lá ver como está aquilo. já tinham passado uns 15 minutos, que na minha percepção do tempo encharcada em álcool equivalem a 45. fui. estava um grupo grande sentado num sofá enorme e a Mia estava ao colo do Bebé aos beijos e a fazer-lhe festas no cabelo. provavelmente esqueceu-se de mim, pensei, abrindo para mim próprio a possibilidade de ir lá dizer olá. os 18 anos podem ser por si só uma situação muito ridícula. o meu 'par ou ímpar' interno safou-me à humilhação.

no caminho para a estação ia completamente colérico. aquela vaca! não se faz! "pois não" pois não Pastel! vim cá fazer figura de otário, que merda é esta? nunca mais lhe falo! mas no fundo só estava frustrado por ter decidido vir embora. talvez se lá ficasse mais meia hora ele se tivesse ido embora e eu ficasse com ela. e sexo! e tudo. agora ao chegar à estação já não tinha a mínima esperança de voltar a vê-la. aquele comboio ia levar-me dali para sempre.

deitado no banco, disse então ao Pastel que ia voltar para lá. "estás totó? que ridículo, vais lá fazer o quê?" não sei, vou fumar outra com aqueles putos, vou fazer uma proposta a um daqueles casais do jardim, ou vou aproveitar-me daquela miúda que estava a vomitar. entretanto pode ser que a Mia se arrependa, ela insistiu imenso para eu lá ir ter, no mínimo devia ter-me despedido. "foda-se, que camelice. ela é assim tão boa na cama?" não sei, nunca estive na cama com ela. a última vez que saímos demos uns melos num sofá de uma disco do Cais do Sodré, e foi só isso. mas acho que estou apaixonado! "epá... tu deves ser é parvo. não! eu é que devo ser parvo para vir para aqui contigo" não sejas assim, já fiz o mesmo por ti, com aquela Milene do Casal Ventoso. ele andava doido com ela. cheguei a ter que esperar por eles de noite num jardim de prostituição de agarrados. "ela não era do Casal Ventoso, era de Campo de Ourique". whatever.

a minha cabeça funcionava então numa equação simples de custo-benefício, mas do lado do custo estava quase sempre o meu amor próprio, já que dinheiro era o que havia disponível para esse dia e o desgaste físico aos 18 anos é residual, sentimo-lo como se fosse crónico e vivemos com ele, enquanto houver fígado. às expensas desse amor próprio voltei a ver a Mia e valeu a pena. na noção adolescente de 'valer a pena'. existe uma capacidade de encaixe completamente elástica num adolescente, que depende sobretudo da igual elasticidade de aceitação dos nossos pares, que por compaixão nos esquecem as fraquezas com facilidade. não acho que os adolescentes sejam assim tão cruéis. sobretudo tendo em conta a quantidade de situações humilhantes em que nos colocamos constantemente. sobretudo comparando com os trintões e a sua ilusão de que já são adultos respeitáveis e selectivos.

um fim infinito

a Rute. amiga dos tempos das bebedeiras com verde tinto, é uma excelente pessoa, gostei imenso dos primeiros tempos em que a conheci, saíamos muito, combinávamos coisas durante o dia, coisa rara nessa época. não me lembro de ter tido uma única discussão com ela nesses tempos, embora achasse que até que isso acontecesse não podíamos propriamente considerar amizade aquilo que tínhamos. até posso dizer que havia um flirt constante, pelo menos da minha parte, e que se não o pensasse correspondido não teria prosseguido com essa relação de forma tão constante. é essa a base das minhas relações humanas, é fácil admiti-lo, embora triste.

tenho uma imagem clara desses tempos, de uma felicidade só atingível pelo distanciamento temporal dos acontecimentos.

hoje em dia liga-me diariamente. sim, somos amigos, já discutimos várias vezes. fica a falar até ter que ir buscar um copo de água para humedecer a garganta, eu fico a ouvir ou a pensar na fome em África, até ela me fazer uma pergunta qualquer e tenho invariavelmente que pedir-lhe para repetir. a conversa gira quase sempre à volta da minha vida, o que é estranho, tendo em conta que eu praticamente só oiço. acaba sempre, sempre, com ela a perguntar-me se ando bem, que nunca digo nada, se preciso de falar, se precisares diz. ok, digo eu, eu digo.

"então e aquela Rita? sempre foste sair com ela na 4a feira?" fui. "ah e então? correu bem?" sim, acho que sim. "então?!" então o quê? "conta, nunca contas nada, quero saber." o que é que queres saber? sim, houve sexo, contentinha? "aaaahh, eu sabia! e foi bom?" foi normal, foi sexo, não nos conhecemos bem, contou mais o calor que o savoir faire. "ah, claro, agora com o tempo isso melhora sempre! vais ver." não, acho que não vai haver outras vezes. "então??" foi bom, mas não temos grande conversa, ela é dentista. "pois, estou a ver, mas não te preocupes, parte para outra, o que não te falta são interessadas" não estou preocupado. "e andas bem? às vezes tenho medo que te sintas sozinho" ando bem, acho que já tinhas perguntado. "ok, já sabes, se precisares de falar..." ok Rute.

e tu Rute? andas bem? lembro-me que não ficaste muito bem depois da última discussão que tivemos, lembro-me de partires um prato contra um espelho e este estilhaçar e um pedaço raspar-te a cara o suficiente para deixar um risco vermelho para sempre, lembro-me do teu choro convulso e do meu desespero para te acalmar sem poder simplesmente abandonar essa casa com medo de que fizesses uma estupidez maior. andas bem agora? ao fim de duas semanas do espaço infinito que te pedi voltaste a ligar-me como se tivéssemos acabado de nos conhecer ou pelo contrário, como se fôssemos amigos desde sempre, mas aquilo que eu consigo fingir à tua frente não consigo fingir na minha cabeça, e por isso todas as conversas contigo me lembram o alzeimer da minha avó. já estive louco por ti, se já não estou é porque houve um luto. morreu essa pessoa, tu és outra, que eu conheço mal e que me esforço por lembrar que conheço bem. não sei porque insistimos nisto, mas só tenho a agradecer-te que o façamos pelo telefone, porque quando te vejo ao vivo, essa cicatriz na cara transporta-me para o climax desse fim abominável e sinto arrepios de nojo a chicotear-me a consciência, apetece-me apagar com um gesto brusco essa memória gravada na tua cara, na verdade apetece-me apagar a tua cara inteira.

e tu Rute? conta lá. "está tudo bem, vou agora fazer um curso de fotografia" boa, lembro-me que tu tinhas muito jeito para tirar fotografias aos pés. "pois era, foi aquele Renato que te falei que me convidou, ele anda lá" ah sim, o Renato "ele dá um bocado em cima de mim, está sempre a ligar, mas acho que também não temos muito a ver. como tu e a dentista" pois, mas não te fazia mal estares com outras pessoas "sim, mas não ando à procura, estou bem comigo mesma. a conhecer-me a mim própria, estava mesmo a precisar de estar sozinha" ok "com tempo para estar com os meus amigos, tu incluído" ok.

branco frigorífico

chegou finalmente a casa, pousou as chaves na mesa do hall, despiu o casaco, pendurou-o, consigo vê-la daqui deste sofá. ela nem procura ver se eu estou na sala a olhar para ela, como costuma fazer. ignora-me completamente. passa na sala, diz-me olá ou diz olá para o ar, segue para a casa de banho. o tempo que lá demora parece-me uma eternidade, oiço o autoclismo, a torneira várias vezes, a porta do armário, calculo que saia já com a camisa de dormir. nem vai comer primeiro? e isto parece a torneira do bidé. porquê o bidé assim que chega a casa? demora mais um bocado, irrita-me esta demora, está a fazer de propósito. não entendo, chega a casa a esta hora, não avisa antes, não dá explicações depois. mas eu estava à espera disto, não estranho e não a vou chatear com uma coisa tão secundária. estamos há semanas nisto, hoje está pior. puxa outra vez o autoclismo. silêncio agora. então? oiço a porta abrir, quando chegar à sala não vou olhar para ela. vou esperar que ela fale comigo, me faça perguntas ou me dê alguma explicação. se me mantiver calado certamente ela vai precisar de quebrar o gelo, vai ficar irritada com o meu silêncio, provar do seu próprio remédio. este tratamento de facto aumenta os níveis de adrenalina de um morto. oiço outra porta a abrir, merda! foi para o quarto! não oiço nada daqui. o que é que ela está a fazer? que raiva. oiço uns murmúrios inidentificáveis. janela? telefone? televisão? temos televisão no quarto? não. deve ser telefone. a esta hora? penso em ir lá mas estou psicologicamente exausto e mais a raiva com o seu orgulho que não me deixam levantar para perceber o que se passa. prefiro evitar o ridículo de me aproximar e ela perceber que estou a tentar ouvi-la. tento distrair-me, esquecer o tempo a passar como um caracol, ver televisão, que é esta merda? pingo doce? que medo. está a sair, abre a porta do quarto, é agora? é agora. "estiveste ao telefone?" não consegui evitar, saltou-me do estômago. "não" "não? pareceu-me mesmo ter-te ouvido falar". não me respondeu. também não era bem uma pergunta, não posso censurá-la. não vem de camisa de dormir, vestiu uma t-shirt de alças branca e umas calças de fato de treino. apanhou o cabelo. descalça? está gira. puta. vai à cozinha, abre a porta do frigorífico e oiço mexer uns frascos e uns sacos. "eu fiz uma lasanha", grito-lhe "está no forno". "obrigada, não tenho fome" não tem fome mas está a preparar alguma coisa para comer. sempre pensei em fazer isto, estar em casa antes dela, fazer o jantar para mim e deixar o resto no forno à espera dela. sempre pensei e nunca o fiz, faço sempre uma sandes de pão de plástico, até hoje, e não foi este o resultado que imaginei. não vou lá dizer-lhe isso, é ridículo, uma humilhação completa e não é esse o âmago da questão. se é para falar fala-se do problema principal, do problema todo. está outra vez a demorar, já não consigo estar a ouvi-la sem a ver, começo a sentir umas desconfortáveis saudades dela, que estupidez. podia esquecer tudo por hoje, adiar a conversa para amanhã e passar esta noite enrolado a ela à frente da televisão e na cama, e quem sabe até pode haver sexo para fazer as pazes. não, ela nunca foi de sexo assim do nada. eu prevejo uma queca cá em casa com uma antecedência de vários dias, ultimamente semanas. além disso não posso ignorar o facto de ela ter chegado a esta hora sem qualquer justificação. vou à cozinha, preciso de vê-la. está sentada no chão ao pé do frigorífico a comer um iogurte. "então? no chão?" não me responde outra vez. "ouviste o que eu disse? o que é que se passa?" "ouvi, pensei que era uma pergunta retórica" sorri para mim, "e passa-se alguma coisa ou não?" "não, tudo normal" sorri formalmente e volta a olhar para baixo. eu posso ser estúpido mas não sou estúpido. ambos sabemos que se passa algo que é preciso esclarecer, mas já tentámos tantas vezes que ela diz já não aguentar mais esta conversa. e que merda é esta? sentada no chão da cozinha a ler um flyer da agência abreu? de alças e sem sutiã. nada típico. esta menina neat freak com esta máscara negligé. isto é para me provocar. e está a resultar. volta a saltar-me do fundo uma vontade de falar sem passar pelo cérebro. bom, "ouve, eu quero estar bem contigo, vamos esquecer isto. não estou chateado contigo, provavelmente tenho sido demasiado chato com coisas pouco importantes. se tenho sido chato é porque te adoro e às vezes preocupo-me demasiado. mas sei que és a mulher da minha vida e sabe-me bem dizer-te isto, de repente o resto é supérfluo" sorrio para ela, abandono-me, não pode correr mal se der parte fraca, mas se correr mal pelo menos fui honesto, é o que me vai na alma, não sei onde esta sensação estava escondida mas sabe mesmo bem dizê-la e pensá-la agora! é tão mais fácil ficar bem. é isto que é suposto acontecer entre dois seres humanos que decidiram juntar-se porque perceberam que se amam. é um cliché, mas é verdade. "ok zé, eu também não estou chateada. só tenho estado a pensar em muita coisa e preciso de mais algum tempo para perceber o que quero para mim e não tomar uma decisão irreflectida. quando eu conseguir falar falamos. ok?".

o big bang

quem és, onde estás e o que fazes aqui, podias perguntar-me se soubesses dizer os érres. eu também não sei. mas devia saber responder-te. eu não sei o que eu próprio aqui faço. conheço-me apenas medianamente. nem sei bem onde estamos. algures na via láctea, esse último bairro classificável antes do desconhecido, mas a via láctea não é uma área facilmente localizável. enfim, talvez seja localizável, mas em relação a quê? esquece, nem sabes o que é o desconhecido. o nosso tamanho relativiza a nossa localização, estamos sempre em casa. não sabes a nossa espécie, não sabes que tens mãos mas seguras-te ao meu dedo como a uma bóia salva-vidas desde esse naufrágio inverso. não sabes que tens quem te ame, mas sorris-me quando me reconheces na miríade de familiares que te sorriem e te apalpam perversamente enquanto outros te pegam ao colo nas últimas três horas e meia, como num bacanal de pedófilos com etiqueta.

o teu cérebro está pronto para tudo, virgem, podes vir a ser um astronauta ou um filho da puta. mas serás o meu filho da puta. é fácil dizê-lo porque ainda não o és nem perspectivo que venhas a ser, não pode ser difícil evitar que sejas alguém que desconheço. porque comunicamos. o teu cérebro não processa o conceito de linguagem, não me diferencias do meu gato em comunicação verbal. mas entendes quando te seguro ao colo se berras bestialmente que isso significa que é inevitável para mim fazê-lo. por mais que tudo o resto seja sugado para dentro desse hiato em que te fizeste. precisamente porque dependo agora mais de ti que tu de mim.

irmã, Lúcia

cheguei à esquina da rua do J e dei-lhe um toque para o telemóvel para descer. fiquei na D. Carlos, não gosto de ir até à porta dele, tenho sempre medo de encontrar a Lúcia, talvez porque a encontro sempre que me aproximo dali. tive há uns meses um fling com ela e desde que tivemos sexo perdi o interesse, para variar. o J apareceu e pela décima vez perguntou-me "porque é que não foste até ali? fui à janela e não te vi."
- porque não quero encontrar a Lúcia, tenho que explicar sempre que aqui venho?
- epá, ainda com essa merda. tenho-a visto com um amigo novo, já deve ter cagado para ti. vamos onde?
- tens visto? mas a entrar para casa dela?
- vi-os uma vez à porta do prédio, não sei se iam a sair ou a entrar. ou se estavam só ali. eu ia a sair. onde é que vamos?
- vamos ali ao pontão. mas viste-os mais que uma vez?
- caga lá na miúda, não andavas a evitá-la? vamos ao pontão fazer o quê? fumar uma? não tenho nada. queres passar no russo?
- não, deixei de fumar. brocas também. vamos só ali passear.
- ah passear, tão querido, como dois marinheiros apaichenados?
- não pá, queria falar contigo. mas diz-me lá viste-a mais que uma vez ou não?
- sim, vi várias vezes, uma delas ele tinha a mão no rabo dela. por isso não há dúvidas que há ali palhaçada. e da grossa, se é isso que queres saber.
- és mesmo besta. não.. quer dizer, sim, mas não é isso que me interessa, era só para saber se é uma cena séria.

J parou e olhou-me de frente.
- epá, explica lá isso bem, mas tu estás interessado na Lúcia ou não? pedi-te para não te meteres com ela, tinhas que fazer merda, e depois cagaste nela como é teu apanágio, agora não deixas a miúda continuar a vida dela?
- estás armado em vizinho galinha? tenho simplesmente um interesse especial por raparigas com quem tive uma proximidade deste género. saber se estão bem, curiosidades. nada mais.
- está bem, deve ser isso... faz o que quiseres, chapinha no teu próprio esterco. mas tenta não sujar toda a gente à tua volta. e o que é que querias falar comigo?

andámos mais um bocado, atravessámos a nova ponte pedonal sobre a 24 de Julho, a que sai em frente ao novo pontão que acaba num canteiro gigante dentro do rio, com árvores raquíticas que quando crescerem hão-de ficar muito bonitas, cheias de salitre e dar flores roxas que sujarão a calçada portuguesa com que algum génio se lembrou de calcetar a margem. vai dar uma óptima sopa de pedra quando vierem as marés vivas.

- acho que tenho cancro no testículo.
- o quê? no testículo?? só tens um?!
- pára lá de gozar, estou preocupado com isto. está um maior que o outro.
- isso pode ser cancro ou roubo. está um a roubar o outro.
- foda-se! para a próxima vou falar com o Manel. estou todo fodido com isto e tu estás a dar baile.
- não, só acho que andas hipocondríaco. devias era ir ver isso. eu não te vou apalpar os testículos, podes ter a certeza.
- achas que vá a um médico?
- não, a um veterinário.
- merda pá, estás impossível.

estava impossível, estranhamente sarcástico, sem o mínimo arrependimento de me estar a irritar, aliás, parecia estar só a pensar como me irritar mais.

- está tudo bem? - perguntei.
- sim. está tudo óptimo. pelo menos não tenho cancro.
.........
- tu gostas da Lúcia?
- eu, estás parvo? conheço-a desde pitinha.
- e então?
- e então nada, é tipo irmã, que estupidez de conversa é essa?
.........
- ok, então desculpa lá, eu é que ando preocupado com isto e ando um bocado irascível.
- também me parece. é porque deixaste de fumar? e que merda é essa, deixaste de fumar? tu nunca fumaste a sério.
- lá estás tu, que merda de conversa, tu é que és o grande fumador de Lisboa. os outros são amadores. deixei de fumar porque posso ter cancro no testículo.
- e tu fumas com os testículos? és claramente amador.
- sei lá, essas merdas podem estar todas relacionadas. é como o IRS e a Seg. Social. um gajo não arrisca.
- sabes o que é que está relacionado? doenças venéreas e não usar preservativo.
- ??
- sim, ela contou-me.
- a Lúcia?!
- claro.
- mas porque é que ela anda a falar disso contigo?? andas a comê-la? palhaço, todo moralista para mim. ahah.
- não ando a comê-la, não. há relações entre homens e mulheres sem ser a foder. estava preocupada com isso e veio perguntar-me pela tua vida "amorosa".
- e o que é que disseste?
- disse que não amavas ninguém. só fodias.
- ahah, estás armado em Florbela Espanca? não me lembro desses sentimentos honestos quando andaste a perseguir a minha irmã até ela te enfiar lá no quarto e depois desapareceres durante um ano.

o J ficou envergonhado mas raivoso. fica sempre, quando jogo o trunfo.

- então não me chateies mais com o teu colhão.